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15 de mai. de 2024

Resenha: X-Men'97 e o Zeitgeist das histórias (lista do Zé #44)

 

Magneto estava certo.

Que era para os fãs de animação… Depois de Arcane, Samurai de Olhos Azuis (que eu falei a respeito por aqui), Planeta dos abutres etc, outra bomba cai no mundo da televisão (nem sei se ainda podemos chamar assim): X-Men’97. Sim, amigos, eu vou falar sobre HOMINHOS hoje! Mesmo que não goste deles, fica comigo, você não vai se arrepender.

Como muitos, conheci os X-Men com a exibição irregular do desenho animado de 1992 na Rede Globo, em algum ponto perdido dos anos 1990. É indiscutível o quanto esse desenho animado contribuiu para a popularidade dos mutantes da Marvel nesse período, gerando fãs apaixonados. Essa versão dos alunos do professor Xavier ficou tão forte na minha memória, que tentei rever os episódios quando adulto… Apenas para descobrir o quanto limitados eles eram, do roteiro à animação em si. Outras versões memoráveis dos X-Men chegaram à telinha logo depois, das quais lembro com muito carinho de X-Men: Evolution (assistido no SBT). Ainda que tivesse mais qualidade (até mesmo por ser fruto de uma época posterior), esta última animação gerou um ranço instantâneo dos fãs, que queriam a continuação da versão anterior dos alunos do Professor Xavier. Dito isso, confesso que não me empolguei tanto com o anúncio de X-Men’97, já que a promessa de dar continuidade ao desenho original do início dos anos 1990 me soava apenas como um caça-níqueis.

Afinal, com a indústria do entretenimento em crise, onde são sempre as apostas? É claro que serão onde existem fãs ardorosos. Já percebeu quantos reboots e remakes foram anunciados nos últimos tempos? X-Men’97 não precisava de muito para atiçar, no mínimo, a curiosidade dos saudosistas. Mas, felizmente, os produtores da nova série queriam bem mais.

Primeiramente, eu não considero essa nova animação uma continuação. Estamos falando de uma NOVA produção, que toma emprestado o visual da anterior e continua a história do ponto de onde ela parou. O que faz com que eu defenda esse ponto não é o fato de termos aqui uma animação mais apurada tecnicamente, com mais movimento e recursos em computação gráfica. A maior mudança vista em X-Men’97 com relação ao desenho animado clássico foi no modo de contar a história. Se hoje os fãs de animação se regozijam com tantas boas opções de animações voltadas para o público adulto, 30 anos atrás, salvo raras exceções, desenho animado era coisa de criança para boa parte das pessoas. Incluindo a própria indústria de animação. Um exemplo engraçado está na clássica abertura da animação original, onde um personagem foi inserido erroneamente no time de Magneto.

Tem uma lição muito legal aí também para os roteiristas, no sentido de entender quem é o seu público na hora de contar uma história. Eu falo isso mais no sentido de entender o MOMENTO em que o mundo vive. Os roteiristas dessa nova versão de X-Men provavelmente ponderaram sobre o tom da história e chegaram à sábia conclusão de que manter as coisas no tom inocente do original dos anos 1990 ia mais afastar do que trazer um novo público. Embora seja uma história de ação fortemente inspirada no mundo de 30 anos atrás, com ação desenfreada, ex machina a rodo e dezenas de reviravoltas por minuto, conceitualmente X-Men’97 está mais próxima das animações que eu cito no início desse texto do que do desenho original.

Como história, a nova versão leva os personagens a caminhos políticos surpreendentes. “Magneto was right” é a grande frase do desenho animado e deve ilustrar muitos prints e camisetas em eventos nerds neste ano. São muitas as análises de como as HQs dos X-Men foram evoluindo desde sua criação nos anos 1960 e refletindo a questão racial nos Estados Unidos, especialmente os pontos de vista de Martin Luther King (professor Xavier) e Malcolm X (Magneto). Eu não sou um grande leitor de X-Men, mas não lembro se em alguma vez nas HQs se defendeu tanto o ponto de vista combativo. Em seu último episódio, o professor Xavier e Magneto sacramentam esse caminho numa emblemática frase sobre sonhos.

Mais do que o mundo da animação, o novo desenho animado dos X-Men talvez sinalize um novo momento no modo de contar “histórias de hominhos”, esse codinome pejorativo que surgiu para classificar, principalmente, filmes de super-heróis, em tempos de em que estamos encharcados deles (algo completamemte diferente de quando a versão original dessa animação surgiu na tevê).

No penúltimo episódio de X-Men’97, 24 anos depois, os roteiristas respondem a provocação ao já famoso diálogo sobre as roupas collants do primeiro filme da Fox. O visual colorido parece soar bem melhor agora do que o couro preto mesmo. Veja bem, dá para colocar o filme de Byan Singer como um dos marcos na transformação dos super-heróis no cinema, que afetou, principalmente, os filmes da editora rival da Marvel, a DC. Embora quem acompanhe histórias em quadrinhos saiba que isso começou lá nos anos 1970, o tom sombrio virou tendência no mundo dos heróis de verdade com as versões snyderianas de Superman, Batman e cia. E agora tudo isso é questionado, como quando a primeira imagem do novo Superman foi divulgada e a reclamação geral foi que ainda estava sombrio demais. O fato é que os grandes estúdios vão na única direção para qual eles sabem remar: a da grana. Hoje pela manhã eu li que em 1º de agosto o Prime Video mexerá novamente com as memórias afetivas dos noventistas, colocando Bruce Timm para trabalhar novamente com Batman no que parece ser um revival da clássica Batman: The Animated Series (indústria em crise, né?), num projeto que havia sido cancelado tempos atrás.

O fato é que esta nova animação dos mutantes aponta novos rumos para as adaptações das grandes marcas da Marvel, no caso grandes marcas da Disney, dona da editora. Como aponta um crítico da Forbes, essa animação talvez seja a melhor coisa que a Disney fez com personagens da Marvel nos últimos anos, especialmente enquanto se reorganiza depois de uma série de produções medianas e com resultado abaixo do esperado de público.

Eu só desejo que X-Men’97 seja a consolidação do poder das boas histórias.

