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17 de jan. de 2021

Como começar uma história (Lista do Zé#33)

 

Eu acho que estava dentro de um ônibus quando uma história começou a nascer. Eu olhava para as margens semiáridas da estrada que partia ou chegava em Sobral, minha cidade, quando comecei a sonhar com uma história de… samurais. Era a história de um assassino aposentado. Agora ele era mendigo nas ruas de uma grande metrópole e, depois de receber a visita de um repórter, se viu obrigado a voltar à ativa contra a organização que o ensinou sobre a arte de matar. A história veio assim, quase toda, incluindo algumas boas ideias para um final (algo que acontece raramente). Estava com outros mil projetos na época, então anotei a ideia em vários pedacinhos de papel e pendurei num flanelógrafo no meu escritório. Quanto tempo essa ideia passou lá? Vou chutar aqui que uns cinco anos.

Essa introdução toda é apenas para iniciar uma conversa sobre um assunto que interliga várias perguntas comuns ao escritor iniciante: a) de onde vêm as ideias para as histórias ou b) como ter ideias para histórias ou c) por onde começar uma história. A resposta para essas perguntas é muito imprecisa, mas tem alguns caminhos mais comuns.


A maior parte das minhas ideias surge quando estou lendo um livro ou quadrinho ou assistindo um filme ou série. Quase sempre é um “e se...?”, uma variação daquilo que estou vendo. Eu nunca consigo desligar meu cérebro de escritor, nem mesmo quando estou com o material de outro artista. Isso significa que eu fico tipo público de show de mágica, tentando descobrir o segredo do truque daquilo que estou lendo/vendo. O truque, no caso, é descobrir a) como estão conseguindo me manter interessado naquela obra e b) como aquilo vai acabar. O item “b” é sempre muito interessante para gerar novas ideias… Às vezes eu tento adivinhar o final da história e falho miseravelmente. Aí eu olho para aquele final que eu pensei e, se eu achar ele melhor do que o que eu acabei de ver, provavelmente eu vou guardar aquela ideia de tentar “recontar” aquela história.

“Mas, Zé, isso não é plágio?”. Em alguns casos, pode ser. Então, CUIDADO. Eu poderia aqui indicar (e indico fortemente) que você veja o documentário Everything’s a remix, que explica que, no fim das contas, toda criação deriva de uma mistura de várias coisas que vieram antes, mas, antes, prefiro dizer que respeito muito as criações de outros colegas. Quando a vontade de recontar uma história vem, ela tem de vir junto com soluções que diferenciem a minha história daquela que deu origem a ela. Uma coisa que sempre me deixa muito tranquilo é que uma ideia minha passa por MUITOS tratamentos (uma forma de chamar as revisões e reconstruções da história, enquanto ela ainda está sendo criada). São tantas idas e vindas, que é muito provável que qualquer coisa que assemelhe a minha história a outra que a inspirou vire um sopro no produto final. Construir uma história inspirada em outras é o caminho mais comum do escritor iniciante, que muitas vezes quer fazer seu próprio Cavaleiros do Zodíaco, X-Men, Senhor dos Anéis ou Star Wars. O grande desafio é encontrar a forma de se inspirar sem ser um genérico. Às vezes a gente só precisa olhar um pouco ao redor.

Ideias podem vir também da simples observação do mundo. Já dizia o poeta Jessier Quirino que escritores são “prestadores de atenção”. Uma situação que você observou ou, MELHOR AINDA, que aconteceu com você, pode ser o pontapé inicial para uma história. Uma coisa que aprendi é que as melhores histórias que já contei são aquelas que advém de coisas que mexeram comigo. É muito provável que falar sobre algo que incomoda você faça muitas outras pessoas se identificarem com a sua história. Lembro de ouvir um podcast com o escritor e quadrinista Lourenço Mutarelli falando sobre seu método criativo, que constava em sentar numa praça, observar as pessoas e tentar imaginar o que elas estavam passando naquele momento. Em Steampunk Ladies: Choque do futuro, há uma sequência onde dois garotos fazem pouco de uma garota quando ela os convida para brincar de boneca. Essa cena é inspirada numa situação vivida por mim, quando flagrei um garoto fazendo pouco da minha filha numa situação parecida. Quem já leu a HQ sabe que a garotinha dá a volta por cima. É assim que escritores se vingam da vida real: escrevendo histórias.

Corta agora para o final de 2020: surge um edital da Lei Aldir Blanc na minha cidade (já falei sobre editais aqui). Foram várias seleções de projetos pelo Brasil nessa lei e a principal característica de todos era um prazo apertadíssimo. Mas que história eu inscreveria naquele edital, tendo ela que ser inédita e precisando estar pronta em menos de dois meses? Olhei para o flanelógrafo e vi os papeizinhos recortados da ideia que tive na estrada. Parecia boa, mas ainda me incomodava, porque parecia demais com outras histórias que já vi por aí. Para não cair no risco de copiar algo involuntariamente, eu precisava adicionar alguns elementos em busca de alguma originalidade. Foi aí que meu senso de prestador de atenção entrou em ação.

Na minha adolescência, a chegada de um garoto novo na escola causou estardalhaço por conta de um boato que correu pelos corredores: ele seria sobrinho de um famoso pistoleiro do estado. Se aquilo era verdade ou não, eu nunca vou saber. O fato é que essa história voltou na minha cabeça quando peguei aqueles papeizinhos, me fazendo transformar toda a ideia, começando por uma mudança de cenário para o Ceará. Claro que essa mudança também vem do meu atual movimento de escrever mais sobre coisas que estão ao meu redor. E assim nasceu Mata-mata: uma história sobre pessoas que vivem para matar outras (uma ideia construída em cima de outras), mas também uma história sobre família e legado (uma vivência).

Tudo isso começou com samurais, dá para acreditar? Engraçado que, relendo a história, comecei a entender melhor o porquê da arma da última morte, algo que rolou inconscientemente, eu juro...

De onde vem as inspirações para suas histórias?

 

Baixe Mata-mata gratuitamente clicando na imagem abaixo:

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29 de nov. de 2020

Meus próximos lançamentos, em primeira mão (Lista do Zé #32)


Olá, olá!

É hora de revelar mais detalhes dos meus DOIS próximos lançamentos! E o melhor: por conta da CCXP Worlds, você já pode garantir suas cópias em pré-venda com condições especialíssimas.

Meu próximo quadrinho, Luzia, citado num e-mail anterior desta lista, já pode ser adquirido por apenas R$ 29,90 (frete incluso). Estamos nas etapas finais da HQ, então a previsão de envio é de até fevereiro de 2021. Mas, nesse exato momento, nós e a editora estamos dando o gás para que o livro esteja na sua casa antes disso. O fato é que só agora você terá o menor preço com frete incluso, então aproveite por que esta oferta só é válida até o dia 6 de dezembro. Garanta a sua aqui!

E tem lançamento surpresa: volto à literatura com a noveleta policial Mata-mata. E para você que está lendo este e-mail, é daquele jeito que eu sei que você adora: GRATUITO. Lançado (por enquanto) apenas em formato digital, este livrinho é um projeto transmídia que contará ainda com ilustrações, trilha sonora e até um áudio drama. O lançamento oficial será no dia 27 de dezembro e você pode garantir o seu agora sem nenhum custo. Você faz a "compra" na minha loja e no dia do lançamento o livro será enviado para o seu e-mail. Garanta o seu aqui!

Para saber mais sobre os lançamentos, role o e-mail um pouquinho para baixo. Falo também da minha participação na CCXP Worlds neste mesmo texto, incluindo uma intensa programação de eventos ao vivo, com palestras e bate-papos. Te espero lá!

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A Grande Seca, como foi conhecido um grande período de estiagem ocorrido no Nordeste de 1877 a 1879, foi o mais devastador fenômeno de seca da história do Brasil, e pode ter sido responsável pela morte de até meio milhão de pessoas. Em meio a uma multidão de retirantes no sertão de Sobral, cidade do interior do Ceará, Luzia sonha com uma vida melhor, enquanto lida com a doença da mãe e o assédio de um soldado. Por ter músculos fortes, força incomparável e características masculinizadas, ela ganha a alcunha de "Luzia-Homem". Mesmo neste clima desfavorável, a retirante vê florescer uma nova amizade e também um grande amor.

