1 de janeiro de 2018

Um 2017 (cyber)punk (Lista do Zé #16)



Olá, olá!

Eu ia escrever um texto sobre 2017, mas aí resolvi escrever a resenha do último livro que li no ano passado. E em algum ponto as duas coisas se encontraram.

Um clássico (às vezes) incompreendido

Terminar 2017 com Neuromancer como última leitura é meio emblemático. Demorei mais do que o normal na leitura do livro, diga-se de passagem. E MUITA coisa aconteceu neste meio tempo.

O romance mais conhecido de William Gibson não é fácil. Ainda que não tão distante hoje quanto era na época em que foi escrito (1984), temos um futuro distópico num mundo bem mais tecnológico que o nosso. Provavelmente usando isso como ferramenta narrativa, Gibson não se preocupa em explicar o seu cenário, tomando a maior parte das coisas como cotidianas para o hacker Case e os demais personagens. A sensação é parecida com ler um livro de duzentos anos atrás, só que no futuro e sem poder consultar um dicionário. Para esta função, ajuda um pouco um glossário ao final, mas os neologismos são incontáveis, sendo às vezes mais prático seguir sem olhar para trás (ou sem olhar para o final do livro, no caso), abstraindo toda a viagem verborrágica do autor. Falando em verborragia, soma-se ainda o estilo de prosa de Gibson, que é futurista na trama, mas não muito contemporâneo no estilo. O que falta em explicações do funcionamento dos objetos de cena, sobra nas descrições deles.

E uma das coisas que aconteceu enquanto eu lia o livro, e que eu não poderia abster desse texto, foi um debate acalorado num grupo do Facebook e também num post do escritor Fábio Fernandes, tradutor da edição que li do livro, comemorativa aos 25 anos do livro. Muitas pessoas diziam que o livro era chato e que haviam desistido dele em algum ponto.

Mas se Neuromancer é uma montanha difícil de escalar, as recompensas no seu percurso compensam as pedras no caminho. Dixie, Wintermute e as demais inteligências artificiais que surgem na trama são personagens interessantíssimos (mesmo que nem sempre se entenda suas motivações, propositadamente). E eu poderia falar das várias previsões feitas por Gibson no início dos anos 80, mas é mais provável que o autor tenha inspirado a criação dessas coisas, em especial a internet. Nem sempre ele acerta, claro (e os meios de armazenamento mais comuns na história são as fitas magnéticas, só para citar um exemplo). Na leitura eu ficava maluco mesmo era nos encontros entre Case e seus antagonistas, momentos de tensão incríveis, com diálogos que mostram um autor já habilidoso no seu romance de estreia, que levou para a casa a tríplice da literatura scifi (os prêmios Hugo, Nebula e Philip K. Dick) e foi considerado pela revista Time um dos 100 maiores romances de todos os tempos.

A cereja do bolo é o cenário criado pelo autor, que seria utilizado ainda em dois livros subsequentes (fechando a Trilogia do Sprawl). Muito além do high-tech-low-life pelo qual o cyberpunk é conhecido, Gibson pintou um futuro culturalmente diverso, misturando dub jamaicano ao estilo de vida otaku, romance noir a artes marciais, influenciando toda a cultura pop e a contracultura americana e, por consequência, mundial. The Ghost in The Shell, Matrix, Gurps e muitos outros produtos de entretenimento devem muito (senão tudo) a Neuromancer. Talvez em breve a cultura pop devolva a Gibson suas contribuições, já que vem aí a adaptação cinematográfica da sua obra-prima,  anunciada recentemente, pelas mãos do promissor Tim Miller, diretor do filme do Deadpool.

Como eu disse, é um tanto simbólico que esse livro feche meu ano. É uma resenha, mas vale também como um resumo para o meu 2017, que teve seus percalços, mas se mostrou uma jornada de grande valor para mim (e acho que com um final feliz). Só espero que 2018 esteja mais para um livro mais fácil, como um algum romance comercial do Stephen King.

E que livro define o seu 2017?

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Além do quadrinhos cyberpunk Cangaço Overdrive, que divulguei no texto anterior, lançarei no ano que vem a continuação de Steampunk Ladies. Desta vez vou contar com a ajuda da desenhista Sara Prado nos desenhos, que por sua vez contou com o apoio do desenhista Wilton Santos. Wilton estava no primeiro volume e além dele volta o colorista Ellis Carlos. Da mesma forma que em Cangaço Overdrive, conto com o Deyvison Manes nas letras e com o Rob Lean na arte-final. Nas próximas semanas vamos divulgar mais algumas coisas do projeto, que vira em 360º nossa história, indo do Velho Oeste Americano para a Londres vitoriana.


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Um ótimo 2018!

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20 de novembro de 2017

Mauricio (Lista do Zé #15)



Olá, olá!

Num texto só, hoje eu vou relatar um encontro e fazer uma indicação de livro.

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Um encontro que não estava no gibi

​Eram 16h de uma terça-feira, dia 7 de novembro deste ano, quando a Margarida Melo, uma das curadoras da Feira do Livro de Sobral, me ligou:

– Corre aqui no hotel que o Mauricio quer te ver!

Larguei tudo que estava fazendo na empresa e fui encontrar o quadrinista e empresário Mauricio de Sousa em seu hotel em Sobral. Mais tarde naquele dia ele faria a palestra magna na abertura da Feira, que aconteceu entre 7 e 9 de novembro, na cidade em que nasci.

Deixa eu voltar alguns dias no tempo. Eu já estava bem feliz de ter um evento relacionado ao livro acontecendo pela primeira vez na minha cidade, bem nesse momento especial da minha vida, com dois álbuns em quadrinhos lançados e sendo vendidos no Brasil inteiro. Para completar, por uma sugestão do meu amigo e um dos idealizadores da Feira, Yves Gurgel, surgiu o nome do Mauricio como palestrante na abertura. Baita sorte: o maior nome dos quadrinhos no Brasil numa feira na minha cidade. Mas a adrenalina subiu quando o Yves mandou uma mensagem no meu WhatsApp perguntando se eu poderia moderar a palestra, já que no contrato o Mauricio solicitava alguém no palco com ele. "É pegadinha?", eu perguntei.