29 de dez. de 2023

Frustação (lista do Zé #41)

 

Tirinha do Lucas Gehre.

Olá, olá.

O ano de 2023 está bem longe de ter sido ruim para mim. Eu poderia falar das minhas vitórias aqui, mas eu ia trair meus interesses com esse último texto do ano. Quero ir contra o algoritmo e falar sobre “não chegar lá”, sobre não ter uma foto bonita numa paisagem para o Instagram. Hoje nós vamos na contramão do like.

Eu queria compartilhar com vocês alguns dos meus fracassos esse ano:

  • Abandonei um romance que escreveria no mês de janeiro (na real, não lancei nenhum livro ou HQ).

  • Em fevereiro abandonei o aplicativo para aprender a tocar piano.

  • Li 28 dos 50 livros/HQs que defini como meta.

  • Das três bandas do início de 2023, estou acabando com uma completamente nova e ¾ de uma das que sobreviveu.

  • Comecei o ano com quatro gatos e termino com apenas três (numa das minhas perdas mais dolorosas dos últimos doze meses).

  • Não concluí minha dissertação no prazo.

  • Só enviei três textos nesse mailing.

Faz tempo que eu quero falar de expectativa e frustração na carreira artística do meu ponto de vista pessoal. Afinal, lidar com isso é uma coisa inteiramente íntima. Se eu decidir me abrir sobre isso é porque espero que me ouvir chorar um pouquinho faça você chorar menos.

Sou pai de duas crianças e é muito claro para mim perceber os momentos em que elas se comparam com amigas da mesma idade. Eu mesmo tenho que me policiar para evitar pensar em como a coleguinha anda de patins melhor do que minha filha. Não é uma falha de caráter, é uma falha do sistema capitalista mesmo, afinal desde cedo a gente compete pela medalha no torneio de futsal, pelo primeiro lugar entre as melhores notas na turma, pela vaga no curso no vestibular, pelo emprego idealizado etc. 

Lembro de ter ido ao meu primeiro Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte (FIQ) em 2011. De um lado e do outro da minha mesa eu via publicações muito mais legais do que os fanzines xerocados que eu tinha conseguido levar. Mas dureza mesmo foi ver um estande na frente com garotos abaixo dos 14 anos ganhando toda a atenção do evento, enquanto eu, na idade ~desesperadora~ de 27 anos ainda não conseguia parar um vivente na frente do meu espaço. Porque é isso… a frustração normalmente é distribuída num combo com a inveja.

Sem esse papo aqui que em arte não há competição. É difícil não olhar aquele seu conto ou ilustração e não se comparar com o colega da “mesa do lado”. E não estamos falando apenas de técnica. O outro colega, inclusive, pode estar numa fase técnica anterior à minha (até porque essa coisa de melhor e pior em arte para mim nem existe), mas se conseguiu publicar numa editora melhor ou ser convidado num evento grande, eu já vou achar que estou fazendo tudo errado. E olha que quem digitou essas letras foi um homem-cis-branco. Essa conversa também tem muito a ver com privilégios e se eu, aqui do interior do Ceará, tenho que pedalar o dobro pra chegar onde os coleguinhas de São Paulo chegam, artistas não-homens, não-brancos e não-cis precisam pedalar o triplo que eu.

Mesmo que um ou outro artista diga que faz arte pela arte, a maioria de nós se vê sempre competindo: por prêmios, por espaço, por atenção, por jobs etc. A frustração nos faz até esquecer que, no fundo, pouca gente vive disso e sucesso é um conceito super incipiente. Vender muitos livros é sinal de sucesso? Ter muitos seguidores é sinal de sucesso? Ganhar um prêmio é sinal de sucesso? Garanto que tem gente muito mais bem servida em uma ou mais dessas questões e tem tanta síndrome do impostor quanto eu ou você. No final, a gente precisa descobrir o que realmente importa para gente. E seguir fracassando. Porque, tanto quanto nossa técnica, nós precisamos também aprender a arte de conviver com a frustração de não se sentir lido/assistido, de não ganhar o prêmio, de não ter seja qual for o retorno que você esperava pela sua criação, de não atingir o tanto de gente que gostaria de atingir com aquele texto que você escreveu para o seu mailing sobre frustração. 

No final, o que mais nos define como artistas é o que fazemos entre um ~~sucesso~~ e outro. No caminho árduo dentro dos vales que separam os picos. “O verdadeiro trabalho está em conseguir manter a sanidade durante todas as fases de criação”, como eu li por aí num ótimo texto da Elizabeth Gilbert. Eu não tenho um conselho para isso, até porque provavelmente pareceria autoajuda. O que eu faço é continuar tentando. O próximo trabalho pode ser o antídoto para o anterior. Ou não. Só vou descobrir seguindo sempre em frente.

Certamente ajuda procurar se cobrar menos. Hoje eu tenho persistido mais do que eu persistia antes nas coisas, mas cada vez mais também respeito os limites do meu corpo. Se deu, ótimo. Se não deu, respira fundo, retoca a maquiagem e procura outro lugar para se apresentar. Faço o melhor dentro do tempo que eu tive, jogo no mundo, comemoro os elogios e absorvo o mais rápido que posso as críticas. De novo, vale a máxima de fazer melhor da próxima vez. O erro de ontem faz parte do que tive que aprender para acertar hoje.

Uma verdade dura sobre trabalhar com arte é que você vai fracassar muito mais do que acertar. Às vezes, você até vai acertar, mas vai achar que fracassou porque não foi capaz de ver algo maravilhoso que aconteceu no caminho*. Eu tenho tentado abrir mais os olhos e curtir o processo.

Para os próximos anos, que venham muito mais fracassos. É um sinal de que eu estou tentando.

Um abraço e até o ano que vem!

 

* Ah, eu tinha me prometido não colocar nada edificante aqui, mas eu não resisto. Comecei a escrever esse texto lidando com a frustração de não ter sido indicado ao Troféu HQMIX desse ano. Aí abri uma notícia sobre a indicação da quadrinista Lara Nicolau e ela me citava como influência. Acho que foi melhor do que ganhar o prêmio.

** A tirinha que ilustra esse post é do Lucas Gehre.

 

13 de nov. de 2023

"Mata-mata: versão estendida" é semifinalista do Jabuti! 🐢

 


Olá, olá!