Adaptado para o cinema e para o teatro, Luzia-Homem é um clássico absoluto da literatura brasileira. Publicado pelo escritor cearense Domingos Olímpio no ano de 1903, descreve as agruras do sertanejo num dos períodos mais difíceis da história do Ceará, enquanto trata de temas como assédio e violência de gênero. Luzia é uma adaptação inédita do romance para os quadrinhos e tem roteiro de Zé Wellington (Cangaço Overdrive, Steampunk Ladies) e desenhos de Débora Santos (Gringo Love, Pombos). Este projeto é apoiado pela Lei Estadual de Incentivo à Cultura - Nº 13.811, de 16 de agosto de 2006.

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Lançamento oficial em 27 de dezembro
Garanta sua cópia digital gratuita


Durante os anos 1980 e 1990, o Ceará e boa parte do Nordeste viveram um período caótico, no auge dos tempos de pistolagem. Políticos guerrearam muito além do campo das palavras, utilizando pistoleiros para executar adversários. Esses controversos matadores ganharam fama no período e eram temidos principalmente nas pequenas cidades. Já nos dias atuais, quando este período parecia ter ficado para trás, um assistente social se envolve no último serviço de um pistoleiro aposentado.

Mata-mata é uma noveleta de Zé Wellington, escritor e roteirista de histórias em quadrinhos como Cangaço Overdrive (semifinalista do Prêmio Jabuti) e Steampunk Ladies (vencedora do Troféu HQMIX). Esse projeto é financiado pela Chamada Pública 003/2020-SECJEL com fundamento na Lei Federal 14.017/2020, Lei Aldir Blanc de Emergência Cultural.

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Na impossibilidade de realizar um evento presencial, a CCXP este ano segue para uma inovadora versão online. É só zapear pelo site oficial do evento pra ver que eles não estão de brincadeira. Além de uma incrível lista de convidados que inclui Neil Gaiman e Art Spiegelman, o evento vai oferecer uma experiência que foge do formato de conferências online que se popularizou durante a pandemia. Além disso, está garantido o espaço dos artistas, renomeado nesta versão para Artists' Valley. Uma boa parte do evento poderá ser acessado gratuitamente. Garanta seu acesso ao evento aqui.

Este aqui é o link do meu perfil na Artists' Valley da CCXP Worlds!

Por enquanto meu perfil tem apenas um preview das minhas HQs. Mas durante os dias do evento (04 a 06/12/20), você terá acesso a uma loja com meus produtos com preços muitos especiais e poderá interagir comigo e outros convidados em vários horários através de eventos online, que poderão ser assistidos através da plataforma da CCXP ou pelo Youtube. Na falta do contato pessoal com os leitores no evento, através do meu canal do Youtube (inscreva-se aqui) e também de outros colegas, vamos poder conversar sobre diversos assuntos em transmissões ao vivo. Confira os dias e horários abaixo:

04/12 (sexta-feira)


05/12 (sábado)
06/12 (domingo)

 

 

 

28 de set. de 2020

Vivo e ao vivo (Lista do Zé #31)


 

Como estão vocês? Por aqui seguimos bem. As coisas andam meio diferentes nos últimos meses (mas acho que vocês já perceberam) e, se em algum momento todo o contexto que a gente vive hoje pareceu uma espécie de pausa até que as coisas voltassem ao normal, essa sensação foi para as cucuias e o mundo engatou as marchas seguintes. Ainda que todo o mecanismo da coisa tenha mudado.

Eu acho que já falei aqui em algum momento que ano passado eu tive um ano bem montanha-russa, com um vale profundíssimo no primeiro semestre e uma subida rumo ao Everest no segundo. 2020 começava promissor e me preparei para tal: comprei material para expor os livros, reforcei meu estoque, agendei uma série de eventos e me livrei de alguns compromissos profissionais para abrir espaço para a escrita. Quando a pandemia começou ficou aquela sensação de que tudo isso era apenas um "break", vamos deixar as ideias guardadas para daqui a pouco. Mas depois de seis meses, sem a mínima condição de um planejamento a longo prazo, você começa a perceber que esperar não é uma boa estratégia. Com ou sem vacina, as coisas mudaram de verdade. Elas podem até vir a ser como antes em algum momento, mas está mais do que claro que isso pode demorar. Então é hora de ajustar o itinerário: entender o que é possível agora, respeitar suas próprias limitações e seguir numa nova direção.

Para um cara que tenta lidar diariamente com suas crises de ansiedade, planejar com incerteza não é lá muito fácil. Mas, no geral, até que as coisas têm funcionado bem. Ainda que tenha vivido um ou outro período explosivo, a vida seguiu nesse ano e muitos projetos voltaram a andar. Eu não penso mais no depois, já que não dá pra saber se e quando será.

Bom, isso é um desabafo (que pode, sei lá, servir para alguém), mas também uma justificativa, talvez longa demais, para um hiato aqui na lista. Esse final de ano, como a maioria dos finais de ano na minha vida, vai ser intenso, com a maratona para finalizar minha próxima HQ, a adaptação para quadrinhos do romance Luzia-Homem, enquanto vários outros projetos foram ajustados e outros criados para este novo momento. Então vou dando sinal de vida quando possível. Boas notícias virão muito em breve.

Espero.

Para receber textos como esse no seu e-mail, inscreva-se na minha lista: bit.ly/listadoze

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Talvez alguém aqui se interesse em saber que consegui finalmente fazer uma lojinha razoável no meu site oficial. Todas as minhas HQs estão lá, promocionalmente e por tempo limitado com frete grátis para todo Brasil. Como sai direto da minha casa, pode ir com dedicatória e sempre vai com brindes.

Os destaques são o retorno de Quem Matou João Ninguém? (meu primeiro álbum, de 2014) e os combos com precinhos especiais.

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Amanhã estarei no Festival Nordestino de Economia Criativa. Meu irmão baiano Hugo Canuto e minha comparsa na dominação mundial dos quadrinhos nordestinos Thaïs Kisuki vão estar comigo num papo sobre fazer quadrinhos no nordeste, no dia 29 de setembro (terça-feira), a partir das 16h. O evento vai rolar dentro da programação do Festival Nordestino de Economia Criativa, uma realização dos Sebrae, que começa hoje. É tudo GRATUITO, basta se inscrever no site e o link pro evento vai chegar no seu e-mail: www.festivaleconomiacriativa.com.br

Vale a pena conhecer o restante da programação, que tem Patativa do Assaré, Movimento Armorial, cinema, games e mais um montão de coisas relacionadas com o fazer cultura do Nordeste.

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Acho que vale a pena falar do montão de eventos que eu participei do meu último e-mail para cá, né? Todos disponíveis para serem assistidos/ouvidos.

  • Cangaço Overdrive foi tema do podcast Imaginários. Em episódio do podcast da Editora Draco, os editores Raphael Fernandes e Erick Sama receberam a mim e ao escritor Fábio Fernandes para conversar sobre meu quadrinho semifinalista do Prêmio Jabuti. Escute aqui.
  • Ainda sobre cyberpunk, rolou um debate sobre distopias nos quadrinhos nacionais. O papo aconteceu durante Painel Aberto de Quadrinhos, um evento da Com-Arte Jr., empresa júnior do curso de Editoração da ECA-USP. Além de mim, estiveram presentes o Gabriel Jardim, a Kione Ayo e o Isaac Santos. Assista aqui.
  • Rolou uma conversa pra lá de íntima sobre minha relação com quadrinhos. Foi no canal do Youtube do Estúdio Daniel Brandão. Conduzido pelo próprio Daniel, que antes de qualquer coisa é um amigo muito próximo, falei como nunca antes sobre minha carreira. Assista aqui.
  • Terror, regionalismo e quadrinhos no sertão, num bate-papo no Youtube. Conversei com o amigo e também escritor Márcio Benjamin, como parte da programação do Sesc ConVida. Assista aqui.
  • Teve também podcast sobre o fazer quadrinhos do Nordeste. Ainda como parte da programação do Sesc ConVida, participei de um podcast com outros quadrinistas nordestinos. Escute aqui.
  • Falei sobre criar histórias no sertão e no Ceará no Youtube. Na plataforma do Cultura Dendicasa, da Secretaria da Cultura do Ceará, saiu a minha participação no projeto num vídeo sobre a minha experiência escrevendo Cangaço Overdrive e os muitos aprendizados do processo. No final, indico vários quadrinhos de autores cearenses. Assista aqui.

 

Sigam minhas redes sociais, especialmente meu Instagram, para ficarem por dentro dos próximos eventos. Se precisarem entrar em contato, respondam este e-mail.

Se cuidem por aí.