No saguão do hotel, o Mauricio me perguntou como estava o clima. Apesar de esta ser uma pergunta famosa de quem passa por aqui pela primeira vez (Sobral tem comumente temperaturas próximas aos 40°), ele na verdade se referia à política local (e mais na frente você vai entender o interesse dele nesse tema). Dias antes do evento, um blog sensacionalista da cidade noticiou a vinda do Mauricio fazendo alarde sobre seu cachê e chamando a atenção para necessidades de infraestrutura na cidade. Ele estava no Japão quando recebeu a notícia, provavelmente alertado por sua assessoria de comunicação. Eu disse a ele que a principal preocupação dos sobralenses naquele dia era conseguir um lugar no auditório para 500 pessoas, já que os ingressos gratuitos tinham se esgotado alguns momentos após a abertura das inscrições. Ele se tranquilizou e abriu um sorriso. Aproveitei o momento para presenteá-lo com uma edição de Quem Matou João Ninguém?, chamando sua atenção para uma referência a seus personagens na página 39 (você tinha notado?). Ele disse que achou a edição bonita e me perguntou sobre o prêmio que ganhei, que todo mundo comentava desde que ele tinha chegado. Eu disse que o tinha recebido na mesma cerimônia onde sua esposa, Alice Takeda, foi homenageada no ano passado, que entre muitas pessoas que eu admirava ele também estava lá. Ele me indagou sobre o quê conversaríamos no palco do evento. Abri meu celular onde estavam algumas perguntas e comentei que havia me baseado na sua autobiografia. “Ah, então você estudou bem”. De fato, ler o livro dele me ensinou bastante.

Mauricio: A história que não está no gibi é um livro de memórias baseado em depoimentos do quadrinista ao jornalista Luís Colombini. É escrito em primeira pessoa, o que já nos adianta que teremos fatos da vida do Mauricio narrados sobre o seu ponto de vista. Eu sempre fico muito desconfiado com esse tipo de biografia autorizada, por que é comum vermos apenas um lado da história ou, ainda pior, uma grande propaganda do biografado. Mas, mais do que me preparar para a moderação de um papo com o autor, a história do Mauricio sempre me despertou curiosidade por conta do seu lado empreendedor. E nesse aspecto o livro é bem interessante para quem quer entender como funciona a cabeça de um empresário nato num dos segmentos mais complicados para se empreender no Brasil: a cultura.

No livro vemos que o criador da Turma da Mônica sempre teve um comportamento superprotetor com seus “filhos desenhados”, negociando contratos com muito cuidado e desistindo de negociações muito rentáveis se sentisse que poderia perder o controle sobre suas criações. Marca também a coragem do quadrinista para embarcar em grandes empreendimentos, como um estúdio de cinema ou um parque temático. Às vezes com alguma teimosia, mas normalmente de forma estritamente planejada, Mauricio sempre surpreendeu o mercado nesses quase 60 anos de carreira. Mesmo assim, um dos capítulos mais interessantes do livro é o que mostra os projetos do quadrinista que NÃO deram certo (no melhor estilo Fuckup Night), com planos infalíveis envolvendo desde os Beatles e Maradona até uma máquina patenteada que permitia sentir cheiros enquanto se assistia a um filme.

Mas se você gosta de quadrinhos e acha meio chato esse papo de empreendedorismo, pode curtir no livro os vários relatos de Mauricio sobre os bastidores dos quadrinhos e encontros com grandes mestres, como Will Eisner, Hugo Pratt, Osamu Tezuka e muitos outros. O livro também detalha o processo de produção individual do autor no início da carreira até a forma como isso evoluiu para um grande estúdio, quando ele definiu uma série de padrões para que cada uma das mais de mil páginas por mês de quadrinhos continuassem saindo como se tudo ainda fosse feito por um único autor.

O livro é um relato bem suavizado, vale destacar. Ao mesmo tempo que isso o faz uma delícia de se ler, se percebe o mesmo cuidado que Mauricio tem em seus quadrinhos para não “incomodar” nenhum público específico. Fica um pouco a impressão de que ele está pisando em ovos nos momentos mais polêmicos. Há também uma visão muito pessoal do Mauricio com relação à mistura de arte e política. O quadrinista sempre evitou essa relação em seus trabalhos, gastando algumas partes do livro para explicar os seus porquês. Meio que do seu jeito, não muito diretamente, ele inclusive crítica o engajamento político na arte, o que pessoalmente me incomodou um pouco (mas que vai da ideologia de cada um). Fica claro para mim que essa posição política é um dos principais segredos comerciais do autor. E ainda que em determinado momento ele diga que sua turminha hoje defende o empoderamento feminino, por outro lado ele confessa que ainda não surgiu um personagem homossexual na Turma da Mônica Jovem por que isso seria “cutucar um vespeiro”.

Pela noite eu e Mauricio subimos no palco para a abertura da Feira do Livro. Como em todos os momentos em que pude estar com ele, Mauricio foi gentil e atencioso, sempre se mostrando interessado nos papos. Mesmo com 82 anos, foi paciente com cada fã que encontrou, até aqueles que furaram os bloqueios de segurança. No palco, quando eu disse que ele que mandava no evento, Mauricio falou que se ele mandava sua ordem era que eu o dirigisse. Para completar, após o evento, a organização do evento ainda me relatou um fato curioso.

– O nome dele é Zé Wellington mesmo? Ele não acha ruim ser chamado de ? É que vou colocar aqui no meu Instagram – perguntou o Mauricio à Margarida numa mensagem.

– Não acha, Mauricio! É assim que todo mundo conhece ele – ela respondeu.

– Mesmo assim vou colocar José Wellington, por que é mais respeitoso.

Que prazer te conhecer, Mauricio.

Até cortei o cabelo pra receber o Mauricio.

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Anunciei nesses dias meu próximo quadrinho, previsto para o início de 2018. Ele se chamará Cangaço Overdrive e é resultado de uma parceria com o desenhista cearense Walter Geovani, conhecido pelo longo período em que foi desenhista regular da personagem Red Sonja e que recentemente ilustrou um trabalho da roteirista Gail Simone para a Vertigo, selo adulto da DC Comics.

Em 2030 o Ceará enfrenta sua maior seca em séculos. Neste cenário, um lendário cangaceiro e um impiedoso coronel duelam mais uma vez no sertão. Misturando cyberpunk e cordel, o álbum dá início a saga do cangaceiro Cotiara num nordeste distópico.

