LOJA ONLINE

17 de jun. de 2020

Turnê Virtual de Lançamento de Steampunk Ladies: Choque do Futuro


Em dezembro de 2019 lançamos Steampunk Ladies: Choque do Futuro. Depois de um péssimo primeiro semestre na minha vida profissional, era um jeito massa de encerrar um dos anos mais emblemáticos da minha vida. Um dos grandes aprendizados do ano passado para mim foi que TALVEZ essa coisa de escrever possa dar certo profissionalmente. Mas boa parte dessa possibilidade residia nos EVENTOS. Se 2020 fosse um pouquinho melhor do que seu antecessor (que foi espetacular nesse quesito no segundo semestre) eu ia conseguir dar passos concisos nos meus objetivos com a arte.

Mas aí veio a pandemia.

Sem a possibilidade dos encontros presenciais, lançar uma história em quadrinhos virou um desafio. Toda uma articulação que eu havia construído pra fazer lançamentos do quadrinho novo pelo nordeste foi pro ralo. Pra completar mais uma vez na minha vida eu me vi às voltas com ela... a pilha de quadrinhos no guarda-roupa. Faziam anos que eu não acumulava livros meus aqui, por conta da boa saída que eles vinham tendo em eventos. Algo tinha de ser feito.

Num exercício de coragem e paciência, comecei a enviar mensagens para comics shops e livrarias pelo Brasil para montar uma alternativa. E a resposta foi muito positiva.

Assim, começando amanhã até o dia 3 de julho, acontecerá a Turnê Virtual de Lançamento de Steampunk Ladies: Choque do Futuro. Uma nova forma de distribuição, que monetiza também as lojas, foi pensada pra esses eventos. Respeitando as recomendações das organizações de saúde, os eventos digitais acontecerão em forma de transmissões ao vivo no Instagram das lojas, com minha participação e de outros colaboradores da HQ. Os quadrinhos nem vão chegar a ir para as comic shops, pra agilizar e baratear o processo eles vão sair daqui de casa, com autógrafo, dedicatória e brindes exclusivos (tudo que o leitor teria direito num evento presencial), direto para a casa dos compradores. A compra vai ser feita pelas lojas virtuais das comic shops e livrarias envolvidas. Inicialmente, a turnê “passará” pelas cidades de Fortaleza, Teresina, São Paulo e Curitiba.

É uma experiência. Vamos ver o que aprenderemos com isso.

O calendário de lançamentos ficou assim:

    18/06 - 18h30: Comic Boom! (São Paulo) - no perfil @comic_boom_
    23/06 - 17h: Quinta Capa (Teresina) - no perfil @quintacapalivraria
    26/06 - 20h30: Reboot (Fortaleza) - no perfil @rebootcomicstore
    29/06 - 17h: Arte e Letra (Curitiba) - no perfil @arteeletra
    01/07 - 16h: Itiban (Curitiba) - no perfil @itibancomicshop
    03/07 - 19h: Excelsior (São Paulo) - no perfil @excelsior_comic_shop

São vários papos e várias oportunidades de falar sobre a HQ e outros assuntos. É só chegar no perfil da loja no Instagram no dia e horário marcado. Por sinal SIGAM OS PERFIS das lojas, que estão passando por um momento tão complicado quanto eu. A essas lojas, fica o meu agradecimento pela confiança.

Posso contar com a sua presença?


21 de abr. de 2020

Prometeu inconfidente (conto) (Lista do Zé #30)



Olá, olá!

Que tal um conto hoje?

Era 2011 ou 2012, quando apareceu na Internet uma chamada para uma antologia da Editora Estronho com contos que misturassem os acontecimentos da Inconfidência Mineira com ficção científica ou fantasia (que hoje está disponível para venda aqui). Naquela época, como forma de treinar a escrita, eu tentava participar de todas antologias desse tipo abertas. E foi assim, com um tempo apertadíssimo, que escrevi o conto que vocês poderão ler logo abaixo, um encontro desse momento da história brasileira, lembrado nesse feriado nacional de hoje, com as ideias imortalizadas pela escritora Mary Shelley na sua obra-prima, Frankenstein ou o Prometeu Moderno, um dos meus livros favoritos.

Curiosidades sobre este conto
1. A cabeça de Tiradentes desapareceu mesmo.
2. Os textos extras que aparecem no início e no fim do conto só foram colocados para que ele alcançasse o número mínimo de caracteres exigido na seleção (você pode até ignorar se quiser, embora eu ache hoje que eles dão um certo charme).
3. Fiquei com uma vontade danada de revisar e reescrever o conto... Mas qual seria a graça, né? Melhor mostrar pra vocês essa foto da minha produção de dez anos atrás. Reli e ainda gosto da maior parte dele.

Receba textos como esse no seu e-mail. Inscreva-se na minha lista: bit.ly/listadoze


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Prometeu inconfidente
Por Zé Wellington
 
“Quereis, minhas senhoras, que vos conte uma história para disfarçar o enfado destas longas e frigidíssimas noites de maio? Mas, por melhor que seja a minha vontade, não sei como possa satisfazer ao vosso pedido... digo mal, – cumprir as vossas ordens. Este frio enregela-me as asas da imaginação; este vento glacial, que uiva pelos telhados, como uma matilha de cães danados, estes guinchos de corujas, que parecem lamentos de precitos, fazem a inspiração recolher-se toda encolhida aos mais íntimos esconderijos do crânio, tiritando de frio e de medo. A falar-vos verdade, minhas senhoras, tenho o espírito tão seco e estéril, como a caveira de um defunto enterrado há cem anos. Ah! falei-vos em caveira!... E não é que esta ideia de caveira veio despertar-me a reminiscência entorpecida pelo frio?! Foi como a vara mágica de Moisés, que fez rebentar água em jorros da aridez do rochedo do deserto. E, pois, vou contar-vos a história de uma caveira memorável. Não se arrepiem, minhas senhoras; não é história de almas do outro mundo, de trasgos, nem de duendes. É uma simples tradição nacional, ainda bem recente, e da nossa própria terra. Essa história eu a poderia intitular: História de uma Cabeça Histórica.”
A cabeça do Tiradentes, Bernardo Guimarães
 
 
I
Certamente a maioria das pessoas odeia ir ao dentista. Eliseu até que gostava: era uma das poucas situações em que o menino não precisava falar com quem estava com ele. Com aquele monte de ferramentas na boca, a sagrada obrigação de ser uma criatura social pertencia ao doutor.

