21 de abril de 2020

Prometeu inconfidente (conto) (Lista do Zé #30)



Olá, olá!

Que tal um conto hoje?

Era 2011 ou 2012, quando apareceu na Internet uma chamada para uma antologia da Editora Estronho com contos que misturassem os acontecimentos da Inconfidência Mineira com ficção científica ou fantasia (que hoje está disponível para venda aqui). Naquela época, como forma de treinar a escrita, eu tentava participar de todas antologias desse tipo abertas. E foi assim, com um tempo apertadíssimo, que escrevi o conto que vocês poderão ler logo abaixo, um encontro desse momento da história brasileira, lembrado nesse feriado nacional de hoje, com as ideias imortalizadas pela escritora Mary Shelley na sua obra-prima, Frankenstein ou o Prometeu Moderno, um dos meus livros favoritos.

Curiosidades sobre este conto
1. A cabeça de Tiradentes desapareceu mesmo.
2. Os textos extras que aparecem no início e no fim do conto só foram colocados para que ele alcançasse o número mínimo de caracteres exigido na seleção (você pode até ignorar se quiser, embora eu ache hoje que eles dão um certo charme).
3. Fiquei com uma vontade danada de revisar e reescrever o conto... Mas qual seria a graça, né? Melhor mostrar pra vocês essa foto da minha produção de dez anos atrás. Reli e ainda gosto da maior parte dele.

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Prometeu inconfidente
Por Zé Wellington
 
“Quereis, minhas senhoras, que vos conte uma história para disfarçar o enfado destas longas e frigidíssimas noites de maio? Mas, por melhor que seja a minha vontade, não sei como possa satisfazer ao vosso pedido... digo mal, – cumprir as vossas ordens. Este frio enregela-me as asas da imaginação; este vento glacial, que uiva pelos telhados, como uma matilha de cães danados, estes guinchos de corujas, que parecem lamentos de precitos, fazem a inspiração recolher-se toda encolhida aos mais íntimos esconderijos do crânio, tiritando de frio e de medo. A falar-vos verdade, minhas senhoras, tenho o espírito tão seco e estéril, como a caveira de um defunto enterrado há cem anos. Ah! falei-vos em caveira!... E não é que esta ideia de caveira veio despertar-me a reminiscência entorpecida pelo frio?! Foi como a vara mágica de Moisés, que fez rebentar água em jorros da aridez do rochedo do deserto. E, pois, vou contar-vos a história de uma caveira memorável. Não se arrepiem, minhas senhoras; não é história de almas do outro mundo, de trasgos, nem de duendes. É uma simples tradição nacional, ainda bem recente, e da nossa própria terra. Essa história eu a poderia intitular: História de uma Cabeça Histórica.”
A cabeça do Tiradentes, Bernardo Guimarães
 
 
I
Certamente a maioria das pessoas odeia ir ao dentista. Eliseu até que gostava: era uma das poucas situações em que o menino não precisava falar com quem estava com ele. Com aquele monte de ferramentas na boca, a sagrada obrigação de ser uma criatura social pertencia ao doutor.

– Com anestesia ou sem anestesia, Eliseu?

– Qual é o que dói menos? – disse o garoto com dificuldade, cuspindo na bata do médico.

– Possivelmente as duas doem do mesmo jeito...

Eliseu arregalou os olhos e antes que pudesse responder, o dentista puxou rapidamente o alicate da boca do garoto. Sangue espirrou para todos os lados, especialmente sobre o rosto do menino, que nem teve tempo de sentir dor. Delicadamente aquele doutor limpou o rosto de Eliseu, seu sorriso acalmando a perda do dente.

– Não é interessante, garoto, o funcionamento do corpo? Todo o fluido que corre nas nossas veias... O delicado fluxo do indivíduo? – disse o dentista.
Com a mão na boca, recuperando-se do trauma, Eliseu não conseguiu responder. O doutor riu e mudou de assunto, talvez pensando que o garoto pudesse não ter compreendido.

– É o meu último dia aqui, e você me dá sangue de presente, Eliseu... Vou demorar horas limpando este consultório.

– Você vai embora, doutor Joaquim? – Eliseu já se recuperava.

– Já chega deste lugar. Em tempos como estes a carreira militar é o melhor para um rapaz pobretão como eu. Seguirei patrulhando pelo Caminho Novo.

– Ser soldado deve ser emocionante... – disse Eliseu, levantando-se da cadeira.

– Tire essa ideia da cabeça, menino. Você é rico. Já deve ter uma cadeira na Universidade de Coimbra com seu nome. Você vai ser alguém na vida, não vai ser esquecido assim que morrer. Parece que quando falam de mim só dessa terrível alcunha que me botaram é que se lembram...

– Tiradentes, – um rapaz adentrou a sala gritando – já é hora!
Silvério, um rapaz comunicativo e bem mais novo que Tiradentes, invadiu o ambiente de forma expansiva, mexendo no material do dentista. Eliseu se incomodou com a liberdade do novo visitante, mas imaginou que ele poderia ser bem próximo ao doutor.

– Nosso trem parte logo.

– Calma, Silvério... Nunca vi alguém mais ansioso pela própria morte... Por que enfim é isso que procuramos na vida militar, correto? – disse Tiradentes, voltando-se para Eliseu.

– E o salário, Tiradentes... Esqueceu do polpudo salário que nossa maravilhosa coroa de Maria Louca nos proverá? – disse o jovem Silvério, sorrindo com seus dentes sujos e mal cuidados.