Eu escrevi o roteiro, o Geovani fez os layouts das páginas e ainda contamos com a participação do Luiz Carlos B. Freitas no lápis, Rob Lean na artefinal, Dika Araújo nas cores e Deyvison Manes nas letras. Tem um preview abaixo, mas legal mesmo é curtir a página do projeto no Facebook para ficar por dentro de tudo (é só clicar aqui!).


A covardia é muito grande
Mas ninguém tá desistindo
Pois dizia Patativa
Num cordel deveras lindo:
“Morre cem de quando em quando
Mil vai substituindo”


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Até mais, "galela"!

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16 de outubro de 2017

É assim que (se re)começa (Lista do Zé #14)


Olá, olá!

Eu voltei... Agora pra ficar... Por que aqui-- Ah, pára vai. Foram meses malucos, numa volta de 180º na minha vida. Entre mortos e feridos, sobrevivi. Mas o que importa é que aos poucos vamos devolver a atividade pra essa bodega.

Além das mudanças no campo pessoal e profissional, tem dois álbuns novos aí querendo nascer e logo eu vou falar deles (no próximo texto, acho). Mas essas histórias... Como nascem? Onde vivem? Do que se alimentam? Eu resolvi escrever sobre (um dos caminhos mais comuns no) meu processo produtivo. Quer começar uma história, mas não sabe por onde começar? Deixa eu te contar como eu faço. Pode te ajudar. Ou não.

Ah, só para reforçar: receba estes textos no conforto do seu e-mail preenchendo seus dados no final da postagem.

Processo "caótico" 

Existem várias formas de se estruturar uma história. Mckee, Field, Vogler... Pode escolher o teórico de sua preferência. Tem para todos os gostos: 3, 5, 10, 1000 atos. Tem um monte de gente tentando encontrar uma fórmula ou receita para a história (filme, livro, HQ, publicidade etc) comercial perfeita. Eu não gosto de fórmulas, mas entendê-las é bem esclarecedor (e te ajuda dá segurança para seguir sem elas).

Construir uma história não é fácil. Depois de treze anos escrevendo, agora que estou encontrando a minha forma de fazer isso. É uma mistura do que muitos autores ensinam, mas não se parece com nenhum. Ainda assim, os últimos dois quadrinhos que lancei tiveram processos muitos diferentes entre si e ainda mais diferentes dos dois próximos quadrinhos que irei lançar. Quando você pergunta para um autor como é o processo dele é comum ouvir ele dizer "que é caótico". É um clichê e é delicioso confundir as pessoas com essa expressão, mas, pelo menos no meu caso, é a mais pura verdade.

Às vezes vem de uma situação que eu passei ou vi. Às vezes surge enquanto eu vejo um filme ou leio uma história em quadrinhos. Às vezes começa com uma pergunta. Às vezes com um diálogo entre duas pessoas. Às vezes com uma ideia que eu quero defender. Simplesmente surge o insight e eu começo a escrever ao redor dele, loucamente, qualquer ideia relacionada. Além disso, corro para minha estante de coisas não lidas e vejo tudo que possa contribuir com aquela ideia. Vejo filmes na Netflix, converso com outras pessoas a respeito... É hora de imergir no mundo daquela história para conseguir o máximo de informações. E juntar essas informações em algum lugar. Hoje eu junto num documento do Google Drive.

Aí entra um adendo importante: nenhuma história minha é feita nas condições que eu gostaria (como a maioria das pessoas pensa que acontece). Leia-se por condições ideais sentar-se numa mesa durante uma semana, oito horas por dia, para pensar no que vou contar e, realmente, começar a fazer. Com a) trabalho (muito trabalho) e b) crianças (muito mais trabalho), é comum eu me dedicar intensamente a uma história durante alguns dias e deixá-la guardada por meses até ter tempo para voltar nela novamente. E eu esbarrei com a charge do Odyr que inicia este texto nesses dias e descobri que isso não acontece só comigo.

Depois de deixar uma ideia incompleta numa gaveta e passar semanas sem conseguir escrever por motivos do tipo a ou b, o processo de retorno a esta ideia é lento e envolve reler e lembrar muitas coisas, num catatau de letras entre referências de outras obras e coisas que eu mesmo escrevi. Por essas e outras, em Sobre a Escrita (que eu já falei a respeito aqui), Stephen King recomenda que nunca se leia o que se escreveu ontem ou antes de ontem. Sempre em frente, diz o rei, e quando chegar ao final da sua primeira versão você pode (e deve) voltar ao início e revisar tudo. O método é tentador (e provavelmente muito eficaz), mas as milhares de releituras me permitem lapidar a história e minimizar erros, mesmo que produtivamente essa não seja a melhor forma por que demanda MUITO MAIS TEMPO. Funciona para mim? Sim. Mas entre um método meu e outro do Stephen King, a escolha parece meio óbvia, né?

O próximo passo é processar o que juntei, transformando o calhamaço de informações em uma sinopse, tipo aquelas atrás das antigas fitas de videocassete. É um resumo sem entregar muito da história, que convença alguém (neste momento eu mesmo) que aquilo vale à pena. Nas fitas VHS ou nas contracapas dos livros, o final não está lá para não estragar as surpresas da história. Nesse meu caso, o final não está lá por que eu ainda não sei como vai acabar mesmo. Penso essa sinopse de forma publicitária, para saber a força dessa ideia. É provável que ela mude completamente quando o livro for lançado, pelo tanto de voltas que a história dá até que ela realmente fique pronta. Mas naquele momento inicial ela cumpre um papel de me mostrar um vislumbre de como seria aquilo pronto e me convencer de que aquilo merece ser contado (e o tempo, investido).

A sinopse é uma parada muito legal de se fazer. Não sei se é por que trabalho com publicidade, mas adoro pensar em como eu venderei o produto final. Já a etapa seguinte, o argumento, é uma BARRA. Nele preciso descrever com mais detalhes a história, incluindo início, meio e fim. E aí sou confrontado com uma das perguntas mais difíceis de responder para quem escreve histórias: como vai acabar? Pra mim é uma das partes mais complicadas de se fazer. Sou muito exigente comigo mesmo com relação a isso e inclusive sou ciente que errei bastante nesse ponto em trabalhos anteriores. Eu gosto de finais conclusivos, mas que deixam possibilidades abertas, por mais contraditório que isso possa parecer. Vale dizer que É IMPORTANTE SABER COMO A HISTÓRIA VAI TERMINAR ANTES DE SEGUIR PARA AS PRÓXIMAS ETAPAS. Está em caixa alta, por que é um erro comum não seguir este conselho.

