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18 de out. de 2021

Viver de escrever? (Lista do Zé #35)

 

Hoje eu me peguei pensando que uma boa forma de me conhecer como artista seria entrevistando minha esposa. Vez por outra me perguntam sobre minha rotina e sobre produtividade (uma FARSA que será tema de um do texto meu muito em breve) e conversando com ela nesses dias percebi que é impossível ter uma rotina bonitinha com a vida profissional a que me propus. Se um entrevistador chegasse para a dona Lara com a proposta de perguntar sobre o dia a dia do marido dela, ela provavelmente diria que fica tonta só pensar no meu cérebro organizando, o tempo todo, minhas pendências de trabalho. Na profissão de escritor no Brasil, escrever é só um um pedaço da coisa. Um pedaço BEM PEQUENO em vários momentos.

Rotina? Agora estou escrevendo esse texto para enviar para uma lista de e-mails, daqui a pouco estarei resolvendo uma pendência numa prestação de contas de edital, logo depois preciso conferir o que tenho de recebimentos pendentes e à noite... Bom, à noite eu vou dar aula na faculdade (meu plano A, porque não posso chamar de plano B o que paga a maior parte das minhas contas). "E você não escreve?". Sim, em algum momento eu vou escrever, durante um longo período de dias, alucinado e focado (e deixando todas as outras coisas atrasarem). Enquanto isso, vou matando a burocracia que há por trás disso.

Apostar na escrita como profissão não é para quem é obcecado por rotina ou estabilidade (essa última é outra mentirinha capitalista). Eu demorei para entender isso, mas, quando finalmente entendi, consegui lidar muito melhor com as expectativas e frustrações que vem embarcadas em produzir arte no Brasil. E é uma coisa que pode demorar. Só depois de uma década nessa indústria vital, eu consegui falar (sem ficar envergonhado) que trabalho com isso. Talvez porque na primeira década eu mais gastava do que ganhava grana escrevendo.

Além da burocracia, tem um pouco mais... Para muita gente, meu trabalho como escritor é escrever e lançar livros autorais (aqueles feitos de forma natural, com ideias minhas mesmo). Fica escondido debaixo do tapete um sem fim de "freelas" que dão mais sustentabilidade financeira. Enquanto este ano eu lançava apenas uma obra inédita e autoral (já comprou sua Luzia?), eu estava fazendo também dois quadrinhos institucionais (encomendas para empresas), escrevendo 92 páginas de um roteiro de HQ encomendado por uma editora e ainda desenvolvendo alguns roteiros para vídeos institucionais. E falando em grana, não podemos esquecer dos eventos, que (quando pagam) são uma das melhores fontes financeiras desse ramo.

Resumindo: é preciso deixar um pouco de lado o romantismo dessa profissão. Meus amigos que vivem apenas disso, até mesmo alguns que podem se chamar de bestsellers, têm que ralar MUITO com atividades paralelas à escrita para conseguir, de vez em quando, lançar aquele trabalho que realmente saiu do coração deles.

Eu falei sem romantismo? Tá, vou me permitir uma coisa breguinha e cafona no final deste texto. A resposta que muito escritor dá quando lhe perguntam se ele vive de escrever, você já deve ter ouvido, é que eles ESCREVEM PARA VIVER. E é bem isso mesmo. A melhor forma de encarar essa atividade é entendendo que você faz porque precisa e, no decorrer do processo, vai botar para fora o que acha que precisa botar. Para mim, hoje, isso é um grande privilégio.


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2 de mai. de 2021

A bíblia de Luzia (Lista do Zé #34)

 

São muitas etapas para construir uma história... E hoje eu revelar uma das que eu mais gosto de fazer, que é escrever a "bíblia do projeto". Vem comigo?

Mas antes é importante dizer que meu mais novo trabalho, Luzia, já está disponível para venda!

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Sempre quando vou criar uma nova história, costumo fazer uma imersão no universo dos temas referentes a ela. Com Luzia não seria diferente. Dessa imersão surge, normalmente, um documento que norteia a construção do livro, que no roteiro para audiovisual chamam de “bíblia da história”. Pois bem, apresento a vocês a “Bíblia de Luzia”, escrita de mim para a desenhista Débora Santos, na intenção de complementar o roteiro que fiz para ela.
 
Essa é uma versão resumida. A original tem 20 páginas e bom... acho que seria um pouco demais para um texto no blog. Mantive aqui o que escrevi sobre o conceito geral da história e uma análise sobre as duas principais personagens (fiz para outros três personagens). Há spoilers, mas os coloquei em fundo preto (para ler, basta selecionar o texto ou copiar e colar no bloco de notas, mas recomendo só ler esses trechos depois que você ler a HQ ou o livro original). Antecipadamente peço perdão por não citar os autores originais de todos os textos que li na fase de pesquisa... Não costumo divulgar essa fase da minha criação, então não tive essa preocupação de anotar os nomes quando estava fazendo este documento. Se na época que montei esse material eu tivesse pensado que iria mostrar isso para outras pessoas, teria tomado o cuidado de anotar todas as referências. Enfim, meu principal objetivo aqui é mostrar para você um pouquinho dos bastidores do trabalho.


 

Conceito geral

Há uma passagem de Lúcia Miguel Pereira que tenta classificar Luzia-Homem como obra:

“Realista na forma, sem os tiques dos nossos naturalistas, talvez simbólico na concepção, sem ser simbolista, regionalista pelo tema, sem colocar o elemento local acima do humano, todas essas tendências ao mesmo passo se completando e se abrandando umas pelas outras, é difícil classificar este livro.”
 
Quando pensei pela primeira vez em Luzia-Homem desenhada como uma história em quadrinhos, comecei a refletir sobre como seria o estilo do desenho. O caminho mais óbvio que me vinha à mente era tentar entender o movimento literário ao qual ela fazia parte e buscar referências das artes visuais do mesmo movimento. O lugar onde LH é mais colocada na história literária é como obra naturalista-regionalista, com características realistas. No entanto, há uma certa polêmica quanto à essa classificação. O que se fala é que ela foi classificada assim obedecendo apenas a data de publicação. Mas, num dos trabalhos mais legais que li sobre LH (A pictórica em Luzia-Homem, do prof. José Leite de Oliveira Júnior), o autor defende que a obra seja classificada como impressionista.
 
Dei uma estudadinha sobre o impressionismo e achei muitas coisas legais, começando pelo conceito de que uma obra é uma impressão do momento, sintetizada na frase: quando você entra num rio pela segunda vez, ele já não é o mesmo que você conheceu na primeira (alguém importante disse isso, mas não anotei a referência). Visualmente, os principais pintores impressionistas são Monet, Manet, Renoir… Eu não acho que a gente deva levar esse estilo para o quadrinho (a não ser que você encontre uma forma confortável), mas achei interessante fazer esse preâmbulo, que de repente pode te inspirar de alguma forma.
 
Fora isso, quero manter algumas características do naturalismo, que tem uma visão mais crua da vida, especialmente quando falarmos da pobreza na história. Foi a pior seca que o nordeste já passou (1877-78-79), morriam 25.000 por ano no Ceará em decorrência dela (pra você ter uma ideia, Fortaleza tinha 30.000 habitantes na época). Os retirantes são um fenômeno maluco e que deixou malucos os governantes da época, chegando a haver campos de concentração para conter os pobres. Domingos Olímpio lança um olhar muitas vezes bem preconceituoso sobre essa massa de pessoas e ainda tem uma visão bem defensora do poder público. Percebe no romance original que ele não para de dizer como a Comissão de Socorros cuida dos pobres com sua esmola (que na verdade é um pagamento por um trabalho quase em condições de escravidão) ou que o julgamento do delegado e do promotor é justo? Domingos Olímpio era promotor público nessa época, então… De qualquer forma, quero aplicar uma visão mais real: vamos contar esse romance, mas, onde nos for possível, vamos também denunciar os descasos, respeitando (até onde for possível) a linha da história.
 
Voltando ao estilo, me veio a ideia maluca de trabalhar os cenários (quase sempre desérticos) a luz do impressionismo (com seus contornos difusos e pinceladas irregulares), mas quando aproximarmos dos personagens aplicarmos o naturalismo (evidenciando as rugas, ferimento, suor e sangue desse período complexo). Esse papo de movimento artístico me deu vontade de buscar algumas obras de artes (não só do impressionismo) para inspirar alguns quadros. Enfim, é só uma sugestão, beleza?