Parece que só venho aqui pra falar de prêmios, né? Na correria para concluir meu mestrado, essa lista ficou entregue às traças… Mas por pouco tempo, prometo. Enfim, dei uma pausa na análise de dados da minha dissertação (em breve volto aqui pra falar mais dela) pra mais uma notícia bombástica:

Sou semifinalista do Prêmio Jabuti novamente!

Dessa vez numa categoria de literatura, com meu romance “Mata-mata: versão estendida”, lançado em 2022 pela Editora Draco, que ficou entre os 10 primeiros na categoria de “Romance de Entretenimento”. Em 2019 fui semifinalista com “Cangaço Overdrive”, na categoria de Histórias em Quadrinhos, e digo sem pestanejar que as coisas não foram mais as mesmas.

Fiz um agradecimento oficial em vídeo no Instagram, mas não custa reforçar… Esse é um trabalho coletivo, começando pelas ilustrações de Rafael Dantas, músicas de Rafael Cavalcante, áudio drama editado pela 20a20 Produtora (Kaio Anderson e Leonardo Leitão), vozes de Franck Terranova e Alexandre Fontenele e hotsite criado por Gusta Mociaro. E o mais importante: a versão estendida e impressa de “Mata-mata” só foi possível com o apoio de 154 pessoas numa campanha de financiamento coletivo no Catarse. Se você está entre elas, FOI INDICADO AO JABUTI TAMBÉM!

Não apoiou no Catarse? Ainda não tem o livro? Adquira o seu no site da Editora Draco ou na Amazon.

16 de jul. de 2023

"Assombros" é um dos ganhadores do Prêmio LeBlanc

 

 

Meu livro de contos Assombros foi anunciado como um dos vencedores do Prêmio LeBlanc, na categoria de antologia/coletânea nacional inédita de fantasia, ficção científica e terror publicada em 2022!

Gostaríamos de agradecer aos organizadores e jurados do prêmio pela oportunidade e, principalmente, a todos os leitores e amigos que votaram na primeira fase do prêmio. Como uma obra publicada através de financiamento coletivo, Assombros já nasceu do esforço e vontade de um monte de pessoas que apoiam e acreditam nas palavras que este escritor escreve, mesmo quando elas são histórias escabrosas de fantasia, ficção científica e terror. Esse prêmio é nosso!

Lembrando que o livro continua à venda no site da Editora Draco, na Amazon e diretamente comigo. Garanta agora mesmo seu exemplar da primeira tiragem do livro!

25 de fev. de 2023

Zona de Perigo: devo fazer a dancinha da vez? (lista do Zé #40)

 

Crianças de Uganda que viralizaram fazem coreografia de "Zona de Perigo".

Uma das questões que tem me atormentado mais como escritor nos últimos anos é essa coisa do marketing. Vale dizer que “essa coisa de marketing” não é exatamente um bicho-papão para mim. Na real, é basicamente meu objeto de estudo e de trabalho desde que me formei em administração (pois é, mas pelo menos não uso sapatênis) no agora longínquo ano de 2007. Por anos, fui sócio de agência de publicidade e prestei serviços como consultor de marketing digital. Então essa coisa de se promover na Internet era pra ser moleza, certo?

Para contribuir com esse quadro, vez por outra sou alvo de anúncios nas redes sociais de escritores que prometem ensinar como fazer meu livro chegar a muitos leitores, como ganhar muitos seguidores, como gerar o tal do engajamento etc. Também não canso de ler por aí que algumas editoras (não todas) estão cada vez mais analisando a presença nas redes sociais de escritores e artistas, em detrimento do quanto sua obra é boa mesmo. O mesmo para gravadoras com músicos e até mesmo empresas procurando novos empregados. Será que é isso mesmo? Será que é melhor separar uma parte do meu limitado tempo para fazer a dancinha do Leo Santana e entrar na trend da vez?

Bom, eu preciso ser sincero, como profissional de marketing, e dizer que SIM, ter um público engajado nas redes sociais e muitos seguidores vai ajudar você como autor. Inevitavelmente as editoras vão se interessar mais no seu trabalho se você for gigante no seu perfil no Twitter ou Instagram, porque os risco de publicação do livro já começam bem menores. E, convenhamos, por mais legais que alguns editores possam ser, eles precisam tipo… VENDER LIVROS. Coisa que já não lá muito fácil, diga-se de passagem. Então se você é uma pessoa que tem recursos para contratar um profissional de marketing (de repente colocar isso em seu orçamento numa inscrição de edital ou na sua campanha de financiamento coletivo), vai fundo, isso vai te ajudar bastante. O conselho vale também para você que se sente à vontade ou tem habilidades em manipular as redes sociais da vez, como o Tik Tok e o Instagram. Se mexer nessas coisas é uma coisa natural para você, se você tem tempo e, sei lá, de repente até gosta de fazer isso, manda brasa!

“Então é isso, tenho que me dedicar mais às redes sociais?” Não, não foi isso que eu falei lá em cima. Eu disse que esse é um caminho massa SE, e apenas SE, você tem os recursos ou se sente à vontade para isso. Quando eu era um consultor na área de marketing, sempre tinha esse papo com meus clientes, quase sempre pequenos empresários. Os clientes sempre traziam exemplos de concorrentes que usavam bem as redes sociais, que faziam stories de tudo, até da vida pessoal, e de como isso poderia converter em vendas. E eu ia lá e falava que era isso mesmo, que essa lógica fazia sentido, mas que isso não significava que esse era o melhor caminho para todos. Se estar nas redes sociais exige de você um grande esforço, se isso pode inclusive te ADOECER, então significa que esse NÃO é o caminho para você. Na real, quanto mais minha existência nesse planeta se prolonga, mas eu percebo que qualquer coisa que eu faça em prol do capitalismo e que me adoeça não é bom.

Chegar a essas conclusões de alguma forma me libertou nos últimos anos. Se qualquer autor já se cobra sobre presença nas redes sociais, imagina eu, que já trabalhei com isso? No meu caso (e aí, veja bem, não sei se é o melhor para você, analise com moderação as palavras seguintes), tenho cada vez menos me dedicado a movimentos em redes sociais que me tomam tempo demais ou que eu simplesmente eu não curta fazer. Isso transformou minhas redes sociais num amontoado de posts de divulgação estáticos e, aqui e acolá, uma foto da minha família. E tudo bem.