Vencido o argumento (e o final), aí vem ele, a estrela da coisa: o roteiro. O roteiro nada mais é do que uma descrição quadro a quadro do que acontece na HQ. Muita gente não entende o que é isso. É comum acharem que um roteiro de HQ também é desenhado (e até pode ser em alguns casos), então eu vou falar de novo de outro jeito: o roteirista descreve, normalmente em forma de PALAVRAS, o que acontece em cada quadro da HQ. O resultado deste processo é um documento longo. Para se ter uma ideia, o roteiro de Quem Matou João Ninguém? tem quase 25.000 palavras, o que equivaleria a metade do tamanho médio de um romance.

Informações soltas, sinopse, argumento... O roteiro usa tudo isso como base, mas sem nenhuma paixão por manter as coisas do jeito como estão. Digo isso por que é comum surgirem ótimas ideias no processo que podem te fazer mudar a história como um todo. Em dos meus roteiros atuais eu tinha muito claro o meu grupo de personagens principais, incluindo um personagem específico, que entrou na história por que eu tinha um ótimo final para ele. Mas quanto mais eu escrevia, mais ele sobrava naquele meio. Até que eu decidi que não fazia sentido ele estar ali. E ploft: já era. Perdi uma baita sacada no final (que vai acabar ficando para outra história), mas ganhei mais espaço para desenvolver os outros personagens.

Depois do roteiro, a história vai para o desenhista (ou ser filmada no caso de um filme). Mais etapas vem pela frente, como desenho, cores, artefinal, letreiramento e editoração... Num grande mercado meu trabalho como roteirista acabaria aqui, no roteiro em si... Mas estamos falando do Brasil e, normalmente, sobra para o roteirista gerir a equipe que faz o trabalho. Mas esse é um assunto para outro texto.

Tem muito mais coisas para escrever sobre criar uma história e eu quero contar mais sobre elas no próximos textos. Mas esse texto ficou longo e eu pensei que parar por aqui aqui ia te deixar muito curioso. Ou seja, um bom final.

Charlie Kaufman está julgando você, que não está escrevendo agora.

Bem rapidinho


  • Em Ritmo de Fuga (Baby Driver) é espetacular, né? O mundo vai descobrindo o diretor Edgar Wright, mas você, que é esperto e lê a Lista do Zé, já tinha descoberto no texto #8.
  • Já viram a terceira temporada de Rick and Morty?
  • Novos CDs do Foo Fighters e do Queens of Stone Age rolando. Já escutaram?
  • E no mês de novembro rola o NaNoWriMo, desafio para escritores que consta em escrever um livro do início ao fim durante o mês de novembro. A proposta é chegar as 50.000 palavras em 30 dias. Se nos próximos treze dias eu matar os dois roteiros que estou fazendo, penso em encarar o desafio e finalmente finalizar meu primeiro romance em prosa. E aí me veio uma maluquice de montar um grupo de apoio com outros autores que vão participar. Não vai ser nenhum tipo de consultoria e nem vamos ficar mandando os textos uns para os outros (se fôssemos ler o que cada um escreve nem teríamos tempo para escrever), mas ter um espaço onde pudéssemos compartilhar nossas experiências e incentivar uns aos outros para chegar no final (como um grupo de corrida nerd). Se estiver afim de participar, manda e-mail para contato (@) zewellington.com.
E como diria King, sempre em frente.

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1 de março de 2017

Rick, Morty e o carnaval (Lista do Zé #13)



Olá, olá!

E este é o texto de fevereiro sendo entregue em... MARÇO. Carnaval + gripe dá nisso. Mas antes tarde do que nunca e o texto deste mês ainda está de pé (eu espero).

Voltaram bem da folia? Quantas horas de séries maratonadas? A indicação de hoje é para curar qualquer tipo de ressaca.

Rick and Morty

Todo mundo tem aquele amigo de Facebook (ou Twitter, para os que ainda usam) que parece prever as tendências cinematográficas ou televisivas. Não é o cara que reproduz o que os grandes sites escreve, mas que vai até onde a grande mídia não vai (ou não recebe para ir) e desencava alguma coisa legal. Foi assim que, há um tempo atrás, eu descobri a série Community, que rapidamente se tornou uma das coisas de tevê mais legais que já assisti (e um dia eu preciso escrever um texto a defendendo daqueles impuros de coração que a detratam). Esse texto não é sobre Community ainda, mas sobre a última aventura do seu criador, Dan Harmon.

Já em Community, vários episódios especiais de animação denunciavam as experiências de Harmon com desenhos animados, já que o cara montou uma empresa só pra isso. E aí, nessa minha "timelinda" das redes sociais, dois nomes começaram a ecoar: Rick e Morty. Apesar de ser apaixonado por animação, talvez eu deixasse passar, com tanta coisa pra ver... Mas aí o Sr. Google me entregou que os dois famigerados personagens que dão nome a esta animação do Adult Swim saíram da cabeça de Harmon, em parceria com Justin Roiland, dublador com programas como A Hora da Aventura e Gravity Falls no currículo. A animação surgiu a partir de uma ideia de Roiland, que produziu uma série de vídeos em flash chamada The Real Animated Adventures of Doc and Marthi, uma paródia non sense (e não recomendada para menores) de De Volta para o Futuro. É bem tosco e você pode ver aqui por sua conta e risco.

Para a tevê, Doc e Marthi ganharam novos nomes e um espectro de aventuras mais amplo: acompanhamos agora o cientista arrogante e bebarrão Rick em aventuras extra-espaciais (ou dimensionais ou CORPORAIS ou aonde for) junto com seu neto Morty. A relação entre os dois lembra muito a dinâmica consagrada em Doctor Who, do ser quase onisciente sobre o universo e tudo mais e sua companion curiosa. A diferença é que Morty é um garoto inseguro e covarde, que na maioria das vezes é arrastado para as aventuras do avô contra a sua vontade.

Tudo é muito maluco nos episódios, mas ainda assim muito bem amarrado. Com muitas referências a grandes clássicos da ficção científica, a animação tem roteiro sempre imprevisível, levando seus finais até as últimas consequências, mesmo que isso envolva humor negro e um pouco de gore. Mas é engraçado como, mesmo assim, existe uma narrativa muito clara onde acompanhamos o quanto os personagens mudam no decorrer da série. Um momento em especial tem uma força poderosa na animação: o forte final do episódio "Rick Potion #9". Dá pra se fazer uma tese de doutorado a respeito dele. De verdade. Quem assistia Community vai entender a habilidade de Dan Harmon em transformar uma aparentemente simples história para rir numa grande mensagem existencialista (alguém lembra do episódio "Remedial Chaos Theory", de Community?).