17 de jun. de 2020

Turnê Virtual de Lançamento de Steampunk Ladies: Choque do Futuro


Em dezembro de 2019 lançamos Steampunk Ladies: Choque do Futuro. Depois de um péssimo primeiro semestre na minha vida profissional, era um jeito massa de encerrar um dos anos mais emblemáticos da minha vida. Um dos grandes aprendizados do ano passado para mim foi que TALVEZ essa coisa de escrever possa dar certo profissionalmente. Mas boa parte dessa possibilidade residia nos EVENTOS. Se 2020 fosse um pouquinho melhor do que seu antecessor (que foi espetacular nesse quesito no segundo semestre) eu ia conseguir dar passos concisos nos meus objetivos com a arte.

Mas aí veio a pandemia.

Sem a possibilidade dos encontros presenciais, lançar uma história em quadrinhos virou um desafio. Toda uma articulação que eu havia construído pra fazer lançamentos do quadrinho novo pelo nordeste foi pro ralo. Pra completar mais uma vez na minha vida eu me vi às voltas com ela... a pilha de quadrinhos no guarda-roupa. Faziam anos que eu não acumulava livros meus aqui, por conta da boa saída que eles vinham tendo em eventos. Algo tinha de ser feito.

Num exercício de coragem e paciência, comecei a enviar mensagens para comics shops e livrarias pelo Brasil para montar uma alternativa. E a resposta foi muito positiva.

Assim, começando amanhã até o dia 3 de julho, acontecerá a Turnê Virtual de Lançamento de Steampunk Ladies: Choque do Futuro. Uma nova forma de distribuição, que monetiza também as lojas, foi pensada pra esses eventos. Respeitando as recomendações das organizações de saúde, os eventos digitais acontecerão em forma de transmissões ao vivo no Instagram das lojas, com minha participação e de outros colaboradores da HQ. Os quadrinhos nem vão chegar a ir para as comic shops, pra agilizar e baratear o processo eles vão sair daqui de casa, com autógrafo, dedicatória e brindes exclusivos (tudo que o leitor teria direito num evento presencial), direto para a casa dos compradores. A compra vai ser feita pelas lojas virtuais das comic shops e livrarias envolvidas. Inicialmente, a turnê “passará” pelas cidades de Fortaleza, Teresina, São Paulo e Curitiba.

É uma experiência. Vamos ver o que aprenderemos com isso.

O calendário de lançamentos ficou assim:

    18/06 - 18h30: Comic Boom! (São Paulo) - no perfil @comic_boom_
    23/06 - 17h: Quinta Capa (Teresina) - no perfil @quintacapalivraria
    26/06 - 20h30: Reboot (Fortaleza) - no perfil @rebootcomicstore
    29/06 - 17h: Arte e Letra (Curitiba) - no perfil @arteeletra
    01/07 - 16h: Itiban (Curitiba) - no perfil @itibancomicshop
    03/07 - 19h: Excelsior (São Paulo) - no perfil @excelsior_comic_shop

São vários papos e várias oportunidades de falar sobre a HQ e outros assuntos. É só chegar no perfil da loja no Instagram no dia e horário marcado. Por sinal SIGAM OS PERFIS das lojas, que estão passando por um momento tão complicado quanto eu. A essas lojas, fica o meu agradecimento pela confiança.

Posso contar com a sua presença?


21 de abr. de 2020

Prometeu inconfidente (conto) (Lista do Zé #30)



Olá, olá!

Que tal um conto hoje?

Era 2011 ou 2012, quando apareceu na Internet uma chamada para uma antologia da Editora Estronho com contos que misturassem os acontecimentos da Inconfidência Mineira com ficção científica ou fantasia (que hoje está disponível para venda aqui). Naquela época, como forma de treinar a escrita, eu tentava participar de todas antologias desse tipo abertas. E foi assim, com um tempo apertadíssimo, que escrevi o conto que vocês poderão ler logo abaixo, um encontro desse momento da história brasileira, lembrado nesse feriado nacional de hoje, com as ideias imortalizadas pela escritora Mary Shelley na sua obra-prima, Frankenstein ou o Prometeu Moderno, um dos meus livros favoritos.

Curiosidades sobre este conto
1. A cabeça de Tiradentes desapareceu mesmo.
2. Os textos extras que aparecem no início e no fim do conto só foram colocados para que ele alcançasse o número mínimo de caracteres exigido na seleção (você pode até ignorar se quiser, embora eu ache hoje que eles dão um certo charme).
3. Fiquei com uma vontade danada de revisar e reescrever o conto... Mas qual seria a graça, né? Melhor mostrar pra vocês essa foto da minha produção de dez anos atrás. Reli e ainda gosto da maior parte dele.

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Prometeu inconfidente
Por Zé Wellington
 
“Quereis, minhas senhoras, que vos conte uma história para disfarçar o enfado destas longas e frigidíssimas noites de maio? Mas, por melhor que seja a minha vontade, não sei como possa satisfazer ao vosso pedido... digo mal, – cumprir as vossas ordens. Este frio enregela-me as asas da imaginação; este vento glacial, que uiva pelos telhados, como uma matilha de cães danados, estes guinchos de corujas, que parecem lamentos de precitos, fazem a inspiração recolher-se toda encolhida aos mais íntimos esconderijos do crânio, tiritando de frio e de medo. A falar-vos verdade, minhas senhoras, tenho o espírito tão seco e estéril, como a caveira de um defunto enterrado há cem anos. Ah! falei-vos em caveira!... E não é que esta ideia de caveira veio despertar-me a reminiscência entorpecida pelo frio?! Foi como a vara mágica de Moisés, que fez rebentar água em jorros da aridez do rochedo do deserto. E, pois, vou contar-vos a história de uma caveira memorável. Não se arrepiem, minhas senhoras; não é história de almas do outro mundo, de trasgos, nem de duendes. É uma simples tradição nacional, ainda bem recente, e da nossa própria terra. Essa história eu a poderia intitular: História de uma Cabeça Histórica.”
A cabeça do Tiradentes, Bernardo Guimarães
 
 
I
Certamente a maioria das pessoas odeia ir ao dentista. Eliseu até que gostava: era uma das poucas situações em que o menino não precisava falar com quem estava com ele. Com aquele monte de ferramentas na boca, a sagrada obrigação de ser uma criatura social pertencia ao doutor.

– Com anestesia ou sem anestesia, Eliseu?

– Qual é o que dói menos? – disse o garoto com dificuldade, cuspindo na bata do médico.

– Possivelmente as duas doem do mesmo jeito...

Eliseu arregalou os olhos e antes que pudesse responder, o dentista puxou rapidamente o alicate da boca do garoto. Sangue espirrou para todos os lados, especialmente sobre o rosto do menino, que nem teve tempo de sentir dor. Delicadamente aquele doutor limpou o rosto de Eliseu, seu sorriso acalmando a perda do dente.

– Não é interessante, garoto, o funcionamento do corpo? Todo o fluido que corre nas nossas veias... O delicado fluxo do indivíduo? – disse o dentista.
Com a mão na boca, recuperando-se do trauma, Eliseu não conseguiu responder. O doutor riu e mudou de assunto, talvez pensando que o garoto pudesse não ter compreendido.

– É o meu último dia aqui, e você me dá sangue de presente, Eliseu... Vou demorar horas limpando este consultório.

– Você vai embora, doutor Joaquim? – Eliseu já se recuperava.

– Já chega deste lugar. Em tempos como estes a carreira militar é o melhor para um rapaz pobretão como eu. Seguirei patrulhando pelo Caminho Novo.

– Ser soldado deve ser emocionante... – disse Eliseu, levantando-se da cadeira.

– Tire essa ideia da cabeça, menino. Você é rico. Já deve ter uma cadeira na Universidade de Coimbra com seu nome. Você vai ser alguém na vida, não vai ser esquecido assim que morrer. Parece que quando falam de mim só dessa terrível alcunha que me botaram é que se lembram...

– Tiradentes, – um rapaz adentrou a sala gritando – já é hora!
Silvério, um rapaz comunicativo e bem mais novo que Tiradentes, invadiu o ambiente de forma expansiva, mexendo no material do dentista. Eliseu se incomodou com a liberdade do novo visitante, mas imaginou que ele poderia ser bem próximo ao doutor.

– Nosso trem parte logo.

– Calma, Silvério... Nunca vi alguém mais ansioso pela própria morte... Por que enfim é isso que procuramos na vida militar, correto? – disse Tiradentes, voltando-se para Eliseu.