Mas, olha só, quando uma ideia para um conteúdo vem e eu sinto que vou curtir fazê-la, eu me programo para executar aquilo. É cada vez mais raro, mas vez por outra eu faço um reel para o Instagram (ainda não criei coragem para entrar no Tik Tok, mas talvez seja só a velhice me deixando mais rabugento). Me dedicar menos às redes sociais provavelmente vai fazer com que as coisas aconteçam de forma muito mais lenta do que com outros autores, mas pelo menos vai fazer com que eu siga o caminho da escrita, já bem tortuoso, de um jeito mais leve. Vale também a reflexão (e que merece um texto à parte no futuro): como vou me divulgar? Se você não sente que tem as sacadinhas rápidas para hitar no Twitter, pode fazer posts fotográficos no Instagram. Se não manja de fotografia, pode indicar filmes legais em posts no Facebook. Se não curte a dinâmica do Tik Tok, pode fazer uma lista de e-mails no Substack (opa, me entreguei aqui). Para pensar um pouco agora: que tipo de conteúdo eu gosto e seria confortável de fazer na Internet?

Enquanto isso, você pode se concentrar mais no que, no fim das contas, é o real objetivo da coisa: PRODUZIR. Afinal, ter muitos seguidores e não ter obras para lançar é algo que realmente não faz muito sentido, certo?

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31 de ago. de 2022

Publicando livros e quadrinhos online (Lista do Zé #39)

 

Imagem de Splendor Blues, webtoon que coroterizei
Imagem de Splendor Blues, webtoon que coroterizei.

É raro encontrar por aí algum autor de primeira viagem que não sonhe em ter em suas mãos seu primeiro livro ou quadrinho impresso. Eu lembro do cheiro do meu primeiro fanzine (aquele cheiro de xerox barata de faculdade) e também do peso satisfatório do primeiro exemplar de Quem Matou João Ninguém?, meu primeiro álbum publicado. Mas pode ser que você seja de uma geração diferente da minha e, no fim das contas, só queira mesmo ser lido, sem ter que derrubar umas árvores pra isso. Então vamos falar de publicação digital.

A publicação digital não é mais uma coisa do futuro, é um mercado que já pulsa forte já há algum tempo. No lado da literatura, a coisa já tá muito avançada e vender ebooks na Amazon é um caminho muito bem estabelecido e explorado por autores e editoras. Eu tenho, sim, meu receios com a toda poderosa livraria online, mas não posso negar que ela criou um ecossistema fértil para autores que queiram se autopublicar. Através de um sistema próprio qualquer escritor pode disponibilizar seu livro e estabelecer um preço (do qual a Amazon vai ficar um percentual). O sistema não substitui as imprescindíveis funções do editor, diagramador e etc., mas quebra um galho danado se você não tem grana pra essas coisas. Além disso, a plataforma é uma rede social e, conforme recebe avaliações, seu livro é indicado pra outros leitores e pode crescer muito organicamente. Foi isso que aconteceu com meu ebook Mata-mata, que, sem grana para divulgação (mas com um grande esforço meu e da Editora Draco), ficou meses entre os contos mais lidos da plataforma. Chegamos a muita gente como você pode ver pelas avaliações e comentários sobre ele na Amazon.

Mas você pode querer ainda mais interação social, então a indicação são redes sociais para escritores, como o Wattpad. Você cria o seu perfil e pode publicar seus textos, curtos ou longos, e receber comentários de outros usuários da plataforma. Se procurar na internet, você vai encontrar histórias de autores conhecidos que começaram a conquistar seus primeiros leitores (e contratos com editoras grandes) por lá.

E nos quadrinhos? A Amazon também oferece suporte para publicar HQs, que inclusive podem ser lidas pelo seu popular dispositivo Kindle. No entanto, a experiência para o leitor ainda fica a anos luz da versão impressa. Se para literatura há um sem fim de comodidades para o leitor (você pode mudar a fonte, consultar dicionários, marcar trechos do livro etc.), para o leitor de quadrinhos resta a frustração das versões mais baratas do Kindle não terem cores e ainda a péssima experiência com imagens.

Para quadrinhos online, outras plataformas tem apresentado soluções mais interessantes, como o Tapas e o Webtoon. Ambas oferecem a possibilidade de você publicar quadrinhos online, com uma série de recursos interessantes para o leitor.

Aqui cabe um parêntese, onde precisamos separar quadrinhos feitos para serem impressos e que são adaptados para serem lidos de forma digital e quadrinhos criados especialmente para o meio digital. O Tapas oferece uma experiência muito legal se você já fez o quadrinho para ser impresso e pretende só criar uma versão digital (ou se vai publicar digital, mas pensa em imprimir em algum momento). Já o Webtoon aperfeiçoou o que nos primórdios da internet a gente chamava de webcomics, ou seja, quadrinhos que se aproveitam do digital para fornecer experiências que não são possíveis em papel. O grande desafio, nesse caso, é pensar a HQ, desde o começo, como um produto para Webtoon, o que inclui coisas como esquecer a dinâmica tradicional das páginas: você vai trabalhar quase quadro a quadro, podendo ainda usar o “rolar” da página para oferecer experiências de leitura para o leitor. É possível adicionar movimento com GIFs e até sons. Tudo isso fez esta plataforma, criada na Coreia do Sul, crescer de forma brutal. Hoje inclusive o Webtoon já apresenta ferramentas onde você pode ser remunerado pelos fãs do seu trabalho através da plataforma (numa integração com o Patreon). Mas tem um ponto negativo: dificilmente sua HQ feita para usar os recursos do Webtoon funcionará da mesma forma impressa. Acrescente aí que o público do Webtoon é diferente do público tradicional de quadrinhos. Estamos falando de leitores jovens, com maior disposição para o estilo oriental de fazer quadrinhos (mangás e manhwas).