– Com anestesia ou sem anestesia, Eliseu?

– Qual é o que dói menos? – disse o garoto com dificuldade, cuspindo na bata do médico.

– Possivelmente as duas doem do mesmo jeito...

Eliseu arregalou os olhos e antes que pudesse responder, o dentista puxou rapidamente o alicate da boca do garoto. Sangue espirrou para todos os lados, especialmente sobre o rosto do menino, que nem teve tempo de sentir dor. Delicadamente aquele doutor limpou o rosto de Eliseu, seu sorriso acalmando a perda do dente.

– Não é interessante, garoto, o funcionamento do corpo? Todo o fluido que corre nas nossas veias... O delicado fluxo do indivíduo? – disse o dentista.
Com a mão na boca, recuperando-se do trauma, Eliseu não conseguiu responder. O doutor riu e mudou de assunto, talvez pensando que o garoto pudesse não ter compreendido.

– É o meu último dia aqui, e você me dá sangue de presente, Eliseu... Vou demorar horas limpando este consultório.

– Você vai embora, doutor Joaquim? – Eliseu já se recuperava.

– Já chega deste lugar. Em tempos como estes a carreira militar é o melhor para um rapaz pobretão como eu. Seguirei patrulhando pelo Caminho Novo.

– Ser soldado deve ser emocionante... – disse Eliseu, levantando-se da cadeira.

– Tire essa ideia da cabeça, menino. Você é rico. Já deve ter uma cadeira na Universidade de Coimbra com seu nome. Você vai ser alguém na vida, não vai ser esquecido assim que morrer. Parece que quando falam de mim só dessa terrível alcunha que me botaram é que se lembram...

– Tiradentes, – um rapaz adentrou a sala gritando – já é hora!
Silvério, um rapaz comunicativo e bem mais novo que Tiradentes, invadiu o ambiente de forma expansiva, mexendo no material do dentista. Eliseu se incomodou com a liberdade do novo visitante, mas imaginou que ele poderia ser bem próximo ao doutor.

– Nosso trem parte logo.

– Calma, Silvério... Nunca vi alguém mais ansioso pela própria morte... Por que enfim é isso que procuramos na vida militar, correto? – disse Tiradentes, voltando-se para Eliseu.

– E o salário, Tiradentes... Esqueceu do polpudo salário que nossa maravilhosa coroa de Maria Louca nos proverá? – disse o jovem Silvério, sorrindo com seus dentes sujos e mal cuidados.

Tiradentes virou-se para Eliseu e tocou carinhosamente seu queixo:

– Preciso ir, menino. Quem sabe não nos encontramos por aí. Da próxima vez o doutor pode ser você... Um doutor de verdade, de diploma e tudo mais. Muito mais que um “arranca-dentes” minerador... Faça algo bom de sua vida, criança.
 
II
A Universidade de Coimbra era um ambiente com um quê selvagem. Entre nobres circulavam figuras exóticas, cabeças que pensavam à frente do seu tempo. Ou pelo menos assim achavam. Filho do Barão de Congonhas do Campo, Eliseu ganhara a oportunidade de viajar a Portugal, onde receberia educação formal superior. O jovem havia optado pelas ciências naturais como sua área de interesse.

– É um ramo interessante, Eliseu. Mas o que precisam na colônia é de engenheiros. Precisamos abrir estradas e canalizar os rios do Brasil selvagem! – um empolgado jovem, de cabelos ensebados e roupas bem passadas, declamou levantando-se da mesa, onde vários universitários congregavam.

– Eu certamente compreendo a sua exaltação, Luís Antônio. Mas desde criança me interessou entender a natureza, o funcionamento dos seres humanos... Na verdade, as ciências que me escolheram.

– Nunca deixe que sua paixão mande em você, Eliseu – de forma mais reservada, outro rapaz se manifestou. Francisco tinha o costume de posicionar-se com esse tipo de frase misteriosa – Conheço homens que perderam a razão aventurando-se em campos como a filosofia ou a lógica, desesperados pela verdade.

– A mim basta entender melhor o corpo humano, ir além da medicina – Eliseu apontou o próprio peito – Existem mais coisas nos guiando que se pode imaginar.
 
– Para alguns só um instrumento pode guiar o homem: o dinheiro. Nesse grupo se encaixa a realeza brasileira! – Luís Antônio esbravejava novamente, abrindo os braços em seu discurso – Nada mais minha família consegue tirar de ouro. Os impostos são vergonhosos. O tal do “quinto” é um ultraje! Agora peço que reflitam comigo: vejam o que aconteceu na França... Não cairia bem uma revolução no Brasil?!

– Se você quer a forca, Luís Antônio, deve gritar mais alto e fazer com que todos que passam pelo pátio da universidade lhe escutem... – disse Francisco.

