1 de março de 2017

Rick, Morty e o carnaval (Lista do Zé #13)



Olá, olá!

E este é o texto de fevereiro sendo entregue em... MARÇO. Carnaval + gripe dá nisso. Mas antes tarde do que nunca e o texto deste mês ainda está de pé (eu espero).

Voltaram bem da folia? Quantas horas de séries maratonadas? A indicação de hoje é para curar qualquer tipo de ressaca.

Rick and Morty

Todo mundo tem aquele amigo de Facebook (ou Twitter, para os que ainda usam) que parece prever as tendências cinematográficas ou televisivas. Não é o cara que reproduz o que os grandes sites escreve, mas que vai até onde a grande mídia não vai (ou não recebe para ir) e desencava alguma coisa legal. Foi assim que, há um tempo atrás, eu descobri a série Community, que rapidamente se tornou uma das coisas de tevê mais legais que já assisti (e um dia eu preciso escrever um texto a defendendo daqueles impuros de coração que a detratam). Esse texto não é sobre Community ainda, mas sobre a última aventura do seu criador, Dan Harmon.

Já em Community, vários episódios especiais de animação denunciavam as experiências de Harmon com desenhos animados, já que o cara montou uma empresa só pra isso. E aí, nessa minha "timelinda" das redes sociais, dois nomes começaram a ecoar: Rick e Morty. Apesar de ser apaixonado por animação, talvez eu deixasse passar, com tanta coisa pra ver... Mas aí o Sr. Google me entregou que os dois famigerados personagens que dão nome a esta animação do Adult Swim saíram da cabeça de Harmon, em parceria com Justin Roiland, dublador com programas como A Hora da Aventura e Gravity Falls no currículo. A animação surgiu a partir de uma ideia de Roiland, que produziu uma série de vídeos em flash chamada The Real Animated Adventures of Doc and Marthi, uma paródia non sense (e não recomendada para menores) de De Volta para o Futuro. É bem tosco e você pode ver aqui por sua conta e risco.

Para a tevê, Doc e Marthi ganharam novos nomes e um espectro de aventuras mais amplo: acompanhamos agora o cientista arrogante e bebarrão Rick em aventuras extra-espaciais (ou dimensionais ou CORPORAIS ou aonde for) junto com seu neto Morty. A relação entre os dois lembra muito a dinâmica consagrada em Doctor Who, do ser quase onisciente sobre o universo e tudo mais e sua companion curiosa. A diferença é que Morty é um garoto inseguro e covarde, que na maioria das vezes é arrastado para as aventuras do avô contra a sua vontade.

Tudo é muito maluco nos episódios, mas ainda assim muito bem amarrado. Com muitas referências a grandes clássicos da ficção científica, a animação tem roteiro sempre imprevisível, levando seus finais até as últimas consequências, mesmo que isso envolva humor negro e um pouco de gore. Mas é engraçado como, mesmo assim, existe uma narrativa muito clara onde acompanhamos o quanto os personagens mudam no decorrer da série. Um momento em especial tem uma força poderosa na animação: o forte final do episódio "Rick Potion #9". Dá pra se fazer uma tese de doutorado a respeito dele. De verdade. Quem assistia Community vai entender a habilidade de Dan Harmon em transformar uma aparentemente simples história para rir numa grande mensagem existencialista (alguém lembra do episódio "Remedial Chaos Theory", de Community?).

"Parece Os Simpsons ou South Park?", alguém pode perguntar. Em alguns momentos lembra o primeiro, mas os personagens (especialmente Rick) parecem ter saído do segundo. Falando nos Simpsons, uma propaganda do Adult Swim mostra o que poderia ser o encontro entre as duas séries (e já deixa bem claro as diferenças entre elas).

Mas o humor de Rick and Morty não é fácil, o que foi uma das primeiras razões para eu ter demorado a escrever sobre a animação. Explorar os problemas do American Way of Life faz com que sobrem críticas para todo mundo. Depois de ver as duas primeiras temporadas, ambas disponíveis na Netflix, fiquei maluco para conversar com alguém a respeito. São poucos os textos sobre a animação na web, me fazendo pensar que ela talvez incomode muito mais do que faça fãs, seja por seu lado gore, seja por que algumas piadas, embora não visuais, sejam de embrulhar o estômago.

Ah, a insanidade continua, por que a terceira temporada começa a ser exibida neste mês no Estados Unidos.


Já viu a série? Curtiu? Se sentiu incomodado com alguma piada? Conta aí! Responda este e-mail com seus comentários! Você pode também deixar um comentário sobre esse texto no meu Facebook, no post sobre ele.

Ah, é sempre bom lembrar que estou colocando tudo que leio nos meus perfis no Skoob (me sigam também no meu perfil de autor) e Goodreads e o que assisto está indo pro Filmow. Cliquem nos links e me adicionem por lá.