Aí eu deixo uma dica para quem quer experimentar o Webtoon: a plataforma tem uma série de tutoriais para você construir sua HQ aproveitando o que há de melhor nela. Mas como está tudo em inglês lá, eu recomendo mesmo é esse guia maravilhoso que Ale Presser fez com um monte de informações pra quem quer publicar no Webtoon.

Então na hora de escolher como vai disponibilizar seu livro ou quadrinho de forma digital, é preciso pensar primeiro qual seu objetivo. Quer vender? Talvez a Amazon e o Webtoon sejam os melhores caminhos para quem quer um retorno financeiro. Quer divulgar meu trabalho, criar um público e receber feedback? Então dê uma boa pesquisada no funcionamento do Wattpad e do Tapas.

O importante é não deixar de contar suas histórias.

 

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30 de jun. de 2022

Quem é Arsène Lupin? (Lista do Zé #38)

 


Uma das coisas mais divertidas que assisti nos últimos tempos foi Lupin, série da Netflix inspirada num famoso personagem da literatura francesa. Agora vocês imaginam a minha alegria quando, pouco depois de ver a primeira temporada, fui convidado para um trampo para adaptar o livro original para quadrinhos? Foi uma delícia me debruçar sobre o personagem e hoje eu queria contar um pouquinho para vocês sobre isso. O texto abaixo é uma versão resumida (bem resumida mesmo) da proposta que a editora pediu antes que eu iniciasse o roteiro. Vamos tentar desvendar quem é Arsène Lupin?

Arsène Lupin, o ladrão de casaca foi o romance que reuniu as primeiras aventuras (em nove contos) de Arsène Lupin, famoso ladrão ficcional francês. No sentido de adaptar o máximo possível da obra original, costuramos os nove contos em uma história só na nossa história em quadrinhos. Dentro dessa estrutura, cinco contos compõe o esqueleto da obra: a tríade da prisão de Lupin (“A prisão de Arsène Lupin”, “Arsène Lupin na prisão” e “A fuga de Arsène Lupin”), que apresentam uma continuidade entre si; “O colar da rainha”, um conto de origem; e “Herlock Sholmes chega tarde demais”, que não só narra o encontro de Lupin com uma versão do detetive inglês, como também dá certa continuidade a tríade da prisão. As outras quatro histórias são contadas por Lupin, com mais ou menos detalhes, ao seu maior perseguidor, o inspetor Ganimard, em dois momentos da trama.

A maior parte das aventuras de Lupin coincide com a Belle Époque francesa, que durou de 1871 a 1914. No primeiro livro, a maioria das histórias acontece nos primeiros anos do século XX, exceto “O colar da Rainha'', que se passa no final do século XIX. A Belle Époque foi um período de grande otimismo e paz desfrutado pelas potências ocidentais, sobretudo as europeias, até o início da I Guerra Mundial. O ponto marcante desta época foi o estilo de vida boêmio e otimista, com destaque para a França, que se tornou o centro global de toda influência educacional, científica, médica e artística. A nação francesa era um polo difusor e Paris era o núcleo da Belle Époque mundial. Nas histórias de Lupin você percebe isso: há um uso sem moderação do autor de carros, máquinas fotográficas e outros itens extremamente modernos para a época. Vale destacar, enquanto movimento artístico da Belle Époque, o estilo “Art Nouveau”, um fazer ornamental de cores vibrantes e formas sinuosas, presente desde as fachadas dos edifícios até nos objetos decorativos, como joias (que aparecem bastante na história) e mobiliários. Todos esses elementos foram levados em consideração tanto na arte quanto na história da nossa adaptação para quadrinhos. Esse caldeirão de influências traz um tom leve e cheio de ironia para as histórias de Lupin, o que nos fez pensar que também deveríamos seguir essa proposta.

Mas quem é Arsène Lupin? Se na maioria das adaptações de Lupin se conhece de cara o rosto por trás do ladrão, o autor do personagem, Maurice Leblanc, através dos diálogos de seus personagens, sempre o viu como um camaleão:

“Arsène Lupin, o homem de mil disfarces, chofer, tenor, bicheiro, filho de família, adolescente, ancião, caixeiro-viajante marselhês, médico russo, toureiro espanhol!”

“Seu retrato? Como poderia fazê-lo? Vinte vezes vi Arsène Lupin e vinte vezes foi um ser diferente que me apareceu; ou antes, o mesmo ser de que vinte espelhos me teriam dado outras tantas imagens deformadas, cada uma com olhos diferentes, uma forma de rosto, um gesto, um vulto, um caráter próprio.”

Lupin, por sinal, é um nome inventado e não de nascença. A melhor pista para o verdadeiro nome do personagem está no conto “O colar da rainha” (mas não vou dar spoilers aqui...). É difícil até saber se todos os crimes atribuídos ao ladrão foram cometidos por ele mesmo... O ladrão se torna famoso e vira um queridinho da imprensa, que atribui todo crime não solucionado ao nosso ladrão. Claro que Lupin, em algumas histórias, chega a usar isso para manipular a imprensa e população a seu favor. Assim, para essa adaptação, definimos que Lupin era quase um fantasma, uma figura alegórica do imaginário parisiense. E ele ama isso, como ele mesmo diz:

“Tanto melhor que não possam nunca dizer com certeza: ‘Eis aqui Arsène Lupin’. O essencial é que digam sem medo de errar: ‘Arsène Lupin fez isso’.”

“Por que (...) hei de ter uma aparência definida? Por que não evitar o perigo de uma personalidade sempre igual? Meus atos já me revelam bastante. (...)”

Mais do que utilizar disfarces, Lupin assume IDENTIDADES diferentes. E ele é capaz de tudo para se passar por outra pessoa, inclusive elaboradas alterações corporais, enxertando produtos químicos em si mesmo ou ficando em uma posição por bastante tempo para mudar sua postura. E o que esse tipo de coisa fazia com a cabeça do personagem? Suas próprias falas denunciam que ele tem dificuldade de lidar com sua própria identidade e com as implicações psicológicas de uma vida sem rosto definido:

“Eu mesmo (...) não sei mais quem sou. Num espelho, não me reconheceria.”