"Parece Os Simpsons ou South Park?", alguém pode perguntar. Em alguns momentos lembra o primeiro, mas os personagens (especialmente Rick) parecem ter saído do segundo. Falando nos Simpsons, uma propaganda do Adult Swim mostra o que poderia ser o encontro entre as duas séries (e já deixa bem claro as diferenças entre elas).

Mas o humor de Rick and Morty não é fácil, o que foi uma das primeiras razões para eu ter demorado a escrever sobre a animação. Explorar os problemas do American Way of Life faz com que sobrem críticas para todo mundo. Depois de ver as duas primeiras temporadas, ambas disponíveis na Netflix, fiquei maluco para conversar com alguém a respeito. São poucos os textos sobre a animação na web, me fazendo pensar que ela talvez incomode muito mais do que faça fãs, seja por seu lado gore, seja por que algumas piadas, embora não visuais, sejam de embrulhar o estômago.

Ah, a insanidade continua, por que a terceira temporada começa a ser exibida neste mês no Estados Unidos.


Já viu a série? Curtiu? Se sentiu incomodado com alguma piada? Conta aí! Responda este e-mail com seus comentários! Você pode também deixar um comentário sobre esse texto no meu Facebook, no post sobre ele.

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Bem rapidinho

  • Quem Matou João Ninguém? e Steampunk Ladies chegaram ao Kindle, para quem sempre me perguntava! Procure na Loja Kindle, caso já seja um adepto da leitura digital como eu.
  • Em mais um episódio da série Roteirismos, do Avantecast, eu e o PJ Brandão conversamos com a Petra Leão (roteirista da Turma da Mônica Jovem) e a Débora Santos (nome em crescimento no quadrinho cearense alternativo) sobre arte comercial e autoral. E ficou bem legal. Escuta aí!
  • E reforçando: vai rolar a CCXP Tour, em Recife, durante a semana santa. Estarei lá, no Centro de Convenções de Pernambuco, de 13 a 16 de abril, dividindo mesa com o parceiro Nycolas Di. Se vai, quero te encontrar lá!
Conhece alguém que gostaria de receber meus textos? É só encaminhar este e-mail e pedir para ele clicar neste link: http://bit.ly/listadoze

Acabou o carnaval, bora nós pra mais um ano!


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30 de janeiro de 2017

E o tal do edital? (Lista do Zé #12)



Olá, olá!

12º texto... Um ano de textos na Lista do Zé! E chegando hoje, no chamado Dia do Quadrinho Nacional. Aos que gostaram do texto sobre Economia Criativa, dessa vez vamos falar sobre como financiar o seu trabalho artístico através dos editais de incentivo.

(Ah, vale lembrar que esses textos podem ser enviados diretamente para seu e-mail, é só se cadastrar no final desta postagem)

(a tira que ilustra este post é do Carlos Ruas)

E o tal do edital?

Meus dois primeiros quadrinhos longos foram lançados com recursos de editais de incentivo. Para quem não sabe esses editais são uma espécie de seleção de projetos para serem apoiados por uma instituição pública (bancos, prefeituras ou governos estadual e federal) ou privada (empresas como Oi, Coca-Cola e muitas outras). Essas instituições têm recursos para investir em projetos culturais. O que elas ganham com isso? Bom, as instituições públicas normalmente fazem isso por que é papel delas dar este apoio e tem orçamentos próprios para isso (e não dá para apoiar qualquer um que bata na porta de uma secretaria ou ministério da cultura). Já as privadas usam esta seleção como uma forma de selecionar projetos que irão patrocinar, recebendo em troca a divulgação da marca da empresa no material promocional do projeto apoiado.

Vou para meu quarto projeto financiado por edital. Às vezes fico até meio envergonhado de falar isso, mas a verdade é que sem esse tipo de apoio eu provavelmente não conseguiria fazer quadrinhos. A esta altura do campeonato você já sabe que eu sou roteirista e que preciso de desenhistas para os meus álbuns, pessoas que posso pagar através destes editais. O que talvez você não saiba é que sem estes recursos quem trabalha comigo teria de esperar o álbum ser lançado, normalmente entre seis meses e um ano depois que o trabalho começa, para começar a ganhar alguma coisa, especificamente quando ele começar a ser vendido (e eu nem vou falar aqui do quanto se ganha com as vendas, mas saiba que é bem pouquinho para quem está começando). E como é que alguém trabalha durante um ano numa coisa sem ganhar nada por ela nesse período? Bom, bem-vindo ao mercado nacional de quadrinhos, este lugar de pessoas apaixonadas e um tanto malucas.

Então o fato é que tenho participado de todo edital que posso desde 2010. Se hoje é bonito falar que ganhei quatro paradas dessas, preciso dizer antes que passei três anos apenas PERDENDO. E mesmo o primeiro edital que ganhei, que possibilitou Quem Matou João Ninguém?, acho que só cheguei lá por que concorri 1) numa categoria de quadrinhos e 2) apenas com projetos do interior do Ceará. Arrisco a dizer que talvez só o meu projeto e o outro vencedor tenham se inscrito na época... Mas meu caso é uma exceção: na maioria das vezes esse tipo de edital é bem concorrido. Algumas áreas da cultura brasileira são extremamente dependentes de editais, como o audiovisual (por conta dos altos custos para ser realizado). Isso faz com que uma seleção nesta área seja um verdadeiro campo de batalha de projetos. Então, o que se pode fazer para ter um pouquinho mais de chance de se acessar esse tipo de recurso?

Primeiramente ter um bom projeto e um currículo interessante, para provar que irá conseguir realizá-lo. É por isso que os editais não são para quem está dando os primeiros passos. Em 2013, quando ganhei meu primeiro edital, eu já tinha nove anos de produção de quadrinhos. Eram fanzines e eventos pequenos, mas coisas que davam CREDIBILIDADE para mim e para o meu projeto. E nem preciso falar da importância dessa experiência para ter uma proposta razoável e que convencesse os avaliadores do edital de que o resultado prestaria, né?