– E o salário, Tiradentes... Esqueceu do polpudo salário que nossa maravilhosa coroa de Maria Louca nos proverá? – disse o jovem Silvério, sorrindo com seus dentes sujos e mal cuidados.

Tiradentes virou-se para Eliseu e tocou carinhosamente seu queixo:

– Preciso ir, menino. Quem sabe não nos encontramos por aí. Da próxima vez o doutor pode ser você... Um doutor de verdade, de diploma e tudo mais. Muito mais que um “arranca-dentes” minerador... Faça algo bom de sua vida, criança.
 
II
A Universidade de Coimbra era um ambiente com um quê selvagem. Entre nobres circulavam figuras exóticas, cabeças que pensavam à frente do seu tempo. Ou pelo menos assim achavam. Filho do Barão de Congonhas do Campo, Eliseu ganhara a oportunidade de viajar a Portugal, onde receberia educação formal superior. O jovem havia optado pelas ciências naturais como sua área de interesse.

– É um ramo interessante, Eliseu. Mas o que precisam na colônia é de engenheiros. Precisamos abrir estradas e canalizar os rios do Brasil selvagem! – um empolgado jovem, de cabelos ensebados e roupas bem passadas, declamou levantando-se da mesa, onde vários universitários congregavam.

– Eu certamente compreendo a sua exaltação, Luís Antônio. Mas desde criança me interessou entender a natureza, o funcionamento dos seres humanos... Na verdade, as ciências que me escolheram.

– Nunca deixe que sua paixão mande em você, Eliseu – de forma mais reservada, outro rapaz se manifestou. Francisco tinha o costume de posicionar-se com esse tipo de frase misteriosa – Conheço homens que perderam a razão aventurando-se em campos como a filosofia ou a lógica, desesperados pela verdade.

– A mim basta entender melhor o corpo humano, ir além da medicina – Eliseu apontou o próprio peito – Existem mais coisas nos guiando que se pode imaginar.
 
– Para alguns só um instrumento pode guiar o homem: o dinheiro. Nesse grupo se encaixa a realeza brasileira! – Luís Antônio esbravejava novamente, abrindo os braços em seu discurso – Nada mais minha família consegue tirar de ouro. Os impostos são vergonhosos. O tal do “quinto” é um ultraje! Agora peço que reflitam comigo: vejam o que aconteceu na França... Não cairia bem uma revolução no Brasil?!

– Se você quer a forca, Luís Antônio, deve gritar mais alto e fazer com que todos que passam pelo pátio da universidade lhe escutem... – disse Francisco.

Eliseu levantou-se da mesa e fez sinal de despedida aos amigos. Não tinha grandes interesses em revoltas ou política. Havia marcado para aquela tarde um encontro com um mestre na biblioteca. Durante a semana o professor João de Assis havia falado de um nobre estudante suíço, com ideias que, essas sim, poderiam revolucionar alguma coisa: o campo das ciências.

A biblioteca da Universidade de Coimbra era uma das maiores da Europa. Dezenas de fileiras de estantes criavam um labirinto ao qual Eliseu ainda não se habituara. Depois de alguns minutos circulando entre os escritos, o jovem encontrou seu mestre orientador, que estava junto de outros magistrados. Na roda, várias cabeças brancas, aparentando estarem seduzidos por um jovem de cabelos longos e negros que discursava com uma publicação de Paracelso na mão.

– Eliseu! Aguardávamos sua chegada ouvindo as incríveis proposições de nosso convidado. Permita-lhe apresentá-lo...

– Meus cumprimentos, Eliseu – o sotaque forte do jovem denunciava sua ascendência germânica. Mesmo assim, o domínio da língua portuguesa impressionava – Muito ouvi falar de você.

– O prazer é meu, senhor...

– Por favor... Apenas Victor. Não me chame pelo sobrenome, fazendo-me parecer velho, como os senhores aqui querem que eu pense que sou – apesar do tom sério, Victor esforçava-se para mostrar alguma simpatia.

– Ora, Victor, com suas ideias é difícil acreditar em sua pouca idade. É necessária uma vida inteira para pensar na mesma intensidade que você – o professor João parecia não se importar em bajular o convidado – Mas acredito que Eliseu adoraria ouvir um pouco dessas ideias enquanto tomamos um chá no refeitório da universidade.

– Seria um imenso prazer – disse Eliseu, já apontando a saída da biblioteca.

Durante uma tarde inteira, Eliseu e o professor ouviram Victor. Seu fascínio pelas leis da vida contagiava os ouvintes. Discursava sobre questões relacionadas ao conceito da abiogênese, a irreversibilidade da morte e ainda polêmicas relacionadas à alquimia, esta última perdendo espaço dia a dia para outras ciências do mundo moderno. Ao mesmo tempo em que falava, notava-se certa inconformação e olhar triste em seu semblante. Victor parecia fazer de seus estudos uma guerra particular.

– Acho que certas leis da vida talvez não possam ser revertidas... – Eliseu não conseguiu evitar pensar em voz alta.

– Ora, nobre colega, cada descoberta que o homem fez nos últimos anos partiu de um questionamento, de uma impossibilidade. Sei que muitas das minhas ideias tiram o sono de religiosos... – disse Victor com um pequeno sinal de irritação – Sei bem como Galileu se sentiu quando expôs sua teoria sobre o sol no centro do universo, os preconceitos e superstições que barraram suas descobertas.

– Quando pensar no sol, Victor, não se lembre de Galileu: lembre-se de Dédalo e Ícaro. Ou ainda de Prometeu – o professor João deu um curto sorriso ao final dessa afirmação. A ironia foi captada imediatamente pelo convidado, que pareceu incomodado.

– Hum. Acho que devo voltar à Suíça. Minha viagem a Portugal, ao que parece, não deve trazer grandes frutos. Auf Wiedersehen, senhores.
Victor levantou-se do seu banco, fez um cumprimento da forma mais educada que pôde e não aguardou a resposta dos seus ouvintes. Aquela discussão ainda ecoaria na cabeça de Eliseu por alguns dias.
 
III
A cansativa viagem de navio de volta ao Brasil estava finalmente acabada. Eliseu foi recebido pelos pais de forma efusiva. Junto deles, Elisabete, antes uma amiga de infância barulhenta e típica garotinha rica, agora uma bela dama de família nobre e quem se insistia dizer ser a melhor pretendente para o jovem recém-chegado.

– Meus cumprimentos, meus pais. Senhorita Elisabete... – Eliseu fez uma pequena reverência.

– Vejam se não é o novo médico da família! – o pai de Eliseu abraçava-o desengonçadamente.

– Estudei ciências naturais, meu pai... Acredito que “cientista” seja mais adequado.

– Não complique, meu filho... Estávamos ansiosos por sua volta. A jovem Elisabete não parava de falar em você durante esses anos – finalizava a mãe de Eliseu, transformando a situação na mais desconfortável possível.

Na carruagem que levava a família inteira ao lar, o pai de Eliseu o inteirava sobre as novidades na colônia. Percebia-se certo clima tenso nas ruas de Vila Rica.

– Depois dos franceses, deu nos jovens brasileiros de separar nossa capitania do restante do Brasil... Não que eu esteja satisfeito com a coroa... Continuam taxando o ouro até que pouco sobre a quem o minera. Mas, mais do que a gravata-borboleta, a forca parece ser o adereço de pescoço na moda no momento. Certos pensamentos não podem fazer as pessoas perderem a cabeça... Se é que você me entende, filho...

– Não se falava em outra coisa na universidade, pai.

– Enfim, vários foram presos. Alguns devem ser soltos. Têm suas costas largas, pertencem a cultos que vão além dos poderes da realeza... No entanto haverá aqueles que serão exemplos, que não devem escapar da punição. Inclusive, entre os presos, há alguém que talvez você conheça... Fazia bicos cuidando dos dentes da nobreza da cidade...
 
– Doutor Joaquim! – Eliseu não conseguiu esconder a surpresa.

– Por aqui era conhecido pelo apelido de “Tiradentes”... Andou se envolvendo em confusões no Rio de Janeiro. Está preso junto com outros de sua laia.

Eliseu pareceu sentido por não poder fazer algo a respeito. Imaginar que o doutor lutava pelos direitos da população fazia Eliseu nutrir algum respeito por ele, talvez nem tenha percebido a contaminação com essas ideias no ensino superior.

Já em sua casa, Eliseu continuava os estudos. Andava um pouco perturbado nos últimos meses: havia chegado a uma encruzilhada. Incomodava a ideia de não ir além das conclusões dos autores que estudava. Às vezes pensava não ter o estímulo certo, a inspiração adequada para encontrar novas conclusões. Tentava colocar os pensamentos em ordem quando ouviu a porta bater.