“Está muito bem (...) mudar de personalidade como de camisa e escolher sua aparência, sua voz, seu olhar, sua letra. Mas acontece que a gente acaba não se reconhecendo mais no meio disso tudo, e isso é triste. Sinto atualmente o que devia sentir o homem que perdeu a sua sombra. Vou me procurar... e me encontrar.”

Por isso mesmo, em nossa história em quadrinhos, nos pareceu incorreto dar um rosto único a Arsène Lupin, já que trairíamos um dos principais conceitos do escritor Maurice Leblanc. Por sinal, isso é uma das coisas mais interessantes da leitura dessas histórias: muitas vezes demoramos a saber quem é ou onde está Lupin. Em alguns contos Lupin se revela no início, às vezes como narrador. Em outras vezes o conto é inteiro narrado por ele e só sabemos no final. Às vezes o narrador fala sobre um amigo próximo e descobrimos no desfecho que se tratava de Lupin. Isso faz da leitura do romance original uma coisa deliciosa, algo que tentamos levar para esse novo produto, fiel ao original, mas que soa como algo completamente novo, mesmo para os já iniciados no personagem.

 Compre agora a adaptação para quadrinhos de Arsène Lupin, o ladrão de casaca!


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29 de mai. de 2022

Publicando seu livro ou quadrinho com financiamento coletivo (Lista do Zé #37)

 


Faltava nos meus textos um que falasse de financiamento coletivo. O motivo era que… eu nunca tinha participado de um. Mas o dia chegou e, no final do ano passado, disponibilizamos no Catarse uma campanha para financiar meus dois últimos livros. Vou te contar um pouco sobre como isso funciona.

Começando do básico: numa campanha de financiamento coletivo (em inglês, crowdfunding), você usa uma plataforma na internet para pedir AJUDA para financiar um projeto. Estamos falando de livros e quadrinhos aqui, mas se pode financiar absolutamente qualquer coisa (empresas, máquinas, startups, eventos, campanhas de caridade, CDs de bandas etc.). O princípio é fazer algo acontecer com a ajuda do público. O realizador só precisa ir ao site e informar quanto precisa, montar uma campanha atrativa e sair divulgando por aí. Esse texto é um resumo e foca nas campanhas do tipo “tudo ou nada”, onde você tem um prazo para arrecadar um montante em dinheiro de apoiadores e só recebe se alcançar uma meta. Recomendo conhecer as outras modalidades existentes, pode ser que outra atenda melhor a sua necessidade, ok?

Primeiro: preciso do livro pronto antes de montar a campanha? O ideal é que SIM. Quando sua campanha for ao ar, serão até 60 dias de muito trabalho de divulgação e depois toda uma logística de fechar o livro e enviá-lo aos apoiadores. Acrescentar nesse samba o final da escrita pode deixar o processo mais puxado do que ele já é e comprometer a qualidade do seu livro ou HQ. Não entre nessa! Termine seu original e leia o texto que escrevi falando sobre todas as formas de publicar o seu livro antes de tentar o financiamento coletivo.

Mas se você decidiu tentar essa forma de publicação, vamos entender primeiro as recompensas. Normalmente quem apoia uma campanha de financiamento coletivo recebe algo em troca. Existem níveis para essas recompensas, definidos pelo próprio realizador. No caso de um livro ou HQ, você pode começar, por exemplo, com um agradecimento no livro para quem apoiar com X reais, o livro físico para quem apoiar com Y reais, o livro físico junto com uma camisa para quem apoiar com Z reais e todas as recompensas anteriores mais um jantar com o escritor para quem apoiar com tantos reais. Preste atenção neste caso e vai perceber que, conforme acrescenta coisas além do seu livro físico nas recompensas, precisará também lembrar delas no orçamento final do projeto. Aí é que tá: uma campanha de financiamento coletivo começa com muito planejamento, porque é você quem define quanto quer pedir de apoio. Então vão ser necessárias muitas CONTAS. Felizmente as plataformas mais conhecidas do mercado oferecem apoio nesse momento, com planilhas pré-prontas e consultores para tirar dúvidas. Use e abuse disso.

Na fase de planejamento, você define um dia para a campanha começar e um prazo para ela acontecer. O tempo normal das campanhas é entre 40 e 60 dias, mas isso é flexível na maioria das plataformas. Menos tempo que isso pode ser insuficiente para arrecadar o que é necessário e mais tempo pode tirar um pouco o senso de urgência que é necessário para seus apoiadores investirem seu rico dinheirinho em você. Uma dica sobre esse momento é escolher um período tranquilo da sua vida para iniciar a campanha. Você vai trabalhar muito e se dedicar intensamente nesse período, melhor estar focado nisso.

Com a campanha no ar, agora é divulgar por aí. Essa talvez seja a etapa mais difícil. Quem já lançou um livro sabe a dificuldade que é conseguir espaço para falar sobre ele e vendê-lo, agora imagina fazer isso sem ter o produto pronto? Falando da minha experiência, durante o tempo da campanha me comprometi a produzir conteúdos para as minhas redes sociais diariamente (algo que cada vez menos tenho ânimo). Mas o que trouxe mais resultado foi o contato INDIVIDUAL com cada seguidor. Diariamente eu usava as mensagens diretas do Instagram ou o Messenger do Facebook para enviar mensagens para amigos. Cansou (e exigiu um certo nível de cara-de-pau a qual eu não estou acostumado), mas deu muito resultado.

Depois do final do prazo da campanha, se ela foi bem sucedida, é hora de cumprir suas promessas, afinal é isso que as recompensas da campanha representam para o apoiador. A plataforma vai lhe mandar uma relação completa dos apoiadores com as recompensas escolhidas. Você vai arrumar pacotes e dar conta do envio de todos, incluindo possíveis extravios. O que alguns colegas do meio têm recomendado é colocar no orçamento do projeto um valor para contratar pessoas para ajudar nessa etapa. Organizar recompensa por recompensa, fazer pacotes e postá-los é mais trabalhoso do que parece.