É bom ter em mente também que você vai começar uma relação em que você será extremamente cobrado por quem vai lhe financiar. Por isso já na inscrição rola o primeiro filtro: o da paciência. Os processos seletivos exigem uma série de documentos e é preciso persistência e organização para juntar tudo. Mais do que isso, quem quer pleitear um recurso assim precisa da tal paciência para LER o edital. Parece bobagem, mas a maior parte do segredo de ganhar algo assim está em ler e entender o que é pedido. Muita gente reclama de tanta burocracia, tanto documento, tanta certidão e tanto esclarecimento. Mas veja bem: é dinheiro público sendo "dado" para alguém num país onde a corrupção... Bom, você já sabe. Muitos projetos apoiados em editais não são concluídos nunca. Às vezes por inexperiência ou outros problemas pessoas do artista/realizador (o que valeria até um novo texto). Mas muitas vezes por safadeza mesmo.

Para navegar neste mar de exigências, eu sempre digo para todo mundo que outro fator chave para conseguir ganhar meu primeiro edital foi conversar com pessoas que já tinham ganhado este mesmo edital antes. Eu acho que essa é a dica de ouro para ajudar no entendimento dos pontos mais esquisitos do linguajar burocrata de um edital.

Mas a burocracia é importante para ensinar uma primeira regra para quem quer ser financiado pelo governo: vai piorar se você ganhar. Depois de selecionado, para receber a grana tem mais um pouquinho de burocracia: envio de certidões, abertura de conta bancária, assinatura de convênio... E quando o dinheiro vem, vem também a necessidade de se cumprir as exigências da instituição sobre como vão ocorrer os pagamentos e as prestações de conta. Algumas vezes você recebe a grana numa conta que tem que gerenciar e em outras precisa encaminhar notas fiscais para um setor competente antes ou depois do pagamento. Cada edital tem seu jeito de funcionar. Para você ter uma ideia, um edital do governo do estado que ganhei três vezes funcionou de uma forma diferente em cada uma dessas três vezes. Houveram mudanças BRUSCAS de um ano para o outro na forma de inscrição e de execução. Entender o funcionamento em cada uma das vezes me exigiu várias visitas à secretaria da cultura e muitas ligações telefônicas. E é MUITO IMPORTANTE fazer todos os procedimentos da forma correta, já que, no caso dos editais de entidades públicas, trata-se de dinheiro dos contribuintes. Você terá que prestar conta de cada centavo que gastar. E se fizer algo errado e não conseguir justificar adequadamente, corre o risco de ter que devolver TUDO com correção monetária.

E caso você não seja muito habilidoso com essa burocracia? Bom, pode ser que os editais não sejam o meio ideal para você financiar o seu projeto. Mas ainda há uma alternativa para o seu caso, que seria contratar alguém para fazer o projeto e lhe dar consultoria na sua execução. A maioria dos editais permite que um valor seja previsto para isso (mais uma vez: consulte o texto do edital que está participando).

Por último, editais não são boas opções para quem não gosta de prazos, já que geralmente você já entra no edital sabendo quando tem que terminar seu projeto. Quase sempre é possível negociar possíveis adiamentos, mas eles dependem de autorização da entidade que está financiando sua arte.

Vale lembrar que existem outras formas de se financiar produção de arte no Brasil (nos futuros textos espero falar mais sobre elas). E aí, pronto para correr atrás da grana vai ajudar a realizar o seu trabalho?



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 Bem rapidinho

  • Para quem é do Ceará, está abrindo amanhã o Edital de Incentivo às Artes do Governo do Estado do Ceará. É o bendito edital que financiou meus primeiros trabalhos. Não percam esta oportunidade. Mais informações aqui.
  • A esta altura você já deve estar sabendo que vai rolar a CCXP Tour, em Recife durante a semana santa, confere? Estarei lá, no Centro de Convenções de Pernambuco, de 13 a 16 de abril, dividindo mesa com o parceiro Nycolas Di. Já salvem na agenda.
 

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30 de dezembro de 2016

Falou, 2016! (Lista do Zé #11)



Olá, olá!

2016 já era e eu tenho que dizer: MUITO OBRIGADO! Os textos da Lista do Zé me mantiveram escrevendo e buscando coisas para ler e assistir (neste ano que eu fiz as duas coisas bem pouco). 2017 vem chegando cheio de promessas, entre elas três possíveis novos álbuns em quadrinhos (que eu espero falar mais no próximo texto). Eu mal posso esperar. Por enquanto, vamos de indicação de filme pra tentar terminar este ano estranho em alto astral.

Apenas cante

Será que o diretor John Carney sabia que filmaria um dos momentos mais lindos da história do cinema quando entrou numa loja de música para captar Glen Hansard e Markéta Irglová tocando Falling slowly no filme Apenas uma vez (Once)? Segundo meu correspondente irlandês, por essas e outras, o filme se tornou um patrimônio do audiovisual na Irlanda, sendo hoje um musical permanente exibido em Dublin. Eu demorei pra conhecer esse filme e o trabalho do diretor irlandês. Num dos primeiros podcasts que gravei pro Iradex, falamos sobre o filme Mesmo se nada der certo (Begin again). Eu ainda não tinha visto o filme e fiquei curioso demais por falarem da forma como Carney tratava a música em seus filmes. Vi o filme e depois foi inevitável não assistir Apenas uma vez e ficar completamente obcecado pelo trabalho do diretor. E aí, no segundo texto da Lista do Zé, eu cantei uma bola: tinha saído o trailer do novo filme de John Carney... e o longa deve ser bom. Sing Street estreou em abril e, infelizmente, passou longe dos cinemas daqui (pelo menos por enquanto). Mas eis que, num plot twist inesperado, o filme aparece na Netflix.

Em Sing Street: Música e sonho, Conor é um garoto vivendo na Dublin da década de 1980. Não bastasse a adolescência ser o que é, Conor encara o fim do relacionamento dos pais e os abusos de uma escola conservadora, seja por parte do valentão da vez, seja pelo padre-diretor-perseguidor. Mas tem algo ali que ainda vale muito a pena. Tem toda a efervescência musical dos anos 80. E tem uma garota.