Eliseu levantou-se da mesa e fez sinal de despedida aos amigos. Não tinha grandes interesses em revoltas ou política. Havia marcado para aquela tarde um encontro com um mestre na biblioteca. Durante a semana o professor João de Assis havia falado de um nobre estudante suíço, com ideias que, essas sim, poderiam revolucionar alguma coisa: o campo das ciências.

A biblioteca da Universidade de Coimbra era uma das maiores da Europa. Dezenas de fileiras de estantes criavam um labirinto ao qual Eliseu ainda não se habituara. Depois de alguns minutos circulando entre os escritos, o jovem encontrou seu mestre orientador, que estava junto de outros magistrados. Na roda, várias cabeças brancas, aparentando estarem seduzidos por um jovem de cabelos longos e negros que discursava com uma publicação de Paracelso na mão.

– Eliseu! Aguardávamos sua chegada ouvindo as incríveis proposições de nosso convidado. Permita-lhe apresentá-lo...

– Meus cumprimentos, Eliseu – o sotaque forte do jovem denunciava sua ascendência germânica. Mesmo assim, o domínio da língua portuguesa impressionava – Muito ouvi falar de você.

– O prazer é meu, senhor...

– Por favor... Apenas Victor. Não me chame pelo sobrenome, fazendo-me parecer velho, como os senhores aqui querem que eu pense que sou – apesar do tom sério, Victor esforçava-se para mostrar alguma simpatia.

– Ora, Victor, com suas ideias é difícil acreditar em sua pouca idade. É necessária uma vida inteira para pensar na mesma intensidade que você – o professor João parecia não se importar em bajular o convidado – Mas acredito que Eliseu adoraria ouvir um pouco dessas ideias enquanto tomamos um chá no refeitório da universidade.

– Seria um imenso prazer – disse Eliseu, já apontando a saída da biblioteca.

Durante uma tarde inteira, Eliseu e o professor ouviram Victor. Seu fascínio pelas leis da vida contagiava os ouvintes. Discursava sobre questões relacionadas ao conceito da abiogênese, a irreversibilidade da morte e ainda polêmicas relacionadas à alquimia, esta última perdendo espaço dia a dia para outras ciências do mundo moderno. Ao mesmo tempo em que falava, notava-se certa inconformação e olhar triste em seu semblante. Victor parecia fazer de seus estudos uma guerra particular.

– Acho que certas leis da vida talvez não possam ser revertidas... – Eliseu não conseguiu evitar pensar em voz alta.

– Ora, nobre colega, cada descoberta que o homem fez nos últimos anos partiu de um questionamento, de uma impossibilidade. Sei que muitas das minhas ideias tiram o sono de religiosos... – disse Victor com um pequeno sinal de irritação – Sei bem como Galileu se sentiu quando expôs sua teoria sobre o sol no centro do universo, os preconceitos e superstições que barraram suas descobertas.

– Quando pensar no sol, Victor, não se lembre de Galileu: lembre-se de Dédalo e Ícaro. Ou ainda de Prometeu – o professor João deu um curto sorriso ao final dessa afirmação. A ironia foi captada imediatamente pelo convidado, que pareceu incomodado.

– Hum. Acho que devo voltar à Suíça. Minha viagem a Portugal, ao que parece, não deve trazer grandes frutos. Auf Wiedersehen, senhores.
Victor levantou-se do seu banco, fez um cumprimento da forma mais educada que pôde e não aguardou a resposta dos seus ouvintes. Aquela discussão ainda ecoaria na cabeça de Eliseu por alguns dias.
 
III
A cansativa viagem de navio de volta ao Brasil estava finalmente acabada. Eliseu foi recebido pelos pais de forma efusiva. Junto deles, Elisabete, antes uma amiga de infância barulhenta e típica garotinha rica, agora uma bela dama de família nobre e quem se insistia dizer ser a melhor pretendente para o jovem recém-chegado.

– Meus cumprimentos, meus pais. Senhorita Elisabete... – Eliseu fez uma pequena reverência.

– Vejam se não é o novo médico da família! – o pai de Eliseu abraçava-o desengonçadamente.

– Estudei ciências naturais, meu pai... Acredito que “cientista” seja mais adequado.

– Não complique, meu filho... Estávamos ansiosos por sua volta. A jovem Elisabete não parava de falar em você durante esses anos – finalizava a mãe de Eliseu, transformando a situação na mais desconfortável possível.

Na carruagem que levava a família inteira ao lar, o pai de Eliseu o inteirava sobre as novidades na colônia. Percebia-se certo clima tenso nas ruas de Vila Rica.

– Depois dos franceses, deu nos jovens brasileiros de separar nossa capitania do restante do Brasil... Não que eu esteja satisfeito com a coroa... Continuam taxando o ouro até que pouco sobre a quem o minera. Mas, mais do que a gravata-borboleta, a forca parece ser o adereço de pescoço na moda no momento. Certos pensamentos não podem fazer as pessoas perderem a cabeça... Se é que você me entende, filho...

– Não se falava em outra coisa na universidade, pai.

– Enfim, vários foram presos. Alguns devem ser soltos. Têm suas costas largas, pertencem a cultos que vão além dos poderes da realeza... No entanto haverá aqueles que serão exemplos, que não devem escapar da punição. Inclusive, entre os presos, há alguém que talvez você conheça... Fazia bicos cuidando dos dentes da nobreza da cidade...
 
– Doutor Joaquim! – Eliseu não conseguiu esconder a surpresa.

– Por aqui era conhecido pelo apelido de “Tiradentes”... Andou se envolvendo em confusões no Rio de Janeiro. Está preso junto com outros de sua laia.

Eliseu pareceu sentido por não poder fazer algo a respeito. Imaginar que o doutor lutava pelos direitos da população fazia Eliseu nutrir algum respeito por ele, talvez nem tenha percebido a contaminação com essas ideias no ensino superior.