“Aquilo que não é ligeiramente disforme, parece insensível: disso decorre que a irregularidade, ou seja, o inesperado, a surpresa, o espanto são uma parte essencial e característica da beleza”.
Baudelaire, pintor impressionista
 
Filósofo em Meditação, Rembrandt - Luzia
Filósofo em Meditação, Rembrandt / Luzia

 

 Acho importante comentar com você alguns elementos relevantes nesta narrativa:

  • Luz - o nome de Luzia deriva de luz. O sol é parte importante da trama também.
  • Olhos - Santa Luzia é a padroeira da visão e tem em sua história uma relação com os olhos (eles são arrancados dela e servidos numa bandeja). Além disso, Luzia arranca o olho de Crapiúna no final do livro.
  • Cabelos - parte central do interesse por Luzia pelos homens. Ela constantemente os penteia, ela chega a os oferecer para conseguir dinheiro. Eles estão em destaque no final da história.
  • Cravo - a flor que Luzia recebe de Alexandre é também uma peça central, que inclusive marca o desenvolvimento da relação entre eles: 1) Luzia ganha os cravos; 2) Luzia devolve os cravos; 3) Alexandre traz os cravos de volta; 4) os cravos são trespassados pela faca de Crapíúna.
  • Julgamento - Domingos Olímpio era promotor, então a questão da justiça permeia toda a obra, seja diretamente (há um roubo e há intensa participação do delegado e do promotor para darem um final justo ao caso), bem como indiretamente (Luzia se sente sempre julgada pelos olhares dos outros).
  • Luzia-Homem como mito fundador de Sobral - é inegável a relação da personagem com a cidade. Entrevistei uma escritora sobralense [Carmélia Aragão, que acabou fazendo o posfácio da HQ] e ela me contou uma história de uma pessoa que ela conhecia ter relatado que sua avó tinha conhecido Luzia. Sabendo que se tratava de uma personagem fictícia, a escritora pediu para conhecer a avó da pessoa. Quando chegou lá, a tal mulher tirou um livro da estante e disse que contava a história para os filhos, ela mesma acreditando ter acontecido (é tipo a versão antiga de “se tá na internet é verdade”). E é isso. Aqui em Sobral várias pessoas pensam não se tratar de ficção. E vejo no texto do Domingos Olímpio (já sob influência do Realismo) um interesse em mostrar a cidade e seus personagens (muitos deles realmente estiveram aqui) buscando tornar tudo real. Uma questão que encontrei em outros artigos científicos sobre o livro foi: estaria o escritor tentando criar seu “Rômulo e Remo sobralense”? Essa linha tênue entre realidade e ficção (e a ligação com a cidade) é um elemento massa de explorar (de alguma forma foi uma das coisas que me fez querer adaptar o livro). Pensei em usar Raulino para conduzir isso, utilizando seus causos de uma forma diferente da história, quase como devaneios.
 
Vale falar um pouco sobre as personagens centrais.

Luzia


“A extraordinária mulher, que tanto impressionara o francês Paul, encobria os músculos de aço sob as formas esbeltas e graciosas das morenas moças do sertão. Trazia a cabeça sempre velada por um manto de algodãozinho, cujas curelas prendia aos alvos dentes, como se, por um requinte de casquilhice, cuidasse com meticuloso interesse de preservar o rosto dos raios do sol e da poeira corrosiva, a evolar em nuvens espessas do solo adusto, donde ao tênue borrifo de chuvas fecundantes, surgiam, por encanto, alfombras de relva virente e flores odorosas. Pouco expansiva, sempre em tímido recato, vivia só, afastada dos grupos de consortes de infortúnio, e quase não conversava com as companheiras de trabalho.” (Luzia-Homem, Domingos Olímpio)
 
Como trabalhar uma personagem que é chamada de “Luzia-Homem” e é identificada pelo autor como extremamente masculina durante boa parte da trama, mas ao mesmo tempo desperta interesse sexual não só em dois homens heterossexuais, mas em outros pela trama? É uma parada muito curiosa para uma obra de 1903 e deixa a história muito contemporânea. De qualquer forma, penso Luzia como uma típica cabocla cearense, com uma etnia próxima à indígena. Uma pista que me leva para esse caminho é sua origem no município de Ipu, berço dos Tabajaras, grupo do qual inclusive fazia parte Iracema, de José de Alencar (seria Luzia descendente da índia mais famosa da literatura cearense?). Pelas descrições de Domingos Olímpio, acho que seria errôneo trazer em seu corpo apenas características de etnias indígenas. Penso nela como uma misturinha mesmo, como são os sobralenses.
 
Há quem veja uma certa descoberta da feminilidade de Luzia no decorrer da história (me ajude com isso [apelo direcionado à Debora]). Gostaria de encobri-la mais no início e desnudá-la no decorrer da trama (nos sentidos físico e psicológico). Há alguns contrastes interessantes na narrativa para mostrar o cenário nessa evolução, afinal as primeiras descrições são quentes, no esforço da construção da penitenciária, até o findar da história, no meio à sempre verde e fértil Serra da Meruoca (que em um texto satírico sobre Sobral foi descrita como os alpes sobralenses).

“dura, indomável, aparentemente incapaz de verdejar em mostras de felicidade. Caem as primeiras chuvas: e a terra se cobre de riquezas. Vence Luzia os recalques de sua natureza sertaneja, ama; ei-la a revelar seus sentimentos femininos, puros, naturais”
Miécio Tati
 

Teresinha


“loura, delgada e grácil, de olhar petulante e irônico, toda ela requebrada em movimentos suaves de gata amorosa”
(Luzia-Homem, Domingos Olímpio)


Teresinha se enxerga como um final possível para Luzia, como um aviso de como as coisas serão se algo der errado. É assim que ela se apresenta, tentando impedir que a protagonista “chegue aonde ela chegou”. É uma síntese da mulher durante o período da história, embora ela exerça muito sua própria vontade, fugindo da família, por exemplo. Essas marcas de vida estão no seu corpo, que é como ela justifica sua magreza, suas sardas e seus “peitos murchos”. É DE LONGE minha personagem favorita na história.
 
Ah, e como eu poderia esquecer essa análise apurada da relação Luzia-Teresinha, que eu tentarei fazer guiar meu texto:

“A impressão que tive, até agora, é como se a Luzia fosse a dimensão da mulher pura, imaculada, inocente (por isso tão forte e destemida) e a Teresinha fosse a dimensão mundana, da experiência, de conhecer como as pessoas realmente são (as coisas que ela passou antes de chegar lá e ela ter tido a iniciativa de investigar e buscar uma solução pro caso do Alexandre, sem informar tudo à Luzia, como se ela fosse a responsável pelo trabalho sujo). Elas são a mulher idealizada e a mulher mundana, porém boa de coração, porque sua alma foi lavada pelo sofrimento que viveu. Vítima das circunstâncias, Teresinha pode sujar as mãos para poupar a Luzia do trabalho sujo. É quase que uma guardiã, uma mãe também, que reconhece a inocência dela e se apropria da tarefa de proteger e cuidar da Luzia. Essa coisa que a gente tem na nossa cultura nordestina mesmo da mulher servindo sempre alguém: a filha que cuida da mãe, a mulher que cuida de outra mulher, que cuida do homem amado, a gente vê tudo isso lá. E eu vejo isso muito presente nas mulheres da minha família também.”
(Débora Santos, estudiosa da amizade das mulheres, pelo WhatsApp)
 
 
Primeiros estudos de Teresinha, por Débora Santos

 
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Enfim, isso é só um pouquinho dessa etapa do trabalho.
 
Convido você a conhecer Luzia comprando no link abaixo:
 

E a pergunta importante agora é: já leu Luzia? Ajuda MUITO se você divulgar em suas redes sociais ou deixar uma avaliação para o livro no Goodreads ou no Skoob. É só clicar nos links aí atrás para ir para a página do livro.

É sempre bom lembrar que o que eu penso eu registro no meu Instagram e no meu Twitter.

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17 de jan. de 2021

Como começar uma história (Lista do Zé#33)

 

Eu acho que estava dentro de um ônibus quando uma história começou a nascer. Eu olhava para as margens semiáridas da estrada que partia ou chegava em Sobral, minha cidade, quando comecei a sonhar com uma história de… samurais. Era a história de um assassino aposentado. Agora ele era mendigo nas ruas de uma grande metrópole e, depois de receber a visita de um repórter, se viu obrigado a voltar à ativa contra a organização que o ensinou sobre a arte de matar. A história veio assim, quase toda, incluindo algumas boas ideias para um final (algo que acontece raramente). Estava com outros mil projetos na época, então anotei a ideia em vários pedacinhos de papel e pendurei num flanelógrafo no meu escritório. Quanto tempo essa ideia passou lá? Vou chutar aqui que uns cinco anos.