– Eliseu! A senhorita Elisabete o aguarda na sala de jantar! – a voz empolgada da mãe de Eliseu do lado de fora do quarto machucava seus tímpanos.

Foi encontrar-se com a jovem senhorita na sala de casa. Por mais bela que fosse a convidada, Elisabete com certeza não era das companhias mais interessantes no momento. Acostumado com as rodas calorosas de debates científicos, assuntos cotidianos como a vida social da burguesia ou o último romance de Castelo Branco não eram interessantes o suficiente para afastar os pensamentos de Eliseu de seu trabalho, um tratado que questionava as bases da biogênese. A sineta na porta de entrada da casa salvou o jovem de uma estafante descrição dos desenhos bordados no vestido mais novo da rainha.

Um empregado entregou um grande pacote a Eliseu.

Ao ver o nome do remetente, os olhos de Eliseu brilharam. Pediu licença à Elisabete, já se desculpando, afirmando ter de ir ao banheiro tratar de “assuntos naturais”. A garota sorriu e disse voltar em outra hora, recomendando a leitura de um bom romance à toalete, caso o intestino resolvesse não “trabalhar” de forma adequada.

Eliseu bateu com força a porta de seu quarto, trancando-o. Verificou mais uma vez o nome do remetente no envelope. Dentro dele um calhamaço de papel com uma série de estudos e o que parecia ser um diário. Um sucinto bilhete completava o pacote:

“Prezado colega, por vários momentos ensaiei jogar esse material à lareira. No entanto o conhecimento é um presente sem valor, se você não pode compartilhá-lo com alguém. Ao tempo que sigo na minha jornada moral final, procurando expiar meus pecados, deixo-lhe que analise todas as minhas descobertas. Sinto que esteve certo no nosso encontro e peço-lhe para que tome as providências adequadas para com este estudo. Peço perdão pela rudeza em minha despedida e espero que essa correspondência forneça o final adequado à nossa relação. Atenciosamente, Victor”.
 
IV
O decreto de condenação de Tiradentes à forca era o assunto da cidade. Eliseu recebeu a notícia com tristeza. Mas não pensou sobre isso durante muito tempo. No último ano a evolução de seu estudo foi notável. Nada seria possível sem as anotações de Victor, a quem o jovem cientista tinha enviado diversas correspondências sem obter nenhum retorno, como se o suíço tivesse desaparecido da face da Terra. De qualquer forma aquele parecia um caminho sem volta. Logo contestaria a teoria da biogênese. Eliseu sentiu que em breve criaria a vida em laboratório, por meios próprios.

Diariamente o jovem cientista visitava o necrotério da cidade, onde lhe eram permitidas autópsias em escravos e indigentes. Passava horas debruçado sobre os corpos recém mortos, exercitando o solve et coagula. Demorou a acreditar que Victor havia encontrado suas respostas em textos alquímicos, que uma prática antiga e obscura derrotaria as ciências naturais. Não apenas isso: suas descobertas poderiam oferecer uma derrota à própria morte.

No exato momento em que separava a cabeça de um velho negro morto, Eliseu ouviu barulhinhos agudos, como saltos finos, acertando o chão de madeira às suas costas.

– Eu... Eu... Poderia falar com você, Eliseu...? Lá fora, por favor! – enojada com a cena com que se deparava, Elisabete tinha um lenço cobrindo nariz e boca e nem esperou o jovem responder para sair da sala de autópsia.

Eliseu não parecia satisfeito pela interrupção de seu trabalho, mas as obrigações sociais, às quais ele ainda se sentia apegado, fizeram-no acompanhar à moça a calçada.

– Há uma semana espero algum comunicado seu, Eliseu! Você prometeu me levar ao teatro... – a jovem parecia indignada.

– Estou numa fase crucial da pesquisa, Elisabete. Sempre existem grandes peças em cartaz. Sei que a senhorita pode aguardar mais algumas semanas...

– Creio não ser possível, caro senhor. Caso não apareça pela noite em minha residência serei obrigada a aceitar o convite do nobre bancário da cidade.

– Pode ser que apareça, cara dama. Se conseguir executar meu experimento a tempo...

– Você foi avisado, Eliseu. Até mais ver. – Elisabete deu às costas, fazendo seu vestido serpentear no chão de terra batida como o rabo de um camaleão.

O jovem cientista retornou ao seu experimento não parecendo se importar com a ameaça da moça. Estava justamente testando a peça final de seu quebra-cabeça. Não poderia haver distrações. No entanto, Eliseu decepcionou-se ao ver que a cabeça do autopsiado era incompatível com seus planos. Teria que esperar um novo corpo, nas condições ideais, chegar ao necrotério.

Ansioso, Eliseu retornou à sua residência. Não almoçou e nem jantou. Foi direto ao seu quarto e folheou o diário de Victor, tentando conter sua agitação. O tom de horror que a narrativa do estudioso suíço tomava ao final dos escritos não impressionava mais o jovem cientista. Interessava-lhe muito mais emular o experimento do colega implantando algumas de suas próprias considerações. Mal tinha deitado na cama, quando ouviu um estardalhaço na rua. Um verdadeiro carnaval tomava conta da cidade. À frente do batalhão real, traziam a cabeça de Tiradentes.
 
V
Aquela noite parecia mais escura do que as outras. Na Praça de Santa Quitéria, um sentinela do império se esforçava para dormir. A imagem daquela cabeça numa estaca, que ele tinha a missão de vigiar, assombrava seu sono. Do outro lado da rua, esgueirando-se pelas esquinas de Vila Rica, o padre Manuel da Silva Gatto aproximava-se do soldado adormecido com uma vara. O religioso acreditava que aquela cena macabra subvertia não só os valores morais da cidade, mas também os ideais de liberdade em que ele acreditava. A densa neblina o ajudaria a furtar a cabeça daquele que ele acreditava ser um honrado herói, um mártir de uma capitania livre. Ou, quem sabe, até país livre.

A densa neblina da madrugada prejudicava a visão do padre, que, de longe, espetava a vara em direção à estaca que prendia a cabeça de Tiradentes. Mesmo sem enxergar o alvo, Gatto tentou diversas vezes, até perceber, num momento em que a neblina lhe possibilitou alguma visão, que a cabeça não estava mais lá. Assustado, fugiu ao perceber que o sentinela estava despertando. O soldado real surpreendeu-se com a estaca vazia e tratou de preparar a melhor desculpa que tinha para justificar o roubo.
 
Eliseu corria o mais rápido que podia até o necrotério, olhando para os lados de forma desconfiada. Dentro do saco de tecido, a cabeça de Tiradentes parecia conservada, provavelmente pela salmoura a que ela tinha sido submetida. Uma superstição para torná-la infértil, mas que veio muito a calhar.

O quebra-cabeça estava montado, todos os procedimentos pareciam estar em ordem. A cabeça foi conectada ao grande mosaico humano criado por Eliseu. Seguindo passo a passo as anotações de Victor, Eliseu aguardou. Primeiro alguns minutos. Depois uma hora. Uma decepção pareceu tomar-lhe, pois nada acontecia.
 
– Não! Não pode ser! Levanta, criatura! – Eliseu enfurecia-se enquanto batia no peito do ser que ele havia criado. Primeiro lentamente, depois raivosamente.

Num movimento brusco, a criatura ergueu-se com um urro grave. Assustado, o jovem cientista caiu ao pé da parede. Durante alguns segundos apenas observou o ser formado por diversos pedaços humanos sentado sobre sua mesa. Olhando em volta da sala, a criatura percebeu Eliseu.

– Eli... Zeu... Garoto...

Um choque subiu pela espinha de Eliseu. Aquilo poderia ser a maior descoberta científica da humanidade, mas a macabra lembrança que aquele mosaico humano tinha o perturbava.

– Você... Ainda me conhece... É você, Tiradentes?

– Tiradentes está morto... Eu estava lá... Eu era ele... – o ser agora articulava de forma impressionante, o que acelerava os batimentos cardíacos de Eliseu.

Levantando-se da mesa, o ser caminhou até o cientista e ajoelhou-se perante seu criador, encarando-o face a face.

– Por quê? Por que você me trouxe de volta?

– Qualquer um gostaria de ter uma segunda chance... Pela cidade você é conhecido como um herói! E ainda mais: você agora é a prova de que não é apenas Deus que pode criar a vida!