Já em sua casa, Eliseu continuava os estudos. Andava um pouco perturbado nos últimos meses: havia chegado a uma encruzilhada. Incomodava a ideia de não ir além das conclusões dos autores que estudava. Às vezes pensava não ter o estímulo certo, a inspiração adequada para encontrar novas conclusões. Tentava colocar os pensamentos em ordem quando ouviu a porta bater.

– Eliseu! A senhorita Elisabete o aguarda na sala de jantar! – a voz empolgada da mãe de Eliseu do lado de fora do quarto machucava seus tímpanos.

Foi encontrar-se com a jovem senhorita na sala de casa. Por mais bela que fosse a convidada, Elisabete com certeza não era das companhias mais interessantes no momento. Acostumado com as rodas calorosas de debates científicos, assuntos cotidianos como a vida social da burguesia ou o último romance de Castelo Branco não eram interessantes o suficiente para afastar os pensamentos de Eliseu de seu trabalho, um tratado que questionava as bases da biogênese. A sineta na porta de entrada da casa salvou o jovem de uma estafante descrição dos desenhos bordados no vestido mais novo da rainha.

Um empregado entregou um grande pacote a Eliseu.

Ao ver o nome do remetente, os olhos de Eliseu brilharam. Pediu licença à Elisabete, já se desculpando, afirmando ter de ir ao banheiro tratar de “assuntos naturais”. A garota sorriu e disse voltar em outra hora, recomendando a leitura de um bom romance à toalete, caso o intestino resolvesse não “trabalhar” de forma adequada.

Eliseu bateu com força a porta de seu quarto, trancando-o. Verificou mais uma vez o nome do remetente no envelope. Dentro dele um calhamaço de papel com uma série de estudos e o que parecia ser um diário. Um sucinto bilhete completava o pacote:

“Prezado colega, por vários momentos ensaiei jogar esse material à lareira. No entanto o conhecimento é um presente sem valor, se você não pode compartilhá-lo com alguém. Ao tempo que sigo na minha jornada moral final, procurando expiar meus pecados, deixo-lhe que analise todas as minhas descobertas. Sinto que esteve certo no nosso encontro e peço-lhe para que tome as providências adequadas para com este estudo. Peço perdão pela rudeza em minha despedida e espero que essa correspondência forneça o final adequado à nossa relação. Atenciosamente, Victor”.
 
IV
O decreto de condenação de Tiradentes à forca era o assunto da cidade. Eliseu recebeu a notícia com tristeza. Mas não pensou sobre isso durante muito tempo. No último ano a evolução de seu estudo foi notável. Nada seria possível sem as anotações de Victor, a quem o jovem cientista tinha enviado diversas correspondências sem obter nenhum retorno, como se o suíço tivesse desaparecido da face da Terra. De qualquer forma aquele parecia um caminho sem volta. Logo contestaria a teoria da biogênese. Eliseu sentiu que em breve criaria a vida em laboratório, por meios próprios.

Diariamente o jovem cientista visitava o necrotério da cidade, onde lhe eram permitidas autópsias em escravos e indigentes. Passava horas debruçado sobre os corpos recém mortos, exercitando o solve et coagula. Demorou a acreditar que Victor havia encontrado suas respostas em textos alquímicos, que uma prática antiga e obscura derrotaria as ciências naturais. Não apenas isso: suas descobertas poderiam oferecer uma derrota à própria morte.

No exato momento em que separava a cabeça de um velho negro morto, Eliseu ouviu barulhinhos agudos, como saltos finos, acertando o chão de madeira às suas costas.

– Eu... Eu... Poderia falar com você, Eliseu...? Lá fora, por favor! – enojada com a cena com que se deparava, Elisabete tinha um lenço cobrindo nariz e boca e nem esperou o jovem responder para sair da sala de autópsia.

Eliseu não parecia satisfeito pela interrupção de seu trabalho, mas as obrigações sociais, às quais ele ainda se sentia apegado, fizeram-no acompanhar à moça a calçada.

– Há uma semana espero algum comunicado seu, Eliseu! Você prometeu me levar ao teatro... – a jovem parecia indignada.

– Estou numa fase crucial da pesquisa, Elisabete. Sempre existem grandes peças em cartaz. Sei que a senhorita pode aguardar mais algumas semanas...

– Creio não ser possível, caro senhor. Caso não apareça pela noite em minha residência serei obrigada a aceitar o convite do nobre bancário da cidade.

– Pode ser que apareça, cara dama. Se conseguir executar meu experimento a tempo...

– Você foi avisado, Eliseu. Até mais ver. – Elisabete deu às costas, fazendo seu vestido serpentear no chão de terra batida como o rabo de um camaleão.

O jovem cientista retornou ao seu experimento não parecendo se importar com a ameaça da moça. Estava justamente testando a peça final de seu quebra-cabeça. Não poderia haver distrações. No entanto, Eliseu decepcionou-se ao ver que a cabeça do autopsiado era incompatível com seus planos. Teria que esperar um novo corpo, nas condições ideais, chegar ao necrotério.

Ansioso, Eliseu retornou à sua residência. Não almoçou e nem jantou. Foi direto ao seu quarto e folheou o diário de Victor, tentando conter sua agitação. O tom de horror que a narrativa do estudioso suíço tomava ao final dos escritos não impressionava mais o jovem cientista. Interessava-lhe muito mais emular o experimento do colega implantando algumas de suas próprias considerações. Mal tinha deitado na cama, quando ouviu um estardalhaço na rua. Um verdadeiro carnaval tomava conta da cidade. À frente do batalhão real, traziam a cabeça de Tiradentes.
 