Essa introdução toda é apenas para iniciar uma conversa sobre um assunto que interliga várias perguntas comuns ao escritor iniciante: a) de onde vêm as ideias para as histórias ou b) como ter ideias para histórias ou c) por onde começar uma história. A resposta para essas perguntas é muito imprecisa, mas tem alguns caminhos mais comuns.


A maior parte das minhas ideias surge quando estou lendo um livro ou quadrinho ou assistindo um filme ou série. Quase sempre é um “e se...?”, uma variação daquilo que estou vendo. Eu nunca consigo desligar meu cérebro de escritor, nem mesmo quando estou com o material de outro artista. Isso significa que eu fico tipo público de show de mágica, tentando descobrir o segredo do truque daquilo que estou lendo/vendo. O truque, no caso, é descobrir a) como estão conseguindo me manter interessado naquela obra e b) como aquilo vai acabar. O item “b” é sempre muito interessante para gerar novas ideias… Às vezes eu tento adivinhar o final da história e falho miseravelmente. Aí eu olho para aquele final que eu pensei e, se eu achar ele melhor do que o que eu acabei de ver, provavelmente eu vou guardar aquela ideia de tentar “recontar” aquela história.

“Mas, Zé, isso não é plágio?”. Em alguns casos, pode ser. Então, CUIDADO. Eu poderia aqui indicar (e indico fortemente) que você veja o documentário Everything’s a remix, que explica que, no fim das contas, toda criação deriva de uma mistura de várias coisas que vieram antes, mas, antes, prefiro dizer que respeito muito as criações de outros colegas. Quando a vontade de recontar uma história vem, ela tem de vir junto com soluções que diferenciem a minha história daquela que deu origem a ela. Uma coisa que sempre me deixa muito tranquilo é que uma ideia minha passa por MUITOS tratamentos (uma forma de chamar as revisões e reconstruções da história, enquanto ela ainda está sendo criada). São tantas idas e vindas, que é muito provável que qualquer coisa que assemelhe a minha história a outra que a inspirou vire um sopro no produto final. Construir uma história inspirada em outras é o caminho mais comum do escritor iniciante, que muitas vezes quer fazer seu próprio Cavaleiros do Zodíaco, X-Men, Senhor dos Anéis ou Star Wars. O grande desafio é encontrar a forma de se inspirar sem ser um genérico. Às vezes a gente só precisa olhar um pouco ao redor.

Ideias podem vir também da simples observação do mundo. Já dizia o poeta Jessier Quirino que escritores são “prestadores de atenção”. Uma situação que você observou ou, MELHOR AINDA, que aconteceu com você, pode ser o pontapé inicial para uma história. Uma coisa que aprendi é que as melhores histórias que já contei são aquelas que advém de coisas que mexeram comigo. É muito provável que falar sobre algo que incomoda você faça muitas outras pessoas se identificarem com a sua história. Lembro de ouvir um podcast com o escritor e quadrinista Lourenço Mutarelli falando sobre seu método criativo, que constava em sentar numa praça, observar as pessoas e tentar imaginar o que elas estavam passando naquele momento. Em Steampunk Ladies: Choque do futuro, há uma sequência onde dois garotos fazem pouco de uma garota quando ela os convida para brincar de boneca. Essa cena é inspirada numa situação vivida por mim, quando flagrei um garoto fazendo pouco da minha filha numa situação parecida. Quem já leu a HQ sabe que a garotinha dá a volta por cima. É assim que escritores se vingam da vida real: escrevendo histórias.

Corta agora para o final de 2020: surge um edital da Lei Aldir Blanc na minha cidade (já falei sobre editais aqui). Foram várias seleções de projetos pelo Brasil nessa lei e a principal característica de todos era um prazo apertadíssimo. Mas que história eu inscreveria naquele edital, tendo ela que ser inédita e precisando estar pronta em menos de dois meses? Olhei para o flanelógrafo e vi os papeizinhos recortados da ideia que tive na estrada. Parecia boa, mas ainda me incomodava, porque parecia demais com outras histórias que já vi por aí. Para não cair no risco de copiar algo involuntariamente, eu precisava adicionar alguns elementos em busca de alguma originalidade. Foi aí que meu senso de prestador de atenção entrou em ação.

Na minha adolescência, a chegada de um garoto novo na escola causou estardalhaço por conta de um boato que correu pelos corredores: ele seria sobrinho de um famoso pistoleiro do estado. Se aquilo era verdade ou não, eu nunca vou saber. O fato é que essa história voltou na minha cabeça quando peguei aqueles papeizinhos, me fazendo transformar toda a ideia, começando por uma mudança de cenário para o Ceará. Claro que essa mudança também vem do meu atual movimento de escrever mais sobre coisas que estão ao meu redor. E assim nasceu Mata-mata: uma história sobre pessoas que vivem para matar outras (uma ideia construída em cima de outras), mas também uma história sobre família e legado (uma vivência).

Tudo isso começou com samurais, dá para acreditar? Engraçado que, relendo a história, comecei a entender melhor o porquê da arma da última morte, algo que rolou inconscientemente, eu juro...

De onde vem as inspirações para suas histórias?

 

Baixe Mata-mata gratuitamente clicando na imagem abaixo:

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29 de nov. de 2020

Meus próximos lançamentos, em primeira mão (Lista do Zé #32)


Olá, olá!

É hora de revelar mais detalhes dos meus DOIS próximos lançamentos! E o melhor: por conta da CCXP Worlds, você já pode garantir suas cópias em pré-venda com condições especialíssimas.

Meu próximo quadrinho, Luzia, citado num e-mail anterior desta lista, já pode ser adquirido por apenas R$ 29,90 (frete incluso). Estamos nas etapas finais da HQ, então a previsão de envio é de até fevereiro de 2021. Mas, nesse exato momento, nós e a editora estamos dando o gás para que o livro esteja na sua casa antes disso. O fato é que só agora você terá o menor preço com frete incluso, então aproveite por que esta oferta só é válida até o dia 6 de dezembro. Garanta a sua aqui!

E tem lançamento surpresa: volto à literatura com a noveleta policial Mata-mata. E para você que está lendo este e-mail, é daquele jeito que eu sei que você adora: GRATUITO. Lançado (por enquanto) apenas em formato digital, este livrinho é um projeto transmídia que contará ainda com ilustrações, trilha sonora e até um áudio drama. O lançamento oficial será no dia 27 de dezembro e você pode garantir o seu agora sem nenhum custo. Você faz a "compra" na minha loja e no dia do lançamento o livro será enviado para o seu e-mail. Garanta o seu aqui!

Para saber mais sobre os lançamentos, role o e-mail um pouquinho para baixo. Falo também da minha participação na CCXP Worlds neste mesmo texto, incluindo uma intensa programação de eventos ao vivo, com palestras e bate-papos. Te espero lá!

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A Grande Seca, como foi conhecido um grande período de estiagem ocorrido no Nordeste de 1877 a 1879, foi o mais devastador fenômeno de seca da história do Brasil, e pode ter sido responsável pela morte de até meio milhão de pessoas. Em meio a uma multidão de retirantes no sertão de Sobral, cidade do interior do Ceará, Luzia sonha com uma vida melhor, enquanto lida com a doença da mãe e o assédio de um soldado. Por ter músculos fortes, força incomparável e características masculinizadas, ela ganha a alcunha de "Luzia-Homem". Mesmo neste clima desfavorável, a retirante vê florescer uma nova amizade e também um grande amor.

Adaptado para o cinema e para o teatro, Luzia-Homem é um clássico absoluto da literatura brasileira. Publicado pelo escritor cearense Domingos Olímpio no ano de 1903, descreve as agruras do sertanejo num dos períodos mais difíceis da história do Ceará, enquanto trata de temas como assédio e violência de gênero. Luzia é uma adaptação inédita do romance para os quadrinhos e tem roteiro de Zé Wellington (Cangaço Overdrive, Steampunk Ladies) e desenhos de Débora Santos (Gringo Love, Pombos). Este projeto é apoiado pela Lei Estadual de Incentivo à Cultura - Nº 13.811, de 16 de agosto de 2006.