Já leu Quem Matou João Ninguém? ou Steampunk Ladies? Que tal ir no Skoob e avaliá-los? Você ajuda a mais pessoas saberem se os livros são para elas:

 

Bem rapidinho

  • Quem Matou João Ninguém? e Steampunk Ladies chegaram ao Kindle, para quem sempre me perguntava! Procure na Loja Kindle, caso já seja um adepto da leitura digital como eu.
  • Em mais um episódio da série Roteirismos, do Avantecast, eu e o PJ Brandão conversamos com a Petra Leão (roteirista da Turma da Mônica Jovem) e a Débora Santos (nome em crescimento no quadrinho cearense alternativo) sobre arte comercial e autoral. E ficou bem legal. Escuta aí!
  • E reforçando: vai rolar a CCXP Tour, em Recife, durante a semana santa. Estarei lá, no Centro de Convenções de Pernambuco, de 13 a 16 de abril, dividindo mesa com o parceiro Nycolas Di. Se vai, quero te encontrar lá!
Conhece alguém que gostaria de receber meus textos? É só encaminhar este e-mail e pedir para ele clicar neste link: http://bit.ly/listadoze

Acabou o carnaval, bora nós pra mais um ano!


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30 de janeiro de 2017

E o tal do edital? (Lista do Zé #12)



Olá, olá!

12º texto... Um ano de textos na Lista do Zé! E chegando hoje, no chamado Dia do Quadrinho Nacional. Aos que gostaram do texto sobre Economia Criativa, dessa vez vamos falar sobre como financiar o seu trabalho artístico através dos editais de incentivo.

(Ah, vale lembrar que esses textos podem ser enviados diretamente para seu e-mail, é só se cadastrar no final desta postagem)

(a tira que ilustra este post é do Carlos Ruas)

E o tal do edital?

Meus dois primeiros quadrinhos longos foram lançados com recursos de editais de incentivo. Para quem não sabe esses editais são uma espécie de seleção de projetos para serem apoiados por uma instituição pública (bancos, prefeituras ou governos estadual e federal) ou privada (empresas como Oi, Coca-Cola e muitas outras). Essas instituições têm recursos para investir em projetos culturais. O que elas ganham com isso? Bom, as instituições públicas normalmente fazem isso por que é papel delas dar este apoio e tem orçamentos próprios para isso (e não dá para apoiar qualquer um que bata na porta de uma secretaria ou ministério da cultura). Já as privadas usam esta seleção como uma forma de selecionar projetos que irão patrocinar, recebendo em troca a divulgação da marca da empresa no material promocional do projeto apoiado.

Vou para meu quarto projeto financiado por edital. Às vezes fico até meio envergonhado de falar isso, mas a verdade é que sem esse tipo de apoio eu provavelmente não conseguiria fazer quadrinhos. A esta altura do campeonato você já sabe que eu sou roteirista e que preciso de desenhistas para os meus álbuns, pessoas que posso pagar através destes editais. O que talvez você não saiba é que sem estes recursos quem trabalha comigo teria de esperar o álbum ser lançado, normalmente entre seis meses e um ano depois que o trabalho começa, para começar a ganhar alguma coisa, especificamente quando ele começar a ser vendido (e eu nem vou falar aqui do quanto se ganha com as vendas, mas saiba que é bem pouquinho para quem está começando). E como é que alguém trabalha durante um ano numa coisa sem ganhar nada por ela nesse período? Bom, bem-vindo ao mercado nacional de quadrinhos, este lugar de pessoas apaixonadas e um tanto malucas.

Então o fato é que tenho participado de todo edital que posso desde 2010. Se hoje é bonito falar que ganhei quatro paradas dessas, preciso dizer antes que passei três anos apenas PERDENDO. E mesmo o primeiro edital que ganhei, que possibilitou Quem Matou João Ninguém?, acho que só cheguei lá por que concorri 1) numa categoria de quadrinhos e 2) apenas com projetos do interior do Ceará. Arrisco a dizer que talvez só o meu projeto e o outro vencedor tenham se inscrito na época... Mas meu caso é uma exceção: na maioria das vezes esse tipo de edital é bem concorrido. Algumas áreas da cultura brasileira são extremamente dependentes de editais, como o audiovisual (por conta dos altos custos para ser realizado). Isso faz com que uma seleção nesta área seja um verdadeiro campo de batalha de projetos. Então, o que se pode fazer para ter um pouquinho mais de chance de se acessar esse tipo de recurso?