V
Aquela noite parecia mais escura do que as outras. Na Praça de Santa Quitéria, um sentinela do império se esforçava para dormir. A imagem daquela cabeça numa estaca, que ele tinha a missão de vigiar, assombrava seu sono. Do outro lado da rua, esgueirando-se pelas esquinas de Vila Rica, o padre Manuel da Silva Gatto aproximava-se do soldado adormecido com uma vara. O religioso acreditava que aquela cena macabra subvertia não só os valores morais da cidade, mas também os ideais de liberdade em que ele acreditava. A densa neblina o ajudaria a furtar a cabeça daquele que ele acreditava ser um honrado herói, um mártir de uma capitania livre. Ou, quem sabe, até país livre.

A densa neblina da madrugada prejudicava a visão do padre, que, de longe, espetava a vara em direção à estaca que prendia a cabeça de Tiradentes. Mesmo sem enxergar o alvo, Gatto tentou diversas vezes, até perceber, num momento em que a neblina lhe possibilitou alguma visão, que a cabeça não estava mais lá. Assustado, fugiu ao perceber que o sentinela estava despertando. O soldado real surpreendeu-se com a estaca vazia e tratou de preparar a melhor desculpa que tinha para justificar o roubo.
 
Eliseu corria o mais rápido que podia até o necrotério, olhando para os lados de forma desconfiada. Dentro do saco de tecido, a cabeça de Tiradentes parecia conservada, provavelmente pela salmoura a que ela tinha sido submetida. Uma superstição para torná-la infértil, mas que veio muito a calhar.

O quebra-cabeça estava montado, todos os procedimentos pareciam estar em ordem. A cabeça foi conectada ao grande mosaico humano criado por Eliseu. Seguindo passo a passo as anotações de Victor, Eliseu aguardou. Primeiro alguns minutos. Depois uma hora. Uma decepção pareceu tomar-lhe, pois nada acontecia.
 
– Não! Não pode ser! Levanta, criatura! – Eliseu enfurecia-se enquanto batia no peito do ser que ele havia criado. Primeiro lentamente, depois raivosamente.

Num movimento brusco, a criatura ergueu-se com um urro grave. Assustado, o jovem cientista caiu ao pé da parede. Durante alguns segundos apenas observou o ser formado por diversos pedaços humanos sentado sobre sua mesa. Olhando em volta da sala, a criatura percebeu Eliseu.

– Eli... Zeu... Garoto...

Um choque subiu pela espinha de Eliseu. Aquilo poderia ser a maior descoberta científica da humanidade, mas a macabra lembrança que aquele mosaico humano tinha o perturbava.

– Você... Ainda me conhece... É você, Tiradentes?

– Tiradentes está morto... Eu estava lá... Eu era ele... – o ser agora articulava de forma impressionante, o que acelerava os batimentos cardíacos de Eliseu.

Levantando-se da mesa, o ser caminhou até o cientista e ajoelhou-se perante seu criador, encarando-o face a face.

– Por quê? Por que você me trouxe de volta?

– Qualquer um gostaria de ter uma segunda chance... Pela cidade você é conhecido como um herói! E ainda mais: você agora é a prova de que não é apenas Deus que pode criar a vida!

O ser segurou Eliseu pelos ombros agressivamente.

– Você pensa que é Deus?! É por isso que me trouxe de volta? Acha que eu queria estar aqui? Eu não mereço mais viver! Nem muito menos ser chamado de... herói! Você não sabe o que eu passei... Nos três anos que fiquei preso... fui torturado diariamente. Espremiam-me por qualquer informação... Entreguei cada revolucionário de Vila Rica... da mesma forma que Silvério me entregou à coroa. A revolução é uma grande ilusão... E eu fui só um maldito peão.

A criatura levantou-se e circulou pela sala. Olhou para si mesmo várias vezes. Chorou. Agitado, começou a correr pela sala quebrando todas as coisas que encontrava. Eliseu deixou o canto da parede e tentou aproximar-se de sua caixa de ferramentas. A criatura parecia não se importar mais com ele.

O jovem não sabia como proceder. Estava diante de sua maior descoberta. Do fim da encruzilhada. Mas encarava uma criatura incompleta, incapaz de perceber sua própria importância. Um ser danificado como qualquer ser humano normal. Eliseu aproximou-se de um bisturi que estava à sua frente.
 
– Você não tinha o direito! Minha morte foi uma condenação por meus erros! – o ser gritava agora sem nenhuma reserva.

Eliseu começou a se preocupar com o alarde que ele fazia. Logo haveria guardas à sua porta.

– Acalme-se, doutor... Você precisa entender o que você se tornou... – com a mão que levava o bisturi escondida em suas costas, o cientista tentou aproximar-se da criatura.

Por um momento, o ser se acalmou. Baixou a cabeça e começou a gargalhar insanamente.

– É irônico, garoto. Devo-lhe algo! E ainda lembro o que você me deu na última vez que nos vemos: SANGUE!

O ser pulou sobre Eliseu, e um confronto se deu sobre a mesa. Durante alguns minutos o cientista tentava, em vão, acertar o bisturi na criatura. Jogando-o com força sobre a parede, o amargurado ser desarmou o jovem. Eliseu mal pôde ver quando a criatura quebrou o recipiente de uma lamparina sobre si mesmo. O combustível começou a queimar o seu próprio corpo, enquanto o ser gargalhava de prazer.

– É o que acontece quando você chega perto demais de Deus, garoto... – em chamas, o ser pulou sobre Eliseu.

Tentando desvencilhar-se do monstro, Eliseu sentia seu corpo queimar. Ao mesmo tempo, toda a sala parecia incendiar-se com os resíduos do combustível. Criatura e criador pararam de respirar quase ao mesmo tempo.
 