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Lançamento oficial em 27 de dezembro
Garanta sua cópia digital gratuita


Durante os anos 1980 e 1990, o Ceará e boa parte do Nordeste viveram um período caótico, no auge dos tempos de pistolagem. Políticos guerrearam muito além do campo das palavras, utilizando pistoleiros para executar adversários. Esses controversos matadores ganharam fama no período e eram temidos principalmente nas pequenas cidades. Já nos dias atuais, quando este período parecia ter ficado para trás, um assistente social se envolve no último serviço de um pistoleiro aposentado.

Mata-mata é uma noveleta de Zé Wellington, escritor e roteirista de histórias em quadrinhos como Cangaço Overdrive (semifinalista do Prêmio Jabuti) e Steampunk Ladies (vencedora do Troféu HQMIX). Esse projeto é financiado pela Chamada Pública 003/2020-SECJEL com fundamento na Lei Federal 14.017/2020, Lei Aldir Blanc de Emergência Cultural.

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Na impossibilidade de realizar um evento presencial, a CCXP este ano segue para uma inovadora versão online. É só zapear pelo site oficial do evento pra ver que eles não estão de brincadeira. Além de uma incrível lista de convidados que inclui Neil Gaiman e Art Spiegelman, o evento vai oferecer uma experiência que foge do formato de conferências online que se popularizou durante a pandemia. Além disso, está garantido o espaço dos artistas, renomeado nesta versão para Artists' Valley. Uma boa parte do evento poderá ser acessado gratuitamente. Garanta seu acesso ao evento aqui.

Este aqui é o link do meu perfil na Artists' Valley da CCXP Worlds!

Por enquanto meu perfil tem apenas um preview das minhas HQs. Mas durante os dias do evento (04 a 06/12/20), você terá acesso a uma loja com meus produtos com preços muitos especiais e poderá interagir comigo e outros convidados em vários horários através de eventos online, que poderão ser assistidos através da plataforma da CCXP ou pelo Youtube. Na falta do contato pessoal com os leitores no evento, através do meu canal do Youtube (inscreva-se aqui) e também de outros colegas, vamos poder conversar sobre diversos assuntos em transmissões ao vivo. Confira os dias e horários abaixo:

04/12 (sexta-feira)


05/12 (sábado)
06/12 (domingo)

 

 

 

28 de set. de 2020

Vivo e ao vivo (Lista do Zé #31)


 

Como estão vocês? Por aqui seguimos bem. As coisas andam meio diferentes nos últimos meses (mas acho que vocês já perceberam) e, se em algum momento todo o contexto que a gente vive hoje pareceu uma espécie de pausa até que as coisas voltassem ao normal, essa sensação foi para as cucuias e o mundo engatou as marchas seguintes. Ainda que todo o mecanismo da coisa tenha mudado.

Eu acho que já falei aqui em algum momento que ano passado eu tive um ano bem montanha-russa, com um vale profundíssimo no primeiro semestre e uma subida rumo ao Everest no segundo. 2020 começava promissor e me preparei para tal: comprei material para expor os livros, reforcei meu estoque, agendei uma série de eventos e me livrei de alguns compromissos profissionais para abrir espaço para a escrita. Quando a pandemia começou ficou aquela sensação de que tudo isso era apenas um "break", vamos deixar as ideias guardadas para daqui a pouco. Mas depois de seis meses, sem a mínima condição de um planejamento a longo prazo, você começa a perceber que esperar não é uma boa estratégia. Com ou sem vacina, as coisas mudaram de verdade. Elas podem até vir a ser como antes em algum momento, mas está mais do que claro que isso pode demorar. Então é hora de ajustar o itinerário: entender o que é possível agora, respeitar suas próprias limitações e seguir numa nova direção.

Para um cara que tenta lidar diariamente com suas crises de ansiedade, planejar com incerteza não é lá muito fácil. Mas, no geral, até que as coisas têm funcionado bem. Ainda que tenha vivido um ou outro período explosivo, a vida seguiu nesse ano e muitos projetos voltaram a andar. Eu não penso mais no depois, já que não dá pra saber se e quando será.

Bom, isso é um desabafo (que pode, sei lá, servir para alguém), mas também uma justificativa, talvez longa demais, para um hiato aqui na lista. Esse final de ano, como a maioria dos finais de ano na minha vida, vai ser intenso, com a maratona para finalizar minha próxima HQ, a adaptação para quadrinhos do romance Luzia-Homem, enquanto vários outros projetos foram ajustados e outros criados para este novo momento. Então vou dando sinal de vida quando possível. Boas notícias virão muito em breve.

Espero.

Para receber textos como esse no seu e-mail, inscreva-se na minha lista: bit.ly/listadoze

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Talvez alguém aqui se interesse em saber que consegui finalmente fazer uma lojinha razoável no meu site oficial. Todas as minhas HQs estão lá, promocionalmente e por tempo limitado com frete grátis para todo Brasil. Como sai direto da minha casa, pode ir com dedicatória e sempre vai com brindes.

Os destaques são o retorno de Quem Matou João Ninguém? (meu primeiro álbum, de 2014) e os combos com precinhos especiais.

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Amanhã estarei no Festival Nordestino de Economia Criativa. Meu irmão baiano Hugo Canuto e minha comparsa na dominação mundial dos quadrinhos nordestinos Thaïs Kisuki vão estar comigo num papo sobre fazer quadrinhos no nordeste, no dia 29 de setembro (terça-feira), a partir das 16h. O evento vai rolar dentro da programação do Festival Nordestino de Economia Criativa, uma realização dos Sebrae, que começa hoje. É tudo GRATUITO, basta se inscrever no site e o link pro evento vai chegar no seu e-mail: www.festivaleconomiacriativa.com.br

Vale a pena conhecer o restante da programação, que tem Patativa do Assaré, Movimento Armorial, cinema, games e mais um montão de coisas relacionadas com o fazer cultura do Nordeste.

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Acho que vale a pena falar do montão de eventos que eu participei do meu último e-mail para cá, né? Todos disponíveis para serem assistidos/ouvidos.

  • Cangaço Overdrive foi tema do podcast Imaginários. Em episódio do podcast da Editora Draco, os editores Raphael Fernandes e Erick Sama receberam a mim e ao escritor Fábio Fernandes para conversar sobre meu quadrinho semifinalista do Prêmio Jabuti. Escute aqui.
  • Ainda sobre cyberpunk, rolou um debate sobre distopias nos quadrinhos nacionais. O papo aconteceu durante Painel Aberto de Quadrinhos, um evento da Com-Arte Jr., empresa júnior do curso de Editoração da ECA-USP. Além de mim, estiveram presentes o Gabriel Jardim, a Kione Ayo e o Isaac Santos. Assista aqui.
  • Rolou uma conversa pra lá de íntima sobre minha relação com quadrinhos. Foi no canal do Youtube do Estúdio Daniel Brandão. Conduzido pelo próprio Daniel, que antes de qualquer coisa é um amigo muito próximo, falei como nunca antes sobre minha carreira. Assista aqui.
  • Terror, regionalismo e quadrinhos no sertão, num bate-papo no Youtube. Conversei com o amigo e também escritor Márcio Benjamin, como parte da programação do Sesc ConVida. Assista aqui.
  • Teve também podcast sobre o fazer quadrinhos do Nordeste. Ainda como parte da programação do Sesc ConVida, participei de um podcast com outros quadrinistas nordestinos. Escute aqui.
  • Falei sobre criar histórias no sertão e no Ceará no Youtube. Na plataforma do Cultura Dendicasa, da Secretaria da Cultura do Ceará, saiu a minha participação no projeto num vídeo sobre a minha experiência escrevendo Cangaço Overdrive e os muitos aprendizados do processo. No final, indico vários quadrinhos de autores cearenses. Assista aqui.

 

Sigam minhas redes sociais, especialmente meu Instagram, para ficarem por dentro dos próximos eventos. Se precisarem entrar em contato, respondam este e-mail.

Se cuidem por aí.

17 de jun. de 2020

Turnê Virtual de Lançamento de Steampunk Ladies: Choque do Futuro


Em dezembro de 2019 lançamos Steampunk Ladies: Choque do Futuro. Depois de um péssimo primeiro semestre na minha vida profissional, era um jeito massa de encerrar um dos anos mais emblemáticos da minha vida. Um dos grandes aprendizados do ano passado para mim foi que TALVEZ essa coisa de escrever possa dar certo profissionalmente. Mas boa parte dessa possibilidade residia nos EVENTOS. Se 2020 fosse um pouquinho melhor do que seu antecessor (que foi espetacular nesse quesito no segundo semestre) eu ia conseguir dar passos concisos nos meus objetivos com a arte.