O ser segurou Eliseu pelos ombros agressivamente.

– Você pensa que é Deus?! É por isso que me trouxe de volta? Acha que eu queria estar aqui? Eu não mereço mais viver! Nem muito menos ser chamado de... herói! Você não sabe o que eu passei... Nos três anos que fiquei preso... fui torturado diariamente. Espremiam-me por qualquer informação... Entreguei cada revolucionário de Vila Rica... da mesma forma que Silvério me entregou à coroa. A revolução é uma grande ilusão... E eu fui só um maldito peão.

A criatura levantou-se e circulou pela sala. Olhou para si mesmo várias vezes. Chorou. Agitado, começou a correr pela sala quebrando todas as coisas que encontrava. Eliseu deixou o canto da parede e tentou aproximar-se de sua caixa de ferramentas. A criatura parecia não se importar mais com ele.

O jovem não sabia como proceder. Estava diante de sua maior descoberta. Do fim da encruzilhada. Mas encarava uma criatura incompleta, incapaz de perceber sua própria importância. Um ser danificado como qualquer ser humano normal. Eliseu aproximou-se de um bisturi que estava à sua frente.
 
– Você não tinha o direito! Minha morte foi uma condenação por meus erros! – o ser gritava agora sem nenhuma reserva.

Eliseu começou a se preocupar com o alarde que ele fazia. Logo haveria guardas à sua porta.

– Acalme-se, doutor... Você precisa entender o que você se tornou... – com a mão que levava o bisturi escondida em suas costas, o cientista tentou aproximar-se da criatura.

Por um momento, o ser se acalmou. Baixou a cabeça e começou a gargalhar insanamente.

– É irônico, garoto. Devo-lhe algo! E ainda lembro o que você me deu na última vez que nos vemos: SANGUE!

O ser pulou sobre Eliseu, e um confronto se deu sobre a mesa. Durante alguns minutos o cientista tentava, em vão, acertar o bisturi na criatura. Jogando-o com força sobre a parede, o amargurado ser desarmou o jovem. Eliseu mal pôde ver quando a criatura quebrou o recipiente de uma lamparina sobre si mesmo. O combustível começou a queimar o seu próprio corpo, enquanto o ser gargalhava de prazer.

– É o que acontece quando você chega perto demais de Deus, garoto... – em chamas, o ser pulou sobre Eliseu.

Tentando desvencilhar-se do monstro, Eliseu sentia seu corpo queimar. Ao mesmo tempo, toda a sala parecia incendiar-se com os resíduos do combustível. Criatura e criador pararam de respirar quase ao mesmo tempo.
 
VI
No dia seguinte, uma parte da população de Vila Rica comentava o incêndio no necrotério. Pouco sobrara da sala de autópsia. Ferramentas derretidas e anotações queimadas, entre elas um velho diário, pilhavam-se ao lado de dois corpos fundidos e irreconhecíveis no meio da sala. Mas naquele momento o assunto que incomodava a maior parte dos cidadãos da vila era o desaparecimento da cabeça de Tiradentes.
 
“Portanto condenam o réu Joaquim José da Silva Xavier, por alcunha o Tiradentes, alferes que foi do Regimento pago da Capitania de Minas, a que, com baraço e pregão seja conduzido pelas ruas públicas ao lugar da forca, e nela morra morte natural para sempre, e que depois de morto lhe seja cortada a cabeça e levada a Vila Rica, onde no lugar mais público dela, será pregada em um poste alto, até que o tempo a consuma, e o seu corpo será dividido em quatro quartos, e pregados em postes, pelo caminho de Minas, no sítio da Varginha e das Cebolas, onde o réu teve as suas infames práticas, e os mais nos sítios das maiores povoações, até que o tempo também os consuma, declaram o réu infame, e seus filhos e netos tendo-os, e os seus bens aplicam para o Fisco e Câmara Real, e a casa em que vivia em Vila Rica será arrasada e salgada, para que nunca mais no chão se edifique, e não sendo própria será avaliada e paga a seu dono pelos bens confiscados, e mesmo chão se levantará um padrão pelo qual se conserve em memória a infâmia deste abominável réu; [...]”
Sentença proferida contra Tiradentes em virtude do levante e conjuração de Minas Gerais
 
 
“De pena algumas lágrimas verteram,
Mas resignados logo as enxugaram.

 
Diante deles estava inteiro o Mundo
Para, a seu gosto, habitação tomarem,
E tinham por seu guia a Providência.

 
Dando-se as mãos os pais da humana prole,
Vagarosos lá vão com passo errante

Afastando-se do Éden, solitários.”
Paraíso Perdido, John Milton

30 de mar. de 2020

O amor nos tempos da pandemia (Lista do Zé #29)



Olá, olá!

O negócio tá meio assustador, eu admito. Nesta segunda-feira (30/03), completei 15 dias em quarentena na minha casa. O coronavírus desafia nossa lógica social. Ao mesmo tempo, esse tempo enfurnado com minha esposa e filhas me fez valorizar algumas pequenas coisas da correria diária, talvez por que é uma característica minha ver o lado bom desse tipo de situação. Ainda não sei como serão as próximas semanas, mas no geral temos conseguido passar muito bem por esse momento aqui em casa, com as crianças aproveitando como nunca essa aproximação familiar. Há coisas negativas? Ô, se há. Não dá pra ignorar os fatores econômicos, que a gente aqui em casa também vai sentir. Mas, ainda assim, tenho a convicção de que ficar em casa é a melhor opção no momento. Vamos ter que pensar nas consequências financeiras no momento seguinte, infelizmente. Pra você que lê esse texto, caso tenha condições, avalie apoiar iniciativas na sua comunidade para diminuir os impactos daquelas pessoas que não tem os privilégios que nós temos. E proteja seus pais e avós. Isso tá próximo de acabar, eu sinto isso. Infelizmente, não são muitas as coisas que eu posso fazer para conter o avanço da doença. Sendo assim, vou contribuir da forma que sei: com conteúdo. Pretendo aumentar os textos da minha lista de e-mails nas próximas semanas, pra começar.



Além disso, pra esse período de isolamento social, junto com uma galera dos quadrinhos brasileiros, criei uma iniciativa que disponibiliza quase duas centenas (e subindo) de obras nacionais para leitura gratuita no site bit.ly/hqsnaquarentena. Aproveitem, por que este material estará disponível para download somente enquanto durar o período de isolamento social. E, se curtirem os trabalhos, sigam os autores nas redes sociais e considerem comprar material deles, afinal vai ser um ano muito difícil pra gente, com poucos eventos e muitas livrarias e comic shops fechadas.

Pra essa iniciativa, disponibilizei meu quadrinho Interlúdio. Lançamos esse quadrinho online em 2008, como parte do segundo EP da minha banda Sobre o Fim (tem uma parte da história dessa publicação aqui). É uma HQ curtinha, sobre teoria do caos, desenhada pelos amigos Silvio Romero, Camila Nágila, André Pinheiro e Demétrio Braga, e que inclusive foi indicada ao Troféu HQMIX na época.

Além disso, como uma pequena contribuição na vida das pessoas nesse momento, estou articulando algumas lives com amigos no Instagram, que devem começar a acontecer já nesta semana. Vão ser vários assuntos, mas principalmente dicas sobre produção de quadrinhos e indicações de quadrinhos, música, livros e filmes. Sigam o meu perfil (@zewellington) e fiquem atentos às divulgações que vão sair por lá.

https://www.zewellington.com/p/combos.html


Outra novidade é a volta às prateleiras da minha primeira graphic novel, Quem Matou João Ninguém?, que pode ser adquiridas no site da Editora Draco, na Amazon ou diretamente comigo.

Por falar em pegar comigo, montei alguns combos com meus quadrinhos e promocionalmente estarei vendendo com frete grátis para todo o Brasil. Meu compromisso com meus leitores sempre foi de divulgar os lugares mais em conta onde comprar minhas HQs, não seria diferente neste momento econômico mais complicado, então eu tenho que dizer que sai bem mais barato comprá-las pela Amazon (com pouco mais de R$ 70,00 você consegue comprar juntas Quem Matou João Ninguém?, Cangaço Overdrive e Steampunk Ladies: Choque do Futuro). Mesmo assim, listei três motivos para comprar diretamente comigo:

1⃣ em todos os combos comprados comigo vão brindes (adesivo ou pôster A3 ou ambos nos combos a partir de três livros). E, se o comprador quiser, tem também dedicatória com seu nome nos livros.
2⃣ Steampunk Ladies: Vingança a Vapor, o primeiro volume da série, está esgotado na maior parte das livrarias, incluindo a Amazon. Tenho comigo alguns exemplares resgatados de comic shop (e que estão esgotando rapidamente).
3⃣ por que você ajuda a desaguar meu estoque de quadrinhos, que eu esperava baixar nos eventos cancelados neste semestre.