Primeiramente ter um bom projeto e um currículo interessante, para provar que irá conseguir realizá-lo. É por isso que os editais não são para quem está dando os primeiros passos. Em 2013, quando ganhei meu primeiro edital, eu já tinha nove anos de produção de quadrinhos. Eram fanzines e eventos pequenos, mas coisas que davam CREDIBILIDADE para mim e para o meu projeto. E nem preciso falar da importância dessa experiência para ter uma proposta razoável e que convencesse os avaliadores do edital de que o resultado prestaria, né?

É bom ter em mente também que você vai começar uma relação em que você será extremamente cobrado por quem vai lhe financiar. Por isso já na inscrição rola o primeiro filtro: o da paciência. Os processos seletivos exigem uma série de documentos e é preciso persistência e organização para juntar tudo. Mais do que isso, quem quer pleitear um recurso assim precisa da tal paciência para LER o edital. Parece bobagem, mas a maior parte do segredo de ganhar algo assim está em ler e entender o que é pedido. Muita gente reclama de tanta burocracia, tanto documento, tanta certidão e tanto esclarecimento. Mas veja bem: é dinheiro público sendo "dado" para alguém num país onde a corrupção... Bom, você já sabe. Muitos projetos apoiados em editais não são concluídos nunca. Às vezes por inexperiência ou outros problemas pessoas do artista/realizador (o que valeria até um novo texto). Mas muitas vezes por safadeza mesmo.

Para navegar neste mar de exigências, eu sempre digo para todo mundo que outro fator chave para conseguir ganhar meu primeiro edital foi conversar com pessoas que já tinham ganhado este mesmo edital antes. Eu acho que essa é a dica de ouro para ajudar no entendimento dos pontos mais esquisitos do linguajar burocrata de um edital.

Mas a burocracia é importante para ensinar uma primeira regra para quem quer ser financiado pelo governo: vai piorar se você ganhar. Depois de selecionado, para receber a grana tem mais um pouquinho de burocracia: envio de certidões, abertura de conta bancária, assinatura de convênio... E quando o dinheiro vem, vem também a necessidade de se cumprir as exigências da instituição sobre como vão ocorrer os pagamentos e as prestações de conta. Algumas vezes você recebe a grana numa conta que tem que gerenciar e em outras precisa encaminhar notas fiscais para um setor competente antes ou depois do pagamento. Cada edital tem seu jeito de funcionar. Para você ter uma ideia, um edital do governo do estado que ganhei três vezes funcionou de uma forma diferente em cada uma dessas três vezes. Houveram mudanças BRUSCAS de um ano para o outro na forma de inscrição e de execução. Entender o funcionamento em cada uma das vezes me exigiu várias visitas à secretaria da cultura e muitas ligações telefônicas. E é MUITO IMPORTANTE fazer todos os procedimentos da forma correta, já que, no caso dos editais de entidades públicas, trata-se de dinheiro dos contribuintes. Você terá que prestar conta de cada centavo que gastar. E se fizer algo errado e não conseguir justificar adequadamente, corre o risco de ter que devolver TUDO com correção monetária.

E caso você não seja muito habilidoso com essa burocracia? Bom, pode ser que os editais não sejam o meio ideal para você financiar o seu projeto. Mas ainda há uma alternativa para o seu caso, que seria contratar alguém para fazer o projeto e lhe dar consultoria na sua execução. A maioria dos editais permite que um valor seja previsto para isso (mais uma vez: consulte o texto do edital que está participando).

Por último, editais não são boas opções para quem não gosta de prazos, já que geralmente você já entra no edital sabendo quando tem que terminar seu projeto. Quase sempre é possível negociar possíveis adiamentos, mas eles dependem de autorização da entidade que está financiando sua arte.

Vale lembrar que existem outras formas de se financiar produção de arte no Brasil (nos futuros textos espero falar mais sobre elas). E aí, pronto para correr atrás da grana vai ajudar a realizar o seu trabalho?



Gostou do texto? Você pode também deixar um comentário abaixo ou no meu Facebook, no post sobre ele.

Ah, é sempre bom lembrar que estou colocando tudo que leio nos meus perfis no Skoob (me sigam também no meu perfil de autor) e Goodreads e o que assisto está indo pro Filmow. Cliquem nos links e me adicionem por lá.

Já leu Quem Matou João Ninguém? ou Steampunk Ladies? Que tal ir no Goodreads e avaliá-los? Você ajuda a mais pessoas saberem se os livros são para elas:

 Bem rapidinho

  • Para quem é do Ceará, está abrindo amanhã o Edital de Incentivo às Artes do Governo do Estado do Ceará. É o bendito edital que financiou meus primeiros trabalhos. Não percam esta oportunidade. Mais informações aqui.
  • A esta altura você já deve estar sabendo que vai rolar a CCXP Tour, em Recife durante a semana santa, confere? Estarei lá, no Centro de Convenções de Pernambuco, de 13 a 16 de abril, dividindo mesa com o parceiro Nycolas Di. Já salvem na agenda.
 

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