Outra coisa essencial durante toda a campanha, mas ainda mais importante depois dela, é a comunicação. Todos os apoiadores são adicionados numa lista de e-mail pela plataforma e você consegue estar em contato direto com eles o tempo todo, atualizando, por exemplo, sobre o andamento das entregas de recompensas. Pelo grupos de WhatsApp que participo há sempre conversas sobre essa etapa, sobre como alguns projetos atrasam o seu andamento por diversos motivos e seus realizadores nem ao menos avisam aos apoiadores sobre o que está acontecendo. E, sim, projetos atrasados em ANOS são mais comuns do que deveriam ser. Atrasar é comum e esperado, especialmente se a campanha é de um autor independente, só tente ser transparente com seus apoiadores a respeito e mantenha-os informados sobre tudo.

Tive a tremenda sorte de ter a Editora Draco como parceira na minha campanha e boa parte dessas etapas foi administrada por eles, que já tem quase 40 campanhas financiadas nessa modalidade. Quando a campanha começou, pude contar com minha própria base de fãs e ainda a base de apoiadores regulares da editora. Eu falo isso para fechar esse texto com uma das questões mais importantes do financiamento coletivo: é preciso ter muitos fãs/seguidores para ter sucesso na campanha? A resposta é não, mas não ter uma base de fãs vai deixar tudo um pouco mais desafiador. A maioria das plataformas de crowdfunding funciona como redes sociais, ou seja, há pessoas circulando por esses sites procurando projetos interessantes para apoiar. Isso ajuda o autor iniciante, mas pode não ser suficiente. Se você está indo para esse tipo de plataforma lançar seu primeiro livro prepare-se para trabalhar muito na fase de captação de apoiadores. As emoções serão intensas.

Por fim, entre em projetos bem sucedidos que parecem com o seu e estude-os. Qual o valor total que eles buscavam? Quantos apoiadores tiveram? Quais recompensas ofereceram e quanto cobraram por elas? Como eles apresentaram o projeto na plataforma? Anote as respostas e mãos à obra no planejamento.

x x x

 Ah, meus livros lançados no Catarse já estão disponíveis na minha loja online.

E tem promoção no combo, com direito a dedicatória e brinde. Aproveite:


 

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19 de nov. de 2021

Como publicar meu livro ou quadrinho? (Lista do Zé #36)

 

Eu sou capaz de apostar que, se você é um escritor ou quadrinista no início de carreira, está cheio de dúvidas sobre como tornar viável seu próximo (ou primeiro) trabalho. Era uma das minhas grandes dúvidas. Hoje eu queria falar aqui sobre algumas formas possíveis de colocar o seu trabalho na rua, na mão do leitor.

Mas, primeiro

Esse tema não foi escolhida à toa. Eu mesmo vou experimentar uma nova forma de financiar e distribuir meu novo trabalho. Depois de alguns anos usando o combo edital-editora, chegou a hora de me arriscar no financiamento coletivo, ainda em parceria com a Editora Draco, que sempre comprou minhas ideias. É dessa forma que queremos colocar no mundo uma inédita edição impressa de “Mata-mata”, ebook que lancei no final do ano passado. Essa versão inclui uma nova revisão do material lançado online e ainda uma série de contos, cordéis e ilustrações que contam o ANTES e o DEPOIS da história original. Sim, é a hora de entender melhor a família Tainha, se embrenhar nos confrontos entre irmãos no evento Mata-mata e saber o que aconteceu com os personagens principais depois do trágico fim do ebook.

A campanha também vai nos ajudar a reimprimir alguns trabalhos meus que estão esgotados (se está faltando alguma HQ minha na sua coleção, fique atento) e ainda a pôr no mundo um OUTRO trabalho meu. Mas sobre esse livro novo eu falarei na próxima semana…

A campanha está prevista para começar no próximo dia 25/11 (quinta-feira), com condições especialíssimas para os primeiros apoiadores. Por isso mesmo, convido você a clicar no banner abaixo e se cadastrar para ser um dos primeiros a receber as novidades sobre o projeto no site da pré-campanha:

 

Clique na imagem para saber mais e apoiar o projeto

As formas de publicar seu primeiro trabalho

Esse texto não pode iniciar de outra forma que não seja essa: você não precisa de dinheiro para colocar suas histórias no mundo. Se sua vontade é apenas colocar para fora o que está dentro de você, existem um monte de formas para divulgar gratuitamente seus textos pela internet, seja em redes sociais para escritores, como o Wattpad, e quadrinistas, como o Tapas, ou mesmo publicando online na Amazon. Nem há cem anos grana era um impedimento para publicar, imagina agora.

Mas a verdade é que muito escritor ainda tem aquele fetiche de ver o seu trabalho impresso, o que leva a custos de impressão. E mesmo quem fica tranquilo em colocar seu trabalho apenas no mundo digital pode querer pelo menos contratar alguém para editar, revisar e diagramar o trabalho (entre outros serviços), que fazem uma diferença BRUTAL na forma como as pessoas vão ver um livro. Mas como bancar isso?

A primeira forma é do próprio bolso. Reza a lenda que o escritor André Vianco bancou a produção do seu primeiro livro com o seu FGTS. Sem dúvidas, se você tem essa possibilidade, é aquela em que haverá mais liberdade para desenvolver o seu livro. Se você quer apenas ter o gostinho de ver seu trabalho pronto, essa modalidade cumprirá esse papel. Mas, mesmo dispondo dos recursos para isso, pense que essa autopublicação pode deixar você com um monte de livros no guarda-roupa e não cumprir a função de apresentar devidamente seu trabalho para os leitores, por conta das próprias limitações que o autor tem para divulgar e distribuir seu trabalho sozinho. Eu gosto sempre de sugerir que essa seja a última alternativa. Vamos explorar outras possibilidades, pela ordem que eu sugiro que você as procure.

Quando se fala do mercado editorial, lembra-se logo das editoras. Com uma boa editora (e aqui friso o “boa”, porque existem as que não são também) seu trabalho pode chegar a mais gente, fora o acabamento profissional que uma editora pode dar. O processo de publicação por elas varia bastante, mas geralmente você procura no site ou outros canais de comunicação da editora as chamadas regras de submissão ou de envio de originais. Geralmente você envia o original pronto do seu livro para que ele seja lido por alguém da editora... e espera. O mais comum é que as editoras respondam apenas aos autores dos livros que ficaram interessadas e essa resposta pode demorar meses. A sugestão é: 1) estudar bastante as editoras disponíveis e mandar para aquelas que possuam uma linha editorial próxima da sua história (procure editoras com livros que pareçam o seu) e 2) se nas regras da editora que é seu alvo não falar nada do contrário, envie seu original para mais de uma editora ao mesmo tempo. Aí, aguarde dois ou três meses (tempo médio para análise). Se não tiver resposta, parta para o próximo passo.