VI
No dia seguinte, uma parte da população de Vila Rica comentava o incêndio no necrotério. Pouco sobrara da sala de autópsia. Ferramentas derretidas e anotações queimadas, entre elas um velho diário, pilhavam-se ao lado de dois corpos fundidos e irreconhecíveis no meio da sala. Mas naquele momento o assunto que incomodava a maior parte dos cidadãos da vila era o desaparecimento da cabeça de Tiradentes.
 
“Portanto condenam o réu Joaquim José da Silva Xavier, por alcunha o Tiradentes, alferes que foi do Regimento pago da Capitania de Minas, a que, com baraço e pregão seja conduzido pelas ruas públicas ao lugar da forca, e nela morra morte natural para sempre, e que depois de morto lhe seja cortada a cabeça e levada a Vila Rica, onde no lugar mais público dela, será pregada em um poste alto, até que o tempo a consuma, e o seu corpo será dividido em quatro quartos, e pregados em postes, pelo caminho de Minas, no sítio da Varginha e das Cebolas, onde o réu teve as suas infames práticas, e os mais nos sítios das maiores povoações, até que o tempo também os consuma, declaram o réu infame, e seus filhos e netos tendo-os, e os seus bens aplicam para o Fisco e Câmara Real, e a casa em que vivia em Vila Rica será arrasada e salgada, para que nunca mais no chão se edifique, e não sendo própria será avaliada e paga a seu dono pelos bens confiscados, e mesmo chão se levantará um padrão pelo qual se conserve em memória a infâmia deste abominável réu; [...]”
Sentença proferida contra Tiradentes em virtude do levante e conjuração de Minas Gerais
 
 
“De pena algumas lágrimas verteram,
Mas resignados logo as enxugaram.

 
Diante deles estava inteiro o Mundo
Para, a seu gosto, habitação tomarem,
E tinham por seu guia a Providência.

 
Dando-se as mãos os pais da humana prole,
Vagarosos lá vão com passo errante

Afastando-se do Éden, solitários.”
Paraíso Perdido, John Milton

30 de mar. de 2020

O amor nos tempos da pandemia (Lista do Zé #29)



Olá, olá!

O negócio tá meio assustador, eu admito. Nesta segunda-feira (30/03), completei 15 dias em quarentena na minha casa. O coronavírus desafia nossa lógica social. Ao mesmo tempo, esse tempo enfurnado com minha esposa e filhas me fez valorizar algumas pequenas coisas da correria diária, talvez por que é uma característica minha ver o lado bom desse tipo de situação. Ainda não sei como serão as próximas semanas, mas no geral temos conseguido passar muito bem por esse momento aqui em casa, com as crianças aproveitando como nunca essa aproximação familiar. Há coisas negativas? Ô, se há. Não dá pra ignorar os fatores econômicos, que a gente aqui em casa também vai sentir. Mas, ainda assim, tenho a convicção de que ficar em casa é a melhor opção no momento. Vamos ter que pensar nas consequências financeiras no momento seguinte, infelizmente. Pra você que lê esse texto, caso tenha condições, avalie apoiar iniciativas na sua comunidade para diminuir os impactos daquelas pessoas que não tem os privilégios que nós temos. E proteja seus pais e avós. Isso tá próximo de acabar, eu sinto isso. Infelizmente, não são muitas as coisas que eu posso fazer para conter o avanço da doença. Sendo assim, vou contribuir da forma que sei: com conteúdo. Pretendo aumentar os textos da minha lista de e-mails nas próximas semanas, pra começar.



Além disso, pra esse período de isolamento social, junto com uma galera dos quadrinhos brasileiros, criei uma iniciativa que disponibiliza quase duas centenas (e subindo) de obras nacionais para leitura gratuita no site bit.ly/hqsnaquarentena. Aproveitem, por que este material estará disponível para download somente enquanto durar o período de isolamento social. E, se curtirem os trabalhos, sigam os autores nas redes sociais e considerem comprar material deles, afinal vai ser um ano muito difícil pra gente, com poucos eventos e muitas livrarias e comic shops fechadas.

Pra essa iniciativa, disponibilizei meu quadrinho Interlúdio. Lançamos esse quadrinho online em 2008, como parte do segundo EP da minha banda Sobre o Fim (tem uma parte da história dessa publicação aqui). É uma HQ curtinha, sobre teoria do caos, desenhada pelos amigos Silvio Romero, Camila Nágila, André Pinheiro e Demétrio Braga, e que inclusive foi indicada ao Troféu HQMIX na época.

Além disso, como uma pequena contribuição na vida das pessoas nesse momento, estou articulando algumas lives com amigos no Instagram, que devem começar a acontecer já nesta semana. Vão ser vários assuntos, mas principalmente dicas sobre produção de quadrinhos e indicações de quadrinhos, música, livros e filmes. Sigam o meu perfil (@zewellington) e fiquem atentos às divulgações que vão sair por lá.

https://www.zewellington.com/p/combos.html


Outra novidade é a volta às prateleiras da minha primeira graphic novel, Quem Matou João Ninguém?, que pode ser adquiridas no site da Editora Draco, na Amazon ou diretamente comigo.