Mas aí veio a pandemia.

Sem a possibilidade dos encontros presenciais, lançar uma história em quadrinhos virou um desafio. Toda uma articulação que eu havia construído pra fazer lançamentos do quadrinho novo pelo nordeste foi pro ralo. Pra completar mais uma vez na minha vida eu me vi às voltas com ela... a pilha de quadrinhos no guarda-roupa. Faziam anos que eu não acumulava livros meus aqui, por conta da boa saída que eles vinham tendo em eventos. Algo tinha de ser feito.

Num exercício de coragem e paciência, comecei a enviar mensagens para comics shops e livrarias pelo Brasil para montar uma alternativa. E a resposta foi muito positiva.

Assim, começando amanhã até o dia 3 de julho, acontecerá a Turnê Virtual de Lançamento de Steampunk Ladies: Choque do Futuro. Uma nova forma de distribuição, que monetiza também as lojas, foi pensada pra esses eventos. Respeitando as recomendações das organizações de saúde, os eventos digitais acontecerão em forma de transmissões ao vivo no Instagram das lojas, com minha participação e de outros colaboradores da HQ. Os quadrinhos nem vão chegar a ir para as comic shops, pra agilizar e baratear o processo eles vão sair daqui de casa, com autógrafo, dedicatória e brindes exclusivos (tudo que o leitor teria direito num evento presencial), direto para a casa dos compradores. A compra vai ser feita pelas lojas virtuais das comic shops e livrarias envolvidas. Inicialmente, a turnê “passará” pelas cidades de Fortaleza, Teresina, São Paulo e Curitiba.

É uma experiência. Vamos ver o que aprenderemos com isso.

O calendário de lançamentos ficou assim:

    18/06 - 18h30: Comic Boom! (São Paulo) - no perfil @comic_boom_
    23/06 - 17h: Quinta Capa (Teresina) - no perfil @quintacapalivraria
    26/06 - 20h30: Reboot (Fortaleza) - no perfil @rebootcomicstore
    29/06 - 17h: Arte e Letra (Curitiba) - no perfil @arteeletra
    01/07 - 16h: Itiban (Curitiba) - no perfil @itibancomicshop
    03/07 - 19h: Excelsior (São Paulo) - no perfil @excelsior_comic_shop

São vários papos e várias oportunidades de falar sobre a HQ e outros assuntos. É só chegar no perfil da loja no Instagram no dia e horário marcado. Por sinal SIGAM OS PERFIS das lojas, que estão passando por um momento tão complicado quanto eu. A essas lojas, fica o meu agradecimento pela confiança.

Posso contar com a sua presença?


21 de abr. de 2020

Prometeu inconfidente (conto) (Lista do Zé #30)



Olá, olá!

Que tal um conto hoje?

Era 2011 ou 2012, quando apareceu na Internet uma chamada para uma antologia da Editora Estronho com contos que misturassem os acontecimentos da Inconfidência Mineira com ficção científica ou fantasia (que hoje está disponível para venda aqui). Naquela época, como forma de treinar a escrita, eu tentava participar de todas antologias desse tipo abertas. E foi assim, com um tempo apertadíssimo, que escrevi o conto que vocês poderão ler logo abaixo, um encontro desse momento da história brasileira, lembrado nesse feriado nacional de hoje, com as ideias imortalizadas pela escritora Mary Shelley na sua obra-prima, Frankenstein ou o Prometeu Moderno, um dos meus livros favoritos.

Curiosidades sobre este conto
1. A cabeça de Tiradentes desapareceu mesmo.
2. Os textos extras que aparecem no início e no fim do conto só foram colocados para que ele alcançasse o número mínimo de caracteres exigido na seleção (você pode até ignorar se quiser, embora eu ache hoje que eles dão um certo charme).
3. Fiquei com uma vontade danada de revisar e reescrever o conto... Mas qual seria a graça, né? Melhor mostrar pra vocês essa foto da minha produção de dez anos atrás. Reli e ainda gosto da maior parte dele.

Receba textos como esse no seu e-mail. Inscreva-se na minha lista: bit.ly/listadoze


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Prometeu inconfidente
Por Zé Wellington
 
“Quereis, minhas senhoras, que vos conte uma história para disfarçar o enfado destas longas e frigidíssimas noites de maio? Mas, por melhor que seja a minha vontade, não sei como possa satisfazer ao vosso pedido... digo mal, – cumprir as vossas ordens. Este frio enregela-me as asas da imaginação; este vento glacial, que uiva pelos telhados, como uma matilha de cães danados, estes guinchos de corujas, que parecem lamentos de precitos, fazem a inspiração recolher-se toda encolhida aos mais íntimos esconderijos do crânio, tiritando de frio e de medo. A falar-vos verdade, minhas senhoras, tenho o espírito tão seco e estéril, como a caveira de um defunto enterrado há cem anos. Ah! falei-vos em caveira!... E não é que esta ideia de caveira veio despertar-me a reminiscência entorpecida pelo frio?! Foi como a vara mágica de Moisés, que fez rebentar água em jorros da aridez do rochedo do deserto. E, pois, vou contar-vos a história de uma caveira memorável. Não se arrepiem, minhas senhoras; não é história de almas do outro mundo, de trasgos, nem de duendes. É uma simples tradição nacional, ainda bem recente, e da nossa própria terra. Essa história eu a poderia intitular: História de uma Cabeça Histórica.”
A cabeça do Tiradentes, Bernardo Guimarães
 
 
I
Certamente a maioria das pessoas odeia ir ao dentista. Eliseu até que gostava: era uma das poucas situações em que o menino não precisava falar com quem estava com ele. Com aquele monte de ferramentas na boca, a sagrada obrigação de ser uma criatura social pertencia ao doutor.

– Com anestesia ou sem anestesia, Eliseu?

– Qual é o que dói menos? – disse o garoto com dificuldade, cuspindo na bata do médico.

– Possivelmente as duas doem do mesmo jeito...

Eliseu arregalou os olhos e antes que pudesse responder, o dentista puxou rapidamente o alicate da boca do garoto. Sangue espirrou para todos os lados, especialmente sobre o rosto do menino, que nem teve tempo de sentir dor. Delicadamente aquele doutor limpou o rosto de Eliseu, seu sorriso acalmando a perda do dente.

– Não é interessante, garoto, o funcionamento do corpo? Todo o fluido que corre nas nossas veias... O delicado fluxo do indivíduo? – disse o dentista.
Com a mão na boca, recuperando-se do trauma, Eliseu não conseguiu responder. O doutor riu e mudou de assunto, talvez pensando que o garoto pudesse não ter compreendido.

– É o meu último dia aqui, e você me dá sangue de presente, Eliseu... Vou demorar horas limpando este consultório.

– Você vai embora, doutor Joaquim? – Eliseu já se recuperava.

– Já chega deste lugar. Em tempos como estes a carreira militar é o melhor para um rapaz pobretão como eu. Seguirei patrulhando pelo Caminho Novo.

– Ser soldado deve ser emocionante... – disse Eliseu, levantando-se da cadeira.

– Tire essa ideia da cabeça, menino. Você é rico. Já deve ter uma cadeira na Universidade de Coimbra com seu nome. Você vai ser alguém na vida, não vai ser esquecido assim que morrer. Parece que quando falam de mim só dessa terrível alcunha que me botaram é que se lembram...

– Tiradentes, – um rapaz adentrou a sala gritando – já é hora!
Silvério, um rapaz comunicativo e bem mais novo que Tiradentes, invadiu o ambiente de forma expansiva, mexendo no material do dentista. Eliseu se incomodou com a liberdade do novo visitante, mas imaginou que ele poderia ser bem próximo ao doutor.

– Nosso trem parte logo.

– Calma, Silvério... Nunca vi alguém mais ansioso pela própria morte... Por que enfim é isso que procuramos na vida militar, correto? – disse Tiradentes, voltando-se para Eliseu.

– E o salário, Tiradentes... Esqueceu do polpudo salário que nossa maravilhosa coroa de Maria Louca nos proverá? – disse o jovem Silvério, sorrindo com seus dentes sujos e mal cuidados.

Tiradentes virou-se para Eliseu e tocou carinhosamente seu queixo:

– Preciso ir, menino. Quem sabe não nos encontramos por aí. Da próxima vez o doutor pode ser você... Um doutor de verdade, de diploma e tudo mais. Muito mais que um “arranca-dentes” minerador... Faça algo bom de sua vida, criança.
 