O link para a compra dos combos é facinho: bit.ly/zwcombos

E a vida segue. Se quiser precisar de alguém para conversar, responde este e-mail que ele chega direto na minha caixa de entrada.

Fique em casa e cuide da sua família.

13 de fev. de 2020

Roteirista de quadrinhos no Brasil? (Lista do Zé #28)



Olá, olá!

Ano passado completei 15 anos nesta vida de histórias em quadrinhos, mais especificamente como roteirista. Nos últimos tempos tenho recebido diversas dúvidas de outros colegas iniciando nesta atividade e pensei que poderia ser legal escrever sobre esses anseios. É bom destacar que, mesmo debutante na atividade, ainda estou aprendendo sobre ela e sobre o mercado, então as 7 perguntas que eu respondi abaixo são mais relacionadas à minha visão como roteirista.

Mas antes... Preciso dizer que meus dois últimos quadrinhos estão com um descontaço na Amazon (juntos saem por menos de 50 mangos):
Aproveitem, por que os preços podem voltar ao normal a qualquer momento!

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Tem que ser meio DOIDO para encarar uma carreira de roteirista de quadrinhos no Brasil (ou amar quadrinhos e não ter disposição para aprender a desenhar). Tem, sim, um montão de gente no país fazendo roteiro para HQ (e muito bem), mas as funções ligadas a desenho são bem mais populares. Saber desenhar realmente é uma mão na roda para contar histórias em forma de quadrinhos, ao mesmo tempo que não dispor dessa habilidade vai dificultar um pouquinho (mas não tornar impossível) a vida do pretenso quadrinista.

Escrevi meus primeiros textos ainda na adolescência. Os quadrinhos entraram na minha vida bem depois da literatura (que ainda é presente na minha vida, mas com muito menos intensidade). Minhas primeiras tentativas de fazer quadrinho vieram durante a explosão dos animes no Brasil, lá quando Os Cavaleiros do Zodíaco chegaram por aqui. Foi quando descobri também que é necessária muita dedicação para ser um bom desenhista. Mas, já na adolescência, eu era um multifazedor-de-coisas e vi que não dava para aprender a desenhar, aprender a tocar violão, organizar eventos, passar no vestibular etc. ao mesmo tempo. Durante um curso de cinema me dei conta que os roteiros poderiam ser um melhor caminho para mim. E assim vem sendo.

Separei abaixo algumas das principais perguntas que recebo sobre esta função. Elas podem ser um guia para as pessoas que pretendem se jogar nesta maluquice.

1. Um roteirista é aquele cara que faz as letrinhas das histórias?
Por mais boba que essa pergunta possa parecer, eu me sinto na obrigação de começar por ela. Quem faz as letrinhas nos quadrinhos é um profissional importantíssimo chamado letrista (nos meus últimos quadrinhos, tive o privilégio de contar com o incrível Deyvison Manes na função). Para letreirizar a HQ, o letrista utiliza o roteiro, essa, sim, a peça fundamental do trabalho do roteirista. O roteiro é um documento que guia a criação das histórias em quadrinhos. Não existe um formato pré-definido para ele, pesquisando pela internet você vai encontrar modelos diferentes. Embora a maioria dos roteiristas escreva um texto descrevendo o que quer que seja desenhado, há colegas que desenham seus roteiros, como se fosse um esboço da história em quadrinhos (é assim que são feitos os roteiros da Turma da Mônica). Coloquei um trechinho do roteiro de Cangaço Overdrive neste link, para quem tiver curiosidade em ver como são os meus. Ah, embora não seja função do roteirista letreirizar sua HQ, é bem interessante ele ter noções sobre esta função (dica para a vida).

2. Como consigo pessoas para desenhar meus roteiros?
Essa é a pergunta que mais recebo no inbox do meu Instagram. Para um roteirista iniciante, é um desafio absurdo convencer um bom desenhista a desenvolver seus primeiros roteiros. As sugestões que eu daria seriam as seguintes: A) comece com roteiros de histórias curtas (entre 4 e 12 páginas) e B) tente juntar outras pessoas que querem fazer quadrinhos e proponha trabalhos coletivos. Sobre a letra A, leve em consideração que desenhar quadrinhos é uma coisa demorada e que pode levar tempo. Histórias curtas aumentam as chances de um desenhista se interessar e de aquele seu roteiro realmente ser desenhado até o final. Sobre a B, vou contar um segredinho para vocês.... Quando me dei conta que queria ser roteirista, me vi sob essa problemática. Minha primeira ação foi criar um grupo de estudo na minha cidade, o que atraiu vários quadrinistas (a maioria desenhistas). Criamos um fanzine chamado Gattai Zine, onde publicávamos trabalhos curtinhos, misturando as pessoas do grupo. Bum! Dois coelhos com uma cajadada só. Se mesmo assim tiver dificuldades, talvez seja melhor se matricular em aulas de desenho... ou botar a cabeça para funcionar e pensar em alternativas, como fez o Marcelo Saravá no incrível 1000 Palavras, coletânea de tirinhas apenas com textos (conheça aqui). Ah, mesmo já tendo algum reconhecimento, até hoje ainda é um desafio para mim encontrar parceiros. Tanto que nos meus últimos quadrinhos eu busquei apoio de editais para conseguir pagar todos os envolvidos (falei sobre isso neste texto).

3. Você vive disso?
Hoje sim, mas não apenas disso. Tenho outras duas profissões (sou professor universitário e consultor na área de marketing). Vale dizer que nos primeiros 10 anos como roteirista/quadrinista EU MAIS GASTEI DO QUE GANHEI ALGUMA COISA. Lembro que 50% da cota dos meus exemplares de Quem Matou João Ninguém? (que lancei em 2014) enviei para a imprensa e influenciadores do meio. Felizmente, naquela época eu podia fazer isso (hoje já não tenho como). Como qualquer profissão ligada à arte, é preciso tempo e muito trabalho para estabelecer uma carreira. E, vale dizer, dentro das minhas receitas como roteirista, talvez uns 30% sejam com venda de quadrinhos. Os outros 70% vêm de participações em eventos, palestras, cursos e serviços relacionados. Conversando com outras pessoas no meio, percebi que isso é meio que bem comum.

4. Roteirista de HQ no interior do Ceará... Como é isso?
Difícil pra caralho. Nem queira saber. E olha que tenho um monte de privilégios como o homem branco que sou (nem consigo imaginar como é para quem não tem). Eu entendo (mas fico triste com) o monte de gente que desiste no meio do caminho ou acaba debandando para outras áreas, como cinema e literatura.

5. Indica livros?
Infelizmente tem pouca coisa impressa especificamente sobre roteiro para quadrinhos. Tem um material que a Opera Graphica lançou no Brasil (e que é difícil de encontrar hoje) chamado Guia Oficial DC Comics – Roteiros, escrito pelo grande Dennis O’Neil, que é um dos mais completos que já li. O primeiro material que tive acesso foi um e-book do Gian Danton, que é bem simples, mas me ajudou bastante (não é à toa que convidei o Gian para o prefácio de Quem Matou João Ninguém?). Tem alguma coisa sobre roteiro nos ótimos livros do Scott Mccloud, sendo o Desenhando Quadrinhos o meu favorito: o nome em português pode enganar (no original é Making Comics), mas ele trata de todas as etapas do processo. Tenho lido materiais de outras linguagens, que também ajudam bastante. Um dos livros que mais estudo e consulto é o Story, do Robert McKee (que é voltado para o roteiro de cinema). Tenho aqui, lá no fundo do meu coração, alimentado a ideia de escrever um pequeno manual... Quem sabe?