Por falar em pegar comigo, montei alguns combos com meus quadrinhos e promocionalmente estarei vendendo com frete grátis para todo o Brasil. Meu compromisso com meus leitores sempre foi de divulgar os lugares mais em conta onde comprar minhas HQs, não seria diferente neste momento econômico mais complicado, então eu tenho que dizer que sai bem mais barato comprá-las pela Amazon (com pouco mais de R$ 70,00 você consegue comprar juntas Quem Matou João Ninguém?, Cangaço Overdrive e Steampunk Ladies: Choque do Futuro). Mesmo assim, listei três motivos para comprar diretamente comigo:

1⃣ em todos os combos comprados comigo vão brindes (adesivo ou pôster A3 ou ambos nos combos a partir de três livros). E, se o comprador quiser, tem também dedicatória com seu nome nos livros.
2⃣ Steampunk Ladies: Vingança a Vapor, o primeiro volume da série, está esgotado na maior parte das livrarias, incluindo a Amazon. Tenho comigo alguns exemplares resgatados de comic shop (e que estão esgotando rapidamente).
3⃣ por que você ajuda a desaguar meu estoque de quadrinhos, que eu esperava baixar nos eventos cancelados neste semestre.

O link para a compra dos combos é facinho: bit.ly/zwcombos

E a vida segue. Se quiser precisar de alguém para conversar, responde este e-mail que ele chega direto na minha caixa de entrada.

Fique em casa e cuide da sua família.

13 de fev. de 2020

Roteirista de quadrinhos no Brasil? (Lista do Zé #28)



Olá, olá!

Ano passado completei 15 anos nesta vida de histórias em quadrinhos, mais especificamente como roteirista. Nos últimos tempos tenho recebido diversas dúvidas de outros colegas iniciando nesta atividade e pensei que poderia ser legal escrever sobre esses anseios. É bom destacar que, mesmo debutante na atividade, ainda estou aprendendo sobre ela e sobre o mercado, então as 7 perguntas que eu respondi abaixo são mais relacionadas à minha visão como roteirista.

Mas antes... Preciso dizer que meus dois últimos quadrinhos estão com um descontaço na Amazon (juntos saem por menos de 50 mangos):
Aproveitem, por que os preços podem voltar ao normal a qualquer momento!

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Tem que ser meio DOIDO para encarar uma carreira de roteirista de quadrinhos no Brasil (ou amar quadrinhos e não ter disposição para aprender a desenhar). Tem, sim, um montão de gente no país fazendo roteiro para HQ (e muito bem), mas as funções ligadas a desenho são bem mais populares. Saber desenhar realmente é uma mão na roda para contar histórias em forma de quadrinhos, ao mesmo tempo que não dispor dessa habilidade vai dificultar um pouquinho (mas não tornar impossível) a vida do pretenso quadrinista.

Escrevi meus primeiros textos ainda na adolescência. Os quadrinhos entraram na minha vida bem depois da literatura (que ainda é presente na minha vida, mas com muito menos intensidade). Minhas primeiras tentativas de fazer quadrinho vieram durante a explosão dos animes no Brasil, lá quando Os Cavaleiros do Zodíaco chegaram por aqui. Foi quando descobri também que é necessária muita dedicação para ser um bom desenhista. Mas, já na adolescência, eu era um multifazedor-de-coisas e vi que não dava para aprender a desenhar, aprender a tocar violão, organizar eventos, passar no vestibular etc. ao mesmo tempo. Durante um curso de cinema me dei conta que os roteiros poderiam ser um melhor caminho para mim. E assim vem sendo.

Separei abaixo algumas das principais perguntas que recebo sobre esta função. Elas podem ser um guia para as pessoas que pretendem se jogar nesta maluquice.

1. Um roteirista é aquele cara que faz as letrinhas das histórias?
Por mais boba que essa pergunta possa parecer, eu me sinto na obrigação de começar por ela. Quem faz as letrinhas nos quadrinhos é um profissional importantíssimo chamado letrista (nos meus últimos quadrinhos, tive o privilégio de contar com o incrível Deyvison Manes na função). Para letreirizar a HQ, o letrista utiliza o roteiro, essa, sim, a peça fundamental do trabalho do roteirista. O roteiro é um documento que guia a criação das histórias em quadrinhos. Não existe um formato pré-definido para ele, pesquisando pela internet você vai encontrar modelos diferentes. Embora a maioria dos roteiristas escreva um texto descrevendo o que quer que seja desenhado, há colegas que desenham seus roteiros, como se fosse um esboço da história em quadrinhos (é assim que são feitos os roteiros da Turma da Mônica). Coloquei um trechinho do roteiro de Cangaço Overdrive neste link, para quem tiver curiosidade em ver como são os meus. Ah, embora não seja função do roteirista letreirizar sua HQ, é bem interessante ele ter noções sobre esta função (dica para a vida).

2. Como consigo pessoas para desenhar meus roteiros?
Essa é a pergunta que mais recebo no inbox do meu Instagram. Para um roteirista iniciante, é um desafio absurdo convencer um bom desenhista a desenvolver seus primeiros roteiros. As sugestões que eu daria seriam as seguintes: A) comece com roteiros de histórias curtas (entre 4 e 12 páginas) e B) tente juntar outras pessoas que querem fazer quadrinhos e proponha trabalhos coletivos. Sobre a letra A, leve em consideração que desenhar quadrinhos é uma coisa demorada e que pode levar tempo. Histórias curtas aumentam as chances de um desenhista se interessar e de aquele seu roteiro realmente ser desenhado até o final. Sobre a B, vou contar um segredinho para vocês.... Quando me dei conta que queria ser roteirista, me vi sob essa problemática. Minha primeira ação foi criar um grupo de estudo na minha cidade, o que atraiu vários quadrinistas (a maioria desenhistas). Criamos um fanzine chamado Gattai Zine, onde publicávamos trabalhos curtinhos, misturando as pessoas do grupo. Bum! Dois coelhos com uma cajadada só. Se mesmo assim tiver dificuldades, talvez seja melhor se matricular em aulas de desenho... ou botar a cabeça para funcionar e pensar em alternativas, como fez o Marcelo Saravá no incrível 1000 Palavras, coletânea de tirinhas apenas com textos (conheça aqui). Ah, mesmo já tendo algum reconhecimento, até hoje ainda é um desafio para mim encontrar parceiros. Tanto que nos meus últimos quadrinhos eu busquei apoio de editais para conseguir pagar todos os envolvidos (falei sobre isso neste texto).