II
A Universidade de Coimbra era um ambiente com um quê selvagem. Entre nobres circulavam figuras exóticas, cabeças que pensavam à frente do seu tempo. Ou pelo menos assim achavam. Filho do Barão de Congonhas do Campo, Eliseu ganhara a oportunidade de viajar a Portugal, onde receberia educação formal superior. O jovem havia optado pelas ciências naturais como sua área de interesse.

– É um ramo interessante, Eliseu. Mas o que precisam na colônia é de engenheiros. Precisamos abrir estradas e canalizar os rios do Brasil selvagem! – um empolgado jovem, de cabelos ensebados e roupas bem passadas, declamou levantando-se da mesa, onde vários universitários congregavam.

– Eu certamente compreendo a sua exaltação, Luís Antônio. Mas desde criança me interessou entender a natureza, o funcionamento dos seres humanos... Na verdade, as ciências que me escolheram.

– Nunca deixe que sua paixão mande em você, Eliseu – de forma mais reservada, outro rapaz se manifestou. Francisco tinha o costume de posicionar-se com esse tipo de frase misteriosa – Conheço homens que perderam a razão aventurando-se em campos como a filosofia ou a lógica, desesperados pela verdade.

– A mim basta entender melhor o corpo humano, ir além da medicina – Eliseu apontou o próprio peito – Existem mais coisas nos guiando que se pode imaginar.
 
– Para alguns só um instrumento pode guiar o homem: o dinheiro. Nesse grupo se encaixa a realeza brasileira! – Luís Antônio esbravejava novamente, abrindo os braços em seu discurso – Nada mais minha família consegue tirar de ouro. Os impostos são vergonhosos. O tal do “quinto” é um ultraje! Agora peço que reflitam comigo: vejam o que aconteceu na França... Não cairia bem uma revolução no Brasil?!

– Se você quer a forca, Luís Antônio, deve gritar mais alto e fazer com que todos que passam pelo pátio da universidade lhe escutem... – disse Francisco.

Eliseu levantou-se da mesa e fez sinal de despedida aos amigos. Não tinha grandes interesses em revoltas ou política. Havia marcado para aquela tarde um encontro com um mestre na biblioteca. Durante a semana o professor João de Assis havia falado de um nobre estudante suíço, com ideias que, essas sim, poderiam revolucionar alguma coisa: o campo das ciências.

A biblioteca da Universidade de Coimbra era uma das maiores da Europa. Dezenas de fileiras de estantes criavam um labirinto ao qual Eliseu ainda não se habituara. Depois de alguns minutos circulando entre os escritos, o jovem encontrou seu mestre orientador, que estava junto de outros magistrados. Na roda, várias cabeças brancas, aparentando estarem seduzidos por um jovem de cabelos longos e negros que discursava com uma publicação de Paracelso na mão.

– Eliseu! Aguardávamos sua chegada ouvindo as incríveis proposições de nosso convidado. Permita-lhe apresentá-lo...

– Meus cumprimentos, Eliseu – o sotaque forte do jovem denunciava sua ascendência germânica. Mesmo assim, o domínio da língua portuguesa impressionava – Muito ouvi falar de você.

– O prazer é meu, senhor...

– Por favor... Apenas Victor. Não me chame pelo sobrenome, fazendo-me parecer velho, como os senhores aqui querem que eu pense que sou – apesar do tom sério, Victor esforçava-se para mostrar alguma simpatia.

– Ora, Victor, com suas ideias é difícil acreditar em sua pouca idade. É necessária uma vida inteira para pensar na mesma intensidade que você – o professor João parecia não se importar em bajular o convidado – Mas acredito que Eliseu adoraria ouvir um pouco dessas ideias enquanto tomamos um chá no refeitório da universidade.

– Seria um imenso prazer – disse Eliseu, já apontando a saída da biblioteca.

Durante uma tarde inteira, Eliseu e o professor ouviram Victor. Seu fascínio pelas leis da vida contagiava os ouvintes. Discursava sobre questões relacionadas ao conceito da abiogênese, a irreversibilidade da morte e ainda polêmicas relacionadas à alquimia, esta última perdendo espaço dia a dia para outras ciências do mundo moderno. Ao mesmo tempo em que falava, notava-se certa inconformação e olhar triste em seu semblante. Victor parecia fazer de seus estudos uma guerra particular.

– Acho que certas leis da vida talvez não possam ser revertidas... – Eliseu não conseguiu evitar pensar em voz alta.

– Ora, nobre colega, cada descoberta que o homem fez nos últimos anos partiu de um questionamento, de uma impossibilidade. Sei que muitas das minhas ideias tiram o sono de religiosos... – disse Victor com um pequeno sinal de irritação – Sei bem como Galileu se sentiu quando expôs sua teoria sobre o sol no centro do universo, os preconceitos e superstições que barraram suas descobertas.

– Quando pensar no sol, Victor, não se lembre de Galileu: lembre-se de Dédalo e Ícaro. Ou ainda de Prometeu – o professor João deu um curto sorriso ao final dessa afirmação. A ironia foi captada imediatamente pelo convidado, que pareceu incomodado.

– Hum. Acho que devo voltar à Suíça. Minha viagem a Portugal, ao que parece, não deve trazer grandes frutos. Auf Wiedersehen, senhores.
Victor levantou-se do seu banco, fez um cumprimento da forma mais educada que pôde e não aguardou a resposta dos seus ouvintes. Aquela discussão ainda ecoaria na cabeça de Eliseu por alguns dias.
 
III
A cansativa viagem de navio de volta ao Brasil estava finalmente acabada. Eliseu foi recebido pelos pais de forma efusiva. Junto deles, Elisabete, antes uma amiga de infância barulhenta e típica garotinha rica, agora uma bela dama de família nobre e quem se insistia dizer ser a melhor pretendente para o jovem recém-chegado.

– Meus cumprimentos, meus pais. Senhorita Elisabete... – Eliseu fez uma pequena reverência.

– Vejam se não é o novo médico da família! – o pai de Eliseu abraçava-o desengonçadamente.

– Estudei ciências naturais, meu pai... Acredito que “cientista” seja mais adequado.

– Não complique, meu filho... Estávamos ansiosos por sua volta. A jovem Elisabete não parava de falar em você durante esses anos – finalizava a mãe de Eliseu, transformando a situação na mais desconfortável possível.

Na carruagem que levava a família inteira ao lar, o pai de Eliseu o inteirava sobre as novidades na colônia. Percebia-se certo clima tenso nas ruas de Vila Rica.

– Depois dos franceses, deu nos jovens brasileiros de separar nossa capitania do restante do Brasil... Não que eu esteja satisfeito com a coroa... Continuam taxando o ouro até que pouco sobre a quem o minera. Mas, mais do que a gravata-borboleta, a forca parece ser o adereço de pescoço na moda no momento. Certos pensamentos não podem fazer as pessoas perderem a cabeça... Se é que você me entende, filho...

– Não se falava em outra coisa na universidade, pai.

– Enfim, vários foram presos. Alguns devem ser soltos. Têm suas costas largas, pertencem a cultos que vão além dos poderes da realeza... No entanto haverá aqueles que serão exemplos, que não devem escapar da punição. Inclusive, entre os presos, há alguém que talvez você conheça... Fazia bicos cuidando dos dentes da nobreza da cidade...
 
– Doutor Joaquim! – Eliseu não conseguiu esconder a surpresa.

– Por aqui era conhecido pelo apelido de “Tiradentes”... Andou se envolvendo em confusões no Rio de Janeiro. Está preso junto com outros de sua laia.

Eliseu pareceu sentido por não poder fazer algo a respeito. Imaginar que o doutor lutava pelos direitos da população fazia Eliseu nutrir algum respeito por ele, talvez nem tenha percebido a contaminação com essas ideias no ensino superior.

Já em sua casa, Eliseu continuava os estudos. Andava um pouco perturbado nos últimos meses: havia chegado a uma encruzilhada. Incomodava a ideia de não ir além das conclusões dos autores que estudava. Às vezes pensava não ter o estímulo certo, a inspiração adequada para encontrar novas conclusões. Tentava colocar os pensamentos em ordem quando ouviu a porta bater.

– Eliseu! A senhorita Elisabete o aguarda na sala de jantar! – a voz empolgada da mãe de Eliseu do lado de fora do quarto machucava seus tímpanos.