Sing Street: Música e Sonho é até parecido com os filmes anteriores de Carney, já que mostra personagens tentando realizar seus sonhos através da música enquanto acompanhamos o desenrolar de um amor "complicado". Por ser baseado nas memórias de infância do diretor, acho que aqui encontramos algumas das explicações pro seu modo de fazer cinema. Numa parte específica do filme, Conor (ou Cosmo) aprende que o amor é essa coisa "feliz-triste", uma sensação comum a esta última trinca de filmes de Carney. Quem já viu os dois filmes anteriores sabe que seus finais felizes também deixam um gosto amargo na boca. Mas todo esse amargor é dissipado pela aura musical que emana das suas obras, neste último filme homenageando tudo que foi a década de 80, com Duran Duran, The Cure e tudo o mais que você achar que era necessário para ser educado nos anos 80. Sobre esta educação, cabe a Brendan, irmão mais velho de Conor, o papel de mentor nesta jornada musical.

O filme é um espetáculo à parte no momento em que vemos o processo de composição da banda Sing Street, gerando lindos momentos de catarse musical (e espetacular edição de áudio, diga-se de passagem). Se Apenas uma vez gerou a linda Falling slowly e Mesmo se nada der certo a maravilhosa A step you can't take back, Sing Street tem tantas músicas legais que é difícil escolher uma só como o ponto máximo do filme. Pessoalmente elegi Up como a clímax musical do longa. Até pensei em deixar links dos vídeos dessas músicas, mas eu acho um sacrilégio elas serem assistidas primeiro fora do filme. Veja os filmes primeiro e depois se perca nas trilhas sonoras (todas disponíveis no Spotify). E olha só, faltam três dias pro final do ano. Por que não assistir um filme de Carney por dia e acabar o ano com um sorriso no rosto?

Um adendo final sobre o filme é dizer que ele também é sobre irmandade, como a sequência final e a última frase exibida antes dos créditos deixa a entender. E eu lembrei muito do meu correspondente irlandês enquanto assistia o filme. Meu irmão Leco está desde o início do ano em Dublin (MAS NÃO VIU ONCE AINDA!!!!!). E fez aniversário no último dia 28, veja só. Parabéns, Leco! E depois deste filme aprende a escutar mais as bandas que eu sugiro...


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Bem rapidinho

  • Dia 7 de janeiro minha banda Sobre o Fim vai estar no Garage Sounds, em Fortaleza. Bora?
  • Eu e o PJ Brandão convidamos os roteiristas Pablo Casado e Marcio Moreira para falar sobre diálogos nos quadrinhos. Pessoalmente eu gostei muito do resultado. Escute aqui!
  • De novo com o PJ e de novo em podcast, mas agora com o Kaio Anderson e o Gabriel Franklin, conversamos sobre como os serviços de streaming estão nos transformando. Muitas previsões para o futuro do entretenimento neste link.

E até 2017!


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28 de novembro de 2016

Atendendo a pedidos (Lista do Zé #10)


Olá, olá!

Eu fui no Facebook e perguntei pra galera: o que você gostariam que eu escrevesse para a próxima newsletter? As respostas foram bem variadas. Teve gente que pediu para comentar sobre série, alguns sobre estrutura de escrita, outros sobre a situação política do país, alguns tiraram onda... Fiquei pensando no que fazer com as respostas e com a maior pena sobre escrever sobre uma coisa só. Aí lembrei que a Amanda Palmer, uma das minhas pessoas prediletas no mundo, abria uma comunicação com os fãs e depois pegava todos os assuntos abordados nas conversas e fazia uma música. Será que eu conseguiria fazer um texto que fizesse algum sentido com os comentários que postaram neste post? Vejamos.

Faroeste, ficção científica, gênero e Westworld

Um dos principais motivos de eu ter escrito o primeiro volume de Steampunk Ladies é o fato de eu ter uma memória afetiva relacionada aos westerns que meu pai assistia, ainda na época do videocassete. Não me considero um grande fã de bang-bangs, mas aprendi a apreciar o gênero.

Os faroestes se tornaram um gênero próprio de Hollywood, depois de um grande sucesso destas produções nas décadas de 60 e 70. Foi a partir de uma imersão no gênero que começou a construção do roteiro do meu quadrinho, como já é meu costume de trabalhar. No seu ótimo livro Story, Robert McKee fala sobre a importância de se apoderar das principais convenções de um gênero de história antes de começar a escrever dentro dele. Para exemplificar, lembre-se dos filmes de terror (os do cinema, e não este que está passando em Brasília agora, numa trama onde os personagens principais estão limpando todos os seus rastros). O cinema de terror prega que o filme tem uma determinada estrutura: aqueles momentos em que todo mundo espera um susto, um grupo que vai diminuindo conforme a história acontece etc. Se um dia você quiser escrever uma história de terror, um bom início é entender esta estrutura que o fã do gênero já está acostumado. Ou você segue a estrutura (mas incluindo sua própria autenticidade à história) ou pensa numa forma brilhante de subvertê-la (e no caso específico de filmes de terror eu recomendo o excelente O segredo da cabana). Na prática a dica é: faça uma imersão nos melhores exemplos do gênero que você quer escrever e encontre os pontos pelo qual o fã do gênero aguarda. Isto vai evitar que sua história romântica tenha como personagens principais abóboras psicodélicas ou que sua trama de drama político apresente uma cena onde o Steven Seagal recebe uma homenagem do governo russo por serviços prestados (quando o mundo é mais estranho que a ficção). Não que o caminho seja criar uma obra calcada nos clichês do gênero. Acontece que quem gostou dos filmes do Harry Potter espera encontrar em Animais Fantásticos e Onde Habitam certos elementos para se sentirem motivados a comprar aquela nova ideia.

Para Steampunk Ladies eu comecei a me reaproximar dos faroestes, dando preferência ao cinema. Coincidentemente no período que iniciava o argumento, eu estava finalizando o roteiro de Quem Matou João Ninguém?, que tinha um personagem que vivia em função dos filmes do ator Clint Eastwood e foram duas bolas com um bicho piruleta só. Essa experiência colocou o diretor Sergio Leone entre os meus diretores prediletos, mesmo que ironicamente ele seja um dos realizadores que menos se utiliza da estrutura comum dos faroestes norte-americanos (estes muito influenciados pelos spaghetti western italianos). Aproximei-me também dos quadrinhos de faroeste, especialmente os (também italianos) da Editora Bonelli, como Tex e Zagor, conhecidos por seu apuro editorial. Mas é engraçado dizer que, no meio de todas estas boas influências, uma das coisas que mais gostei de me referenciar foi As loucas aventuras de James West, filme do Barry Sonnenfeld estrelado por Will Smith e que normalmente é escrachado pelos fãs de steampunk. O que eu sei é que me diverti pra caramba com esta mistura de faroeste e ficção científica, o suficiente para achar que minha história de faroeste também precisava ser sci-fi.