3. Você vive disso?
Hoje sim, mas não apenas disso. Tenho outras duas profissões (sou professor universitário e consultor na área de marketing). Vale dizer que nos primeiros 10 anos como roteirista/quadrinista EU MAIS GASTEI DO QUE GANHEI ALGUMA COISA. Lembro que 50% da cota dos meus exemplares de Quem Matou João Ninguém? (que lancei em 2014) enviei para a imprensa e influenciadores do meio. Felizmente, naquela época eu podia fazer isso (hoje já não tenho como). Como qualquer profissão ligada à arte, é preciso tempo e muito trabalho para estabelecer uma carreira. E, vale dizer, dentro das minhas receitas como roteirista, talvez uns 30% sejam com venda de quadrinhos. Os outros 70% vêm de participações em eventos, palestras, cursos e serviços relacionados. Conversando com outras pessoas no meio, percebi que isso é meio que bem comum.

4. Roteirista de HQ no interior do Ceará... Como é isso?
Difícil pra caralho. Nem queira saber. E olha que tenho um monte de privilégios como o homem branco que sou (nem consigo imaginar como é para quem não tem). Eu entendo (mas fico triste com) o monte de gente que desiste no meio do caminho ou acaba debandando para outras áreas, como cinema e literatura.

5. Indica livros?
Infelizmente tem pouca coisa impressa especificamente sobre roteiro para quadrinhos. Tem um material que a Opera Graphica lançou no Brasil (e que é difícil de encontrar hoje) chamado Guia Oficial DC Comics – Roteiros, escrito pelo grande Dennis O’Neil, que é um dos mais completos que já li. O primeiro material que tive acesso foi um e-book do Gian Danton, que é bem simples, mas me ajudou bastante (não é à toa que convidei o Gian para o prefácio de Quem Matou João Ninguém?). Tem alguma coisa sobre roteiro nos ótimos livros do Scott Mccloud, sendo o Desenhando Quadrinhos o meu favorito: o nome em português pode enganar (no original é Making Comics), mas ele trata de todas as etapas do processo. Tenho lido materiais de outras linguagens, que também ajudam bastante. Um dos livros que mais estudo e consulto é o Story, do Robert McKee (que é voltado para o roteiro de cinema). Tenho aqui, lá no fundo do meu coração, alimentado a ideia de escrever um pequeno manual... Quem sabe?

6. Pode ler meu roteiro e dar uma opinião?
Taí uma coisa que me perguntam muito... Fico lisonjeado quando alguém me pede uma opinião sobre algo que escreveu. Mas fazer isso é uma questão muito complexa. Primeiro, ler um texto ainda não publicado gera um certo comprometimento com aquela ideia original. Se futuramente alguma história minha apresentar algum elemento similar ao conceito que o colega me enviou, ele pode entender que eu o estou plagiando. Segundo, alguém pode ficar surpreso com isso, mas LER ROTEIROS LEVA TEMPO. Tem gente que fica até chateado quando eu digo isso, mas é importante frisar que há quem preste este tipo de serviço, conhecido como revisão crítica, e dá um trabalho danado. E, mesmo que não desse, nesta minha vida de pai do Chris, com três empregos, é muito complicado conseguir arrumar tempo para algo assim. Nem mesmo quando me pedem como serviço pago eu costumo atender. Só faço isso em situações muito especiais. Então, quando fizer este pedido para algum roteirista ou escritor, entenda se ele lhe der um respeitoso "não". Se precisar deste tipo de serviço, recomendo essa relação de prestadores levantada pelo Rodrigo Van Kampen.

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30 de jan. de 2020

Criando quadrinhos no Brasil (Lista do Zé #27)

https://open.spotify.com/episode/2FissmQ0He4qjx2zLLKFNm?si=uLEiGS2JS3i4YUwYZVONEw


Primeiramente: Feliz Dia do Quadrinho Nacional! Nós, que fazemos quadrinhos no Brasil, comemoramos esta data todo dia 30 de janeiro, em alusão à data da publicação do que se considera a primeira história em quadrinhos do Brasil, As aventuras de Nhô-Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte, de Angelo Agostini. Isso aconteceu em 1869.

Escolhi o dia de hoje para publicar um podcast onde converso com boa parte da equipe envolvida em Steampunk Ladies: Choque do Futuro. Falamos sobre como eles atuam no mercado, se vivem de fazer quadrinhos e ainda se quadrinhos e política são uma boa mistura. O programa é um prato cheio pros curiosos e, principalmente, pra quem quer entrar no mercado de quadrinhos. Dá pra escutar nos links abaixo:

Tá liberado compartilhar nas redes sociais e prestigiar essa galera que tá na labuta diária!

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O primeiro evento de lançamento de Steampunk Ladies: Choque do Futuro acontecerá no próximo sábado (01/02), em Fortaleza, durante a Feira Livre de Quadrinhos, que nesta edição acontecerá no Centro Universitário Farias Brito (R. Castro Monte, 1364 - bairro Varjota). O evento começa ao meio dia e o painel de lançamento será às 14h. Terei o prazer de dividir o momento com a querida Brendda Maria e o incrível Paulo Moreira. Meu amigo Rildon Oliver fará a moderação. Conto com a presença dos amigos de Fortaleza!


Querendo compras meus quadrinhos? Vai no site da Editora Draco ou peça o seu na Amazon (e se já tem, não esqueça de avaliar):
Informações em tempo real lá no meu Instagram: instagram.com/zewellington
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