Foi encontrar-se com a jovem senhorita na sala de casa. Por mais bela que fosse a convidada, Elisabete com certeza não era das companhias mais interessantes no momento. Acostumado com as rodas calorosas de debates científicos, assuntos cotidianos como a vida social da burguesia ou o último romance de Castelo Branco não eram interessantes o suficiente para afastar os pensamentos de Eliseu de seu trabalho, um tratado que questionava as bases da biogênese. A sineta na porta de entrada da casa salvou o jovem de uma estafante descrição dos desenhos bordados no vestido mais novo da rainha.

Um empregado entregou um grande pacote a Eliseu.

Ao ver o nome do remetente, os olhos de Eliseu brilharam. Pediu licença à Elisabete, já se desculpando, afirmando ter de ir ao banheiro tratar de “assuntos naturais”. A garota sorriu e disse voltar em outra hora, recomendando a leitura de um bom romance à toalete, caso o intestino resolvesse não “trabalhar” de forma adequada.

Eliseu bateu com força a porta de seu quarto, trancando-o. Verificou mais uma vez o nome do remetente no envelope. Dentro dele um calhamaço de papel com uma série de estudos e o que parecia ser um diário. Um sucinto bilhete completava o pacote:

“Prezado colega, por vários momentos ensaiei jogar esse material à lareira. No entanto o conhecimento é um presente sem valor, se você não pode compartilhá-lo com alguém. Ao tempo que sigo na minha jornada moral final, procurando expiar meus pecados, deixo-lhe que analise todas as minhas descobertas. Sinto que esteve certo no nosso encontro e peço-lhe para que tome as providências adequadas para com este estudo. Peço perdão pela rudeza em minha despedida e espero que essa correspondência forneça o final adequado à nossa relação. Atenciosamente, Victor”.
 
IV
O decreto de condenação de Tiradentes à forca era o assunto da cidade. Eliseu recebeu a notícia com tristeza. Mas não pensou sobre isso durante muito tempo. No último ano a evolução de seu estudo foi notável. Nada seria possível sem as anotações de Victor, a quem o jovem cientista tinha enviado diversas correspondências sem obter nenhum retorno, como se o suíço tivesse desaparecido da face da Terra. De qualquer forma aquele parecia um caminho sem volta. Logo contestaria a teoria da biogênese. Eliseu sentiu que em breve criaria a vida em laboratório, por meios próprios.

Diariamente o jovem cientista visitava o necrotério da cidade, onde lhe eram permitidas autópsias em escravos e indigentes. Passava horas debruçado sobre os corpos recém mortos, exercitando o solve et coagula. Demorou a acreditar que Victor havia encontrado suas respostas em textos alquímicos, que uma prática antiga e obscura derrotaria as ciências naturais. Não apenas isso: suas descobertas poderiam oferecer uma derrota à própria morte.

No exato momento em que separava a cabeça de um velho negro morto, Eliseu ouviu barulhinhos agudos, como saltos finos, acertando o chão de madeira às suas costas.

– Eu... Eu... Poderia falar com você, Eliseu...? Lá fora, por favor! – enojada com a cena com que se deparava, Elisabete tinha um lenço cobrindo nariz e boca e nem esperou o jovem responder para sair da sala de autópsia.

Eliseu não parecia satisfeito pela interrupção de seu trabalho, mas as obrigações sociais, às quais ele ainda se sentia apegado, fizeram-no acompanhar à moça a calçada.

– Há uma semana espero algum comunicado seu, Eliseu! Você prometeu me levar ao teatro... – a jovem parecia indignada.

– Estou numa fase crucial da pesquisa, Elisabete. Sempre existem grandes peças em cartaz. Sei que a senhorita pode aguardar mais algumas semanas...

– Creio não ser possível, caro senhor. Caso não apareça pela noite em minha residência serei obrigada a aceitar o convite do nobre bancário da cidade.

– Pode ser que apareça, cara dama. Se conseguir executar meu experimento a tempo...

– Você foi avisado, Eliseu. Até mais ver. – Elisabete deu às costas, fazendo seu vestido serpentear no chão de terra batida como o rabo de um camaleão.

O jovem cientista retornou ao seu experimento não parecendo se importar com a ameaça da moça. Estava justamente testando a peça final de seu quebra-cabeça. Não poderia haver distrações. No entanto, Eliseu decepcionou-se ao ver que a cabeça do autopsiado era incompatível com seus planos. Teria que esperar um novo corpo, nas condições ideais, chegar ao necrotério.

Ansioso, Eliseu retornou à sua residência. Não almoçou e nem jantou. Foi direto ao seu quarto e folheou o diário de Victor, tentando conter sua agitação. O tom de horror que a narrativa do estudioso suíço tomava ao final dos escritos não impressionava mais o jovem cientista. Interessava-lhe muito mais emular o experimento do colega implantando algumas de suas próprias considerações. Mal tinha deitado na cama, quando ouviu um estardalhaço na rua. Um verdadeiro carnaval tomava conta da cidade. À frente do batalhão real, traziam a cabeça de Tiradentes.
 
V
Aquela noite parecia mais escura do que as outras. Na Praça de Santa Quitéria, um sentinela do império se esforçava para dormir. A imagem daquela cabeça numa estaca, que ele tinha a missão de vigiar, assombrava seu sono. Do outro lado da rua, esgueirando-se pelas esquinas de Vila Rica, o padre Manuel da Silva Gatto aproximava-se do soldado adormecido com uma vara. O religioso acreditava que aquela cena macabra subvertia não só os valores morais da cidade, mas também os ideais de liberdade em que ele acreditava. A densa neblina o ajudaria a furtar a cabeça daquele que ele acreditava ser um honrado herói, um mártir de uma capitania livre. Ou, quem sabe, até país livre.

A densa neblina da madrugada prejudicava a visão do padre, que, de longe, espetava a vara em direção à estaca que prendia a cabeça de Tiradentes. Mesmo sem enxergar o alvo, Gatto tentou diversas vezes, até perceber, num momento em que a neblina lhe possibilitou alguma visão, que a cabeça não estava mais lá. Assustado, fugiu ao perceber que o sentinela estava despertando. O soldado real surpreendeu-se com a estaca vazia e tratou de preparar a melhor desculpa que tinha para justificar o roubo.
 
Eliseu corria o mais rápido que podia até o necrotério, olhando para os lados de forma desconfiada. Dentro do saco de tecido, a cabeça de Tiradentes parecia conservada, provavelmente pela salmoura a que ela tinha sido submetida. Uma superstição para torná-la infértil, mas que veio muito a calhar.

O quebra-cabeça estava montado, todos os procedimentos pareciam estar em ordem. A cabeça foi conectada ao grande mosaico humano criado por Eliseu. Seguindo passo a passo as anotações de Victor, Eliseu aguardou. Primeiro alguns minutos. Depois uma hora. Uma decepção pareceu tomar-lhe, pois nada acontecia.
 
– Não! Não pode ser! Levanta, criatura! – Eliseu enfurecia-se enquanto batia no peito do ser que ele havia criado. Primeiro lentamente, depois raivosamente.

Num movimento brusco, a criatura ergueu-se com um urro grave. Assustado, o jovem cientista caiu ao pé da parede. Durante alguns segundos apenas observou o ser formado por diversos pedaços humanos sentado sobre sua mesa. Olhando em volta da sala, a criatura percebeu Eliseu.

– Eli... Zeu... Garoto...

Um choque subiu pela espinha de Eliseu. Aquilo poderia ser a maior descoberta científica da humanidade, mas a macabra lembrança que aquele mosaico humano tinha o perturbava.

– Você... Ainda me conhece... É você, Tiradentes?

– Tiradentes está morto... Eu estava lá... Eu era ele... – o ser agora articulava de forma impressionante, o que acelerava os batimentos cardíacos de Eliseu.

Levantando-se da mesa, o ser caminhou até o cientista e ajoelhou-se perante seu criador, encarando-o face a face.

– Por quê? Por que você me trouxe de volta?

– Qualquer um gostaria de ter uma segunda chance... Pela cidade você é conhecido como um herói! E ainda mais: você agora é a prova de que não é apenas Deus que pode criar a vida!

O ser segurou Eliseu pelos ombros agressivamente.

– Você pensa que é Deus?! É por isso que me trouxe de volta? Acha que eu queria estar aqui? Eu não mereço mais viver! Nem muito menos ser chamado de... herói! Você não sabe o que eu passei... Nos três anos que fiquei preso... fui torturado diariamente. Espremiam-me por qualquer informação... Entreguei cada revolucionário de Vila Rica... da mesma forma que Silvério me entregou à coroa. A revolução é uma grande ilusão... E eu fui só um maldito peão.