6. Pode ler meu roteiro e dar uma opinião?
Taí uma coisa que me perguntam muito... Fico lisonjeado quando alguém me pede uma opinião sobre algo que escreveu. Mas fazer isso é uma questão muito complexa. Primeiro, ler um texto ainda não publicado gera um certo comprometimento com aquela ideia original. Se futuramente alguma história minha apresentar algum elemento similar ao conceito que o colega me enviou, ele pode entender que eu o estou plagiando. Segundo, alguém pode ficar surpreso com isso, mas LER ROTEIROS LEVA TEMPO. Tem gente que fica até chateado quando eu digo isso, mas é importante frisar que há quem preste este tipo de serviço, conhecido como revisão crítica, e dá um trabalho danado. E, mesmo que não desse, nesta minha vida de pai do Chris, com três empregos, é muito complicado conseguir arrumar tempo para algo assim. Nem mesmo quando me pedem como serviço pago eu costumo atender. Só faço isso em situações muito especiais. Então, quando fizer este pedido para algum roteirista ou escritor, entenda se ele lhe der um respeitoso "não". Se precisar deste tipo de serviço, recomendo essa relação de prestadores levantada pelo Rodrigo Van Kampen.

Receba textos como esse no conforto do seu e-mail. Cadastre-se na minha lista: http://bit.ly/listadoze

30 de jan. de 2020

Criando quadrinhos no Brasil (Lista do Zé #27)

https://open.spotify.com/episode/2FissmQ0He4qjx2zLLKFNm?si=uLEiGS2JS3i4YUwYZVONEw


Primeiramente: Feliz Dia do Quadrinho Nacional! Nós, que fazemos quadrinhos no Brasil, comemoramos esta data todo dia 30 de janeiro, em alusão à data da publicação do que se considera a primeira história em quadrinhos do Brasil, As aventuras de Nhô-Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte, de Angelo Agostini. Isso aconteceu em 1869.

Escolhi o dia de hoje para publicar um podcast onde converso com boa parte da equipe envolvida em Steampunk Ladies: Choque do Futuro. Falamos sobre como eles atuam no mercado, se vivem de fazer quadrinhos e ainda se quadrinhos e política são uma boa mistura. O programa é um prato cheio pros curiosos e, principalmente, pra quem quer entrar no mercado de quadrinhos. Dá pra escutar nos links abaixo:

Tá liberado compartilhar nas redes sociais e prestigiar essa galera que tá na labuta diária!

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O primeiro evento de lançamento de Steampunk Ladies: Choque do Futuro acontecerá no próximo sábado (01/02), em Fortaleza, durante a Feira Livre de Quadrinhos, que nesta edição acontecerá no Centro Universitário Farias Brito (R. Castro Monte, 1364 - bairro Varjota). O evento começa ao meio dia e o painel de lançamento será às 14h. Terei o prazer de dividir o momento com a querida Brendda Maria e o incrível Paulo Moreira. Meu amigo Rildon Oliver fará a moderação. Conto com a presença dos amigos de Fortaleza!


Querendo compras meus quadrinhos? Vai no site da Editora Draco ou peça o seu na Amazon (e se já tem, não esqueça de avaliar):
Informações em tempo real lá no meu Instagram: instagram.com/zewellington
Receba textos como esse no seu e-mail assim que eles saírem! Cadastre-se na minha lista de e-mails: http://bit.ly/listadoze
Leia mais quadrinhos nacionais!

18 de nov. de 2019

Subversão londrina (Lista do Zé #26)



Está valendo! Já está à venda o meu novo quadrinho, Steampunk Ladies: Choque do futuro, nos links abaixo:
Agora é hora de falar um pouco mais sobre o quadrinho!

Subversão londrina

 Sue e Rabiosa unem-se às sufragistas na Inglaterra do século XIX para impedir que tecnologias avançadas sejam usadas contra o resto do mundo. É uma nova aventura das personagens que surgiram em Steampunk Ladies: Vingança a vapor (2015), o livro que me deu o Troféu HQMIX na categoria "Novo Talento Roteirista". Este volume tem desenhos de Sara Prado, Wilton Santos e Leonardo Pinheiro, cores de Ellis Carlos, Ale Starling e Thyago Brandão (com contribuição da Mariane Gusmão) e letras de Deyvison Manes. Tivemos a honra de contar ainda com prefácio da Lívia Stevaux (MinasNerds) e posfácio da Dana Guedes (escritora e entusiasta steampunk). A edição ficou a cargo novamente do sensacional time da Editora Draco. Este projeto é apoiado pela Secretaria Estadual da Cultura do Governo do Estado do Ceará - Lei nº 13.811, de 20 de agosto de 2006.

Originalmente, Steampunk Ladies: Choque do futuro deveria ter sido lançado no ano passado, mas tive que engatar uma marcha mais lenta na reta final dele para conseguir finalizar e lançar adequadamente Cangaço Overdrive. É uma continuação de Steampunk Ladies: Vingança a vapor. Tenho sentimentos bem variados este primeiro volume e cheguei a pensar em não continuar essa história, que comecei lá em 2015 (um pouco antes na verdade). Os detalhes vão ficar guardados nos cofres da memória, o que importa é que se trata de um quadrinho protagonizado por mulheres e bem próximo do lançamento de "Vingança a vapor" eu comecei a duvidar que tínhamos feito um trabalho que respeitasse esse conceito principal. Nem cheguei a fazer um lançamento propriamente dito do livro. Enfim, como eu acredito que só quem pode responder se fizemos ou não um trabalho adequado são as mulheres que leram o quadrinho, penso que na balança o saldo foi positivo, já que a maioria das respostas foi muito boa. O fato é que eu sentia que num segundo volume muitas coisas deveriam mudar.

Há uma mudança brusca no tom deste novo quadrinho em comparação ao anterior. Parte disso está relacionado com o deslocamento do cenário do Velho Oeste Americano para a Inglaterra Vitoriana, mas as coisas vão bem além disso. "Choque do futuro", de alguma forma, reflete as modificações pelas quais o país e este escritor que vos fala passaram nos últimos quatro anos. O principal antagonista da história luta principalmente contra uma mudança no status quo, o que permitiria que o time de protagonistas (agora mais do que duas!) participasse no mundo moderno que se forma no universo de Steampunk Ladies. Não sei se vocês vão curtir esta aventura, mas pelo menos sei que o coração dela está apontado na direção certa.

Pode ser uma experiência mais legal ler os volumes em sequência, mas adianto que não é necessário ler o primeiro volume para entender o segundo. Pode até ser interessante inverter a ordem das histórias, começando com este segundo e entendendo o primeiro volume como um prequel (se Star Wars pode ter várias formas de ver sua cronologia, eu também posso). De qualquer forma, quem quiser adquirir esta nova edição já pode clicar aqui e comprar no site da Editora Draco. Para quem estará na CCXP - Comic Con Experience, que acontece de 5 a 8 de dezembro em São Paulo, pode pegar diretamente comigo na MESA F08 da Artists' Alley.


 


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Por falar em CCXP, no evento estarei dividindo mesa com o ilustrador Jon Bosco (conheçam o incrível trabalho dele!). Além de Steampunk Ladies: Choque do futuro (que será lançada no evento), ainda vou estar com Cangaço Overdrive e mais um monte de coisinhas (prints com as capas dos meus quadrinhos, coletâneas que participei, cordéis etc.). Pra quem é de fora do Ceará, é uma oportunidade única de bater um papo comigo e conseguir uma dedicatória em um dos meus trabalhos.


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E se ano passado eu cheguei em SP direto para a CCXP, dessa vez eu consegui me organizar para estar por lá um pouco mais cedo. Um dos grandes motivos é o Draco Spirit Fest, aniversário de 10 anos da Editora Draco, minha casa editorial desde 2013. Vai ser uma celebração ao #dracospirit, com direito a show do meu conterrâneo Jonnata Doll, um dos grandes nomes da música indie brasileira atual. Vai ser no dia 30 de novembro (sábado), a partir das 17h, no Sebo Clepsidra (Loja 2).


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Outra novidade é que volto mais uma vez para uma oficina de férias no Estúdio Daniel Brandão (em Fortaleza). Dessa vez, o tema será "Narrativa da Escrita" e o objetivo é discutir temas referentes à criação de histórias nas mais diversas mídias (focando um pouquinho nas histórias em quadrinhos). A oficina é parte do programa "As Artes Narrativas", que ainda terá as oficinas "Narrativa do Desenho" (com Daniel Brandão) e "Narrativa das Cores" (com Juliana Rabelo). A minha oficina é logo na segunda semana de 2020 (6 a 10 de janeiro, para ser mais exato), o que é massa para quem vai colocar nas resoluções de ano novo escrever um livro ou produzir uma HQ. Você pode fazer uma oficina só ou fazer todas e aproveitar um desconto na inscrição. Inscrições e mais informações pelo e-mail estudiodanielbrandao@gmail.com ou pelo telefone (85) 3264.0051. As aulas serão presenciais na sede do estúdio, na Torre Empresarial Del Passeo (Av. Santos Dumont).



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