Já falei em outro texto sobre editais, mas resumindo bem resumido: você participa da seleção de um órgão governamental ou de uma empresa que está disposta a patrocinar a publicação de seu livro ou HQ. Participar de editais exige primeiro que você esteja de antena ligada para saber quando eles estão abertos (usar alertas no Google pode ajudar bastante). As seleções normalmente são bem concorridas e eu nem considero essa a parte mais difícil desse processo. As principais complicações são: 1) você vai gerir a grana que receber para fazer o seu livro, logo terá que gerenciar e articular todos os prestadores de serviço necessários, e 2) envolve muita, mas muita burocracia. Se você lida bem com o ponto 1, mas não com o ponto 2, talvez a próxima modalidade sirva melhor para você.

O crowdfunding, ou financiamento coletivo, surgiu para que você possa mobilizar pessoas que gostam ou acreditam no seu trabalho no sentido de viabilizá-lo. Você vai criar um projeto num site próprio para isso, como o Catarse ou o Kickante, e vai divulgar o máximo possível para outras pessoas. Hoje já existem várias modalidades de crowdfunding, na mais comum você define uma meta financeira e tem um prazo entre 40 e 60 dias para arrecadar a grana que precisa. Se conseguir atingir a meta, parabéns, você vai receber a grana que precisa para viabilizar seu livro. Se não conseguir, você não recebe nada (claro) e o dinheiro é devolvido para quem te apoiou. Essa é uma outra forma interessante de não depender de ninguém. Por outro lado, exige MUITA organização, desde o momento em que você tem que definir o valor que precisa, com muito cuidado para não faltar dinheiro, passando pela eletrizante fase de divulgar o trabalho e chegando até o momento de enviar as recompensas para os apoiadores do projeto. Todas essas fases exigem bastante planejamento. Já vi colegas construírem suas carreiras baseadas em crowdfunding com muito sucesso. E já vi outros enlouquecerem em campanhas e prometerem nunca mais se meter em algo do tipo. Analise bem como funciona esse processo antes de entrar nele. Por sorte, as plataformas oferecem ajuda para os proponentes.

Lembrando que você pode misturar modalidades, como edital para financiar a produção somada com crowdfunding para distribuir ou ainda crowdfunding para arrecadar fundos e editora para distribuir etc. São vários caminhos, estude o que os outros autores estão fazendo e encontre o seu. Só não vale guardar suas ideias só para si.


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18 de out. de 2021

Viver de escrever? (Lista do Zé #35)

 

Hoje eu me peguei pensando que uma boa forma de me conhecer como artista seria entrevistando minha esposa. Vez por outra me perguntam sobre minha rotina e sobre produtividade (uma FARSA que será tema de um do texto meu muito em breve) e conversando com ela nesses dias percebi que é impossível ter uma rotina bonitinha com a vida profissional a que me propus. Se um entrevistador chegasse para a dona Lara com a proposta de perguntar sobre o dia a dia do marido dela, ela provavelmente diria que fica tonta só pensar no meu cérebro organizando, o tempo todo, minhas pendências de trabalho. Na profissão de escritor no Brasil, escrever é só um um pedaço da coisa. Um pedaço BEM PEQUENO em vários momentos.

Rotina? Agora estou escrevendo esse texto para enviar para uma lista de e-mails, daqui a pouco estarei resolvendo uma pendência numa prestação de contas de edital, logo depois preciso conferir o que tenho de recebimentos pendentes e à noite... Bom, à noite eu vou dar aula na faculdade (meu plano A, porque não posso chamar de plano B o que paga a maior parte das minhas contas). "E você não escreve?". Sim, em algum momento eu vou escrever, durante um longo período de dias, alucinado e focado (e deixando todas as outras coisas atrasarem). Enquanto isso, vou matando a burocracia que há por trás disso.

Apostar na escrita como profissão não é para quem é obcecado por rotina ou estabilidade (essa última é outra mentirinha capitalista). Eu demorei para entender isso, mas, quando finalmente entendi, consegui lidar muito melhor com as expectativas e frustrações que vem embarcadas em produzir arte no Brasil. E é uma coisa que pode demorar. Só depois de uma década nessa indústria vital, eu consegui falar (sem ficar envergonhado) que trabalho com isso. Talvez porque na primeira década eu mais gastava do que ganhava grana escrevendo.

Além da burocracia, tem um pouco mais... Para muita gente, meu trabalho como escritor é escrever e lançar livros autorais (aqueles feitos de forma natural, com ideias minhas mesmo). Fica escondido debaixo do tapete um sem fim de "freelas" que dão mais sustentabilidade financeira. Enquanto este ano eu lançava apenas uma obra inédita e autoral (já comprou sua Luzia?), eu estava fazendo também dois quadrinhos institucionais (encomendas para empresas), escrevendo 92 páginas de um roteiro de HQ encomendado por uma editora e ainda desenvolvendo alguns roteiros para vídeos institucionais. E falando em grana, não podemos esquecer dos eventos, que (quando pagam) são uma das melhores fontes financeiras desse ramo.

Resumindo: é preciso deixar um pouco de lado o romantismo dessa profissão. Meus amigos que vivem apenas disso, até mesmo alguns que podem se chamar de bestsellers, têm que ralar MUITO com atividades paralelas à escrita para conseguir, de vez em quando, lançar aquele trabalho que realmente saiu do coração deles.

Eu falei sem romantismo? Tá, vou me permitir uma coisa breguinha e cafona no final deste texto. A resposta que muito escritor dá quando lhe perguntam se ele vive de escrever, você já deve ter ouvido, é que eles ESCREVEM PARA VIVER. E é bem isso mesmo. A melhor forma de encarar essa atividade é entendendo que você faz porque precisa e, no decorrer do processo, vai botar para fora o que acha que precisa botar. Para mim, hoje, isso é um grande privilégio.


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