A criatura levantou-se e circulou pela sala. Olhou para si mesmo várias vezes. Chorou. Agitado, começou a correr pela sala quebrando todas as coisas que encontrava. Eliseu deixou o canto da parede e tentou aproximar-se de sua caixa de ferramentas. A criatura parecia não se importar mais com ele.

O jovem não sabia como proceder. Estava diante de sua maior descoberta. Do fim da encruzilhada. Mas encarava uma criatura incompleta, incapaz de perceber sua própria importância. Um ser danificado como qualquer ser humano normal. Eliseu aproximou-se de um bisturi que estava à sua frente.
 
– Você não tinha o direito! Minha morte foi uma condenação por meus erros! – o ser gritava agora sem nenhuma reserva.

Eliseu começou a se preocupar com o alarde que ele fazia. Logo haveria guardas à sua porta.

– Acalme-se, doutor... Você precisa entender o que você se tornou... – com a mão que levava o bisturi escondida em suas costas, o cientista tentou aproximar-se da criatura.

Por um momento, o ser se acalmou. Baixou a cabeça e começou a gargalhar insanamente.

– É irônico, garoto. Devo-lhe algo! E ainda lembro o que você me deu na última vez que nos vemos: SANGUE!

O ser pulou sobre Eliseu, e um confronto se deu sobre a mesa. Durante alguns minutos o cientista tentava, em vão, acertar o bisturi na criatura. Jogando-o com força sobre a parede, o amargurado ser desarmou o jovem. Eliseu mal pôde ver quando a criatura quebrou o recipiente de uma lamparina sobre si mesmo. O combustível começou a queimar o seu próprio corpo, enquanto o ser gargalhava de prazer.

– É o que acontece quando você chega perto demais de Deus, garoto... – em chamas, o ser pulou sobre Eliseu.

Tentando desvencilhar-se do monstro, Eliseu sentia seu corpo queimar. Ao mesmo tempo, toda a sala parecia incendiar-se com os resíduos do combustível. Criatura e criador pararam de respirar quase ao mesmo tempo.
 
VI
No dia seguinte, uma parte da população de Vila Rica comentava o incêndio no necrotério. Pouco sobrara da sala de autópsia. Ferramentas derretidas e anotações queimadas, entre elas um velho diário, pilhavam-se ao lado de dois corpos fundidos e irreconhecíveis no meio da sala. Mas naquele momento o assunto que incomodava a maior parte dos cidadãos da vila era o desaparecimento da cabeça de Tiradentes.
 
“Portanto condenam o réu Joaquim José da Silva Xavier, por alcunha o Tiradentes, alferes que foi do Regimento pago da Capitania de Minas, a que, com baraço e pregão seja conduzido pelas ruas públicas ao lugar da forca, e nela morra morte natural para sempre, e que depois de morto lhe seja cortada a cabeça e levada a Vila Rica, onde no lugar mais público dela, será pregada em um poste alto, até que o tempo a consuma, e o seu corpo será dividido em quatro quartos, e pregados em postes, pelo caminho de Minas, no sítio da Varginha e das Cebolas, onde o réu teve as suas infames práticas, e os mais nos sítios das maiores povoações, até que o tempo também os consuma, declaram o réu infame, e seus filhos e netos tendo-os, e os seus bens aplicam para o Fisco e Câmara Real, e a casa em que vivia em Vila Rica será arrasada e salgada, para que nunca mais no chão se edifique, e não sendo própria será avaliada e paga a seu dono pelos bens confiscados, e mesmo chão se levantará um padrão pelo qual se conserve em memória a infâmia deste abominável réu; [...]”
Sentença proferida contra Tiradentes em virtude do levante e conjuração de Minas Gerais
 
 
“De pena algumas lágrimas verteram,
Mas resignados logo as enxugaram.

 
Diante deles estava inteiro o Mundo
Para, a seu gosto, habitação tomarem,
E tinham por seu guia a Providência.

 
Dando-se as mãos os pais da humana prole,
Vagarosos lá vão com passo errante

Afastando-se do Éden, solitários.”
Paraíso Perdido, John Milton

30 de mar. de 2020

O amor nos tempos da pandemia (Lista do Zé #29)



Olá, olá!

O negócio tá meio assustador, eu admito. Nesta segunda-feira (30/03), completei 15 dias em quarentena na minha casa. O coronavírus desafia nossa lógica social. Ao mesmo tempo, esse tempo enfurnado com minha esposa e filhas me fez valorizar algumas pequenas coisas da correria diária, talvez por que é uma característica minha ver o lado bom desse tipo de situação. Ainda não sei como serão as próximas semanas, mas no geral temos conseguido passar muito bem por esse momento aqui em casa, com as crianças aproveitando como nunca essa aproximação familiar. Há coisas negativas? Ô, se há. Não dá pra ignorar os fatores econômicos, que a gente aqui em casa também vai sentir. Mas, ainda assim, tenho a convicção de que ficar em casa é a melhor opção no momento. Vamos ter que pensar nas consequências financeiras no momento seguinte, infelizmente. Pra você que lê esse texto, caso tenha condições, avalie apoiar iniciativas na sua comunidade para diminuir os impactos daquelas pessoas que não tem os privilégios que nós temos. E proteja seus pais e avós. Isso tá próximo de acabar, eu sinto isso. Infelizmente, não são muitas as coisas que eu posso fazer para conter o avanço da doença. Sendo assim, vou contribuir da forma que sei: com conteúdo. Pretendo aumentar os textos da minha lista de e-mails nas próximas semanas, pra começar.



Além disso, pra esse período de isolamento social, junto com uma galera dos quadrinhos brasileiros, criei uma iniciativa que disponibiliza quase duas centenas (e subindo) de obras nacionais para leitura gratuita no site bit.ly/hqsnaquarentena. Aproveitem, por que este material estará disponível para download somente enquanto durar o período de isolamento social. E, se curtirem os trabalhos, sigam os autores nas redes sociais e considerem comprar material deles, afinal vai ser um ano muito difícil pra gente, com poucos eventos e muitas livrarias e comic shops fechadas.

Pra essa iniciativa, disponibilizei meu quadrinho Interlúdio. Lançamos esse quadrinho online em 2008, como parte do segundo EP da minha banda Sobre o Fim (tem uma parte da história dessa publicação aqui). É uma HQ curtinha, sobre teoria do caos, desenhada pelos amigos Silvio Romero, Camila Nágila, André Pinheiro e Demétrio Braga, e que inclusive foi indicada ao Troféu HQMIX na época.

Além disso, como uma pequena contribuição na vida das pessoas nesse momento, estou articulando algumas lives com amigos no Instagram, que devem começar a acontecer já nesta semana. Vão ser vários assuntos, mas principalmente dicas sobre produção de quadrinhos e indicações de quadrinhos, música, livros e filmes. Sigam o meu perfil (@zewellington) e fiquem atentos às divulgações que vão sair por lá.

https://www.zewellington.com/p/combos.html


Outra novidade é a volta às prateleiras da minha primeira graphic novel, Quem Matou João Ninguém?, que pode ser adquiridas no site da Editora Draco, na Amazon ou diretamente comigo.

Por falar em pegar comigo, montei alguns combos com meus quadrinhos e promocionalmente estarei vendendo com frete grátis para todo o Brasil. Meu compromisso com meus leitores sempre foi de divulgar os lugares mais em conta onde comprar minhas HQs, não seria diferente neste momento econômico mais complicado, então eu tenho que dizer que sai bem mais barato comprá-las pela Amazon (com pouco mais de R$ 70,00 você consegue comprar juntas Quem Matou João Ninguém?, Cangaço Overdrive e Steampunk Ladies: Choque do Futuro). Mesmo assim, listei três motivos para comprar diretamente comigo:

1⃣ em todos os combos comprados comigo vão brindes (adesivo ou pôster A3 ou ambos nos combos a partir de três livros). E, se o comprador quiser, tem também dedicatória com seu nome nos livros.
2⃣ Steampunk Ladies: Vingança a Vapor, o primeiro volume da série, está esgotado na maior parte das livrarias, incluindo a Amazon. Tenho comigo alguns exemplares resgatados de comic shop (e que estão esgotando rapidamente).
3⃣ por que você ajuda a desaguar meu estoque de quadrinhos, que eu esperava baixar nos eventos cancelados neste semestre.

O link para a compra dos combos é facinho: bit.ly/zwcombos

E a vida segue. Se quiser precisar de alguém para conversar, responde este e-mail que ele chega direto na minha caixa de entrada.

Fique em casa e cuide da sua família.