Recentemente quem tem feito essa mesma mistura de forma brilhante é a série Westworld, que caminha para o último episódio de sua primeira temporada no próximo domingo. Se em Steampunk Ladies eu levei o futuro para o passado, imaginando um mundo que evolui de forma diferente do nosso, em Westworld o passado é levado para o futuro, quando um parque temático se propõe a oferecer a experiência de se viver na virada do século XIX para o XX no oeste americano. E só apenas na sua relação entre ficção científica e faroeste que as obras se encontram. Diferente da minha HQ, a série da HBO é um drama pesado e o tipo de série que abre mil caminhos (e teorias) a cada episódio (sdds Lost). Vale avisar que Westworld é mais sobre ética e inteligência artificial do que sobre os temas comuns de faroeste (justiça e vingança). Pelo menos é o que parece a princípio. O gênero parece importante apenas no momento em que vemos as histórias dentro da história, já que os personagens do parque temático são seres que vivem histórias escritas por roteiristas.

Westworld, um criação de Jonathan Nolan (irmão e principal parceiro do diretor Christopher Nolan) e Lisa Joy, nasce com a tremenda responsabilidade de substituir Game of Thrones, que parte para suas duas últimas temporadas. Contando com a colaboração de um time estrelado (que inclui J. J. Abrams na produção e Anthony Hopkins no elenco), em termos de produção, no momento Westworld é um representante à altura para a tarefa, arriscando-me a dizer que sua primeira temporada é muito superior à primeira da série baseada na obra do George RR Martin. Resta saber se a temática fria, científica e complexa conseguirá ter o mesmo apelo junto ao grande público da sua antecessora.


E você, gosta de faroeste? Já está vendo Westworld? Deixa um comentário pra gente conversar a respeito. Você pode também deixar um comentário sobre esse texto no meu Facebook, no post sobre ele.

No texto passado falei sobre Economia Criativa e fiquei feliz DEMAIS com os feedbacks. Vai ter mais, aguardem.

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Bem rapidinho

  • Estarei no dia 11 de dezembro em Fortaleza, para participar da X Feira Livre de Quadrinhos. O evento reúne apaixonados por quadrinhos e tem como proposta ser uma grande feira de escambo em plena Praça Luiza Távora, em Fortaleza. Vai ter um espaço especial para autores e darei o ar da graça, começando (ainda que timidamente) a voltar a participar de eventos.
  • No próximo final de semana eu poderia estar na roda de samba do Ancelmo, em Forquilha, mas ao invés disso dou início ao retorno das atividades da minha banda Sobre o Fim, com nova formação, começando por um show no AFA, evento que acontece na minha cidade, Sobral, no próximo dia 4 de dezembro. Para o início do ano que vem já temos agendada uma participação no Garage Sounds, no dia 7 de janeiro, num festival que reunirá mais de 30 bandas em 12 horas de show ininterrupto em Fortaleza. Cheguem junto.
  • Eu vou tocar rock em Sobral neste final de semana. Em São Paulo a Editora Draco toca o terror, a fantasia e a ficção científica num estande na CCXP, o maior evento de cultura pop do Brasil. Você infelizmente não vai me encontrar lá, mas vai encontrar meus quadrinhos no estande da editora. No estande da Draco eu destaco ainda os lançamentos dos novos volumes dos mangás Quack e Tools Challenge, este último fazendo sua grande estreia na editora do dragão. Os autores destas obras, Kaji e Max Andrade respectivamente, são pra mim dois grandes nomes dos quadrinhos nacional no estilo mangá da atualidade. Tem também O Despertar de Ctulhu em Quadrinhos, segundo volume da trilogia do “medo duotone”, agora focando no mestre H.P. Lovecraft, capitaneado pelo meu editor Raphael Fernandes (este homem lindo e que nem precisa de dicas minhas pra isso) (P.S.: junto com os autógrafos, peçam nudes pra ele). Procurem também pela mesa do Talles Rodrigues e do Pablo Casado e levem pra casa Mayara & Annabelle – Volume 3, que não é da Draco, mas é foda. E junto peguem o material da Netuno Press que vai estar na mesa do Pablo e Talles e saibam de onde saem os melhores quadrinhos do Ceará na atualidade.
  • Ainda falando em Draco, ontem a editora completou sete anos de vida. Misturando aniversário com Black Friday, tá rolando uma superpromoção no site do dragão, com todos os títulos com 40% de desconto e frete grátis para todo Brasil. Quem Matou João Ninguém? e Steampunk Ladies saem por menos de R$ 40,00 JUNTAS! E a promoção é só até AMANHÃ (29/11/16). CORRE NESTE LINK!
  • O Iradex agora faz parte desse negócio chamado financiamento coletivo recorrente. Através da plataforma Padrim é possível definir um valor mensal para colaborar para que o podcast continue existindo. Felizmente a campanha já é um sucesso além do esperado. É possível que nesta nova fase eu participe mais dos programas (tudo depende da minha tumultuada relação com estes seres chamados Kaio Anderson e Gabriel Franklin). Conheça a campanha do Iradex no Padrim e sinta-se a vontade para contribuir com qualquer quantia a partir de R$ 1,00 por mês e ser um dos “padrins” do podcast.
  • Podcast é a lei mesmo (pelo menos pra mim). Eu, o PJ Brandão e o Luis Carlos Sousa gravamos mais um para o Avantecast, no que agora chamamos de Roteirismos, série de programas focados principalmente no roteiro das histórias em quadrinhos. No último episódio o papo gira em torno de adaptações para quadrinhos, tarefa mais difícil que definir o que é biscoito e o que é bolacha, com a participação especialíssima dos roteiristas Marcela Godoy e André Diniz.
  • Vou dar um destaque especial para o trabalho de três pessoas que acompanham meus textos, até por que acho que todo dia deveria ser de conhecer um autor novo brasileiro. Experimentem os textos do catarinense Leon Nunes e do cearense Leo Mackellene e os quadrinhos do piauiense João Torres. Tá produzindo algo também? Responde este e-mail e divulgo na próxima newsletter. Exclusivo pra assinantes desta listinha, gente boa de coração.
 E por hoje é só, p-p-pessoal.



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