Tiradentes virou-se para Eliseu e tocou carinhosamente seu queixo:

– Preciso ir, menino. Quem sabe não nos encontramos por aí. Da próxima vez o doutor pode ser você... Um doutor de verdade, de diploma e tudo mais. Muito mais que um “arranca-dentes” minerador... Faça algo bom de sua vida, criança.
 
II
A Universidade de Coimbra era um ambiente com um quê selvagem. Entre nobres circulavam figuras exóticas, cabeças que pensavam à frente do seu tempo. Ou pelo menos assim achavam. Filho do Barão de Congonhas do Campo, Eliseu ganhara a oportunidade de viajar a Portugal, onde receberia educação formal superior. O jovem havia optado pelas ciências naturais como sua área de interesse.

– É um ramo interessante, Eliseu. Mas o que precisam na colônia é de engenheiros. Precisamos abrir estradas e canalizar os rios do Brasil selvagem! – um empolgado jovem, de cabelos ensebados e roupas bem passadas, declamou levantando-se da mesa, onde vários universitários congregavam.

– Eu certamente compreendo a sua exaltação, Luís Antônio. Mas desde criança me interessou entender a natureza, o funcionamento dos seres humanos... Na verdade, as ciências que me escolheram.

– Nunca deixe que sua paixão mande em você, Eliseu – de forma mais reservada, outro rapaz se manifestou. Francisco tinha o costume de posicionar-se com esse tipo de frase misteriosa – Conheço homens que perderam a razão aventurando-se em campos como a filosofia ou a lógica, desesperados pela verdade.

– A mim basta entender melhor o corpo humano, ir além da medicina – Eliseu apontou o próprio peito – Existem mais coisas nos guiando que se pode imaginar.
 
– Para alguns só um instrumento pode guiar o homem: o dinheiro. Nesse grupo se encaixa a realeza brasileira! – Luís Antônio esbravejava novamente, abrindo os braços em seu discurso – Nada mais minha família consegue tirar de ouro. Os impostos são vergonhosos. O tal do “quinto” é um ultraje! Agora peço que reflitam comigo: vejam o que aconteceu na França... Não cairia bem uma revolução no Brasil?!

– Se você quer a forca, Luís Antônio, deve gritar mais alto e fazer com que todos que passam pelo pátio da universidade lhe escutem... – disse Francisco.

Eliseu levantou-se da mesa e fez sinal de despedida aos amigos. Não tinha grandes interesses em revoltas ou política. Havia marcado para aquela tarde um encontro com um mestre na biblioteca. Durante a semana o professor João de Assis havia falado de um nobre estudante suíço, com ideias que, essas sim, poderiam revolucionar alguma coisa: o campo das ciências.

A biblioteca da Universidade de Coimbra era uma das maiores da Europa. Dezenas de fileiras de estantes criavam um labirinto ao qual Eliseu ainda não se habituara. Depois de alguns minutos circulando entre os escritos, o jovem encontrou seu mestre orientador, que estava junto de outros magistrados. Na roda, várias cabeças brancas, aparentando estarem seduzidos por um jovem de cabelos longos e negros que discursava com uma publicação de Paracelso na mão.

– Eliseu! Aguardávamos sua chegada ouvindo as incríveis proposições de nosso convidado. Permita-lhe apresentá-lo...

– Meus cumprimentos, Eliseu – o sotaque forte do jovem denunciava sua ascendência germânica. Mesmo assim, o domínio da língua portuguesa impressionava – Muito ouvi falar de você.

– O prazer é meu, senhor...

– Por favor... Apenas Victor. Não me chame pelo sobrenome, fazendo-me parecer velho, como os senhores aqui querem que eu pense que sou – apesar do tom sério, Victor esforçava-se para mostrar alguma simpatia.

– Ora, Victor, com suas ideias é difícil acreditar em sua pouca idade. É necessária uma vida inteira para pensar na mesma intensidade que você – o professor João parecia não se importar em bajular o convidado – Mas acredito que Eliseu adoraria ouvir um pouco dessas ideias enquanto tomamos um chá no refeitório da universidade.

– Seria um imenso prazer – disse Eliseu, já apontando a saída da biblioteca.

Durante uma tarde inteira, Eliseu e o professor ouviram Victor. Seu fascínio pelas leis da vida contagiava os ouvintes. Discursava sobre questões relacionadas ao conceito da abiogênese, a irreversibilidade da morte e ainda polêmicas relacionadas à alquimia, esta última perdendo espaço dia a dia para outras ciências do mundo moderno. Ao mesmo tempo em que falava, notava-se certa inconformação e olhar triste em seu semblante. Victor parecia fazer de seus estudos uma guerra particular.

– Acho que certas leis da vida talvez não possam ser revertidas... – Eliseu não conseguiu evitar pensar em voz alta.

– Ora, nobre colega, cada descoberta que o homem fez nos últimos anos partiu de um questionamento, de uma impossibilidade. Sei que muitas das minhas ideias tiram o sono de religiosos... – disse Victor com um pequeno sinal de irritação – Sei bem como Galileu se sentiu quando expôs sua teoria sobre o sol no centro do universo, os preconceitos e superstições que barraram suas descobertas.

– Quando pensar no sol, Victor, não se lembre de Galileu: lembre-se de Dédalo e Ícaro. Ou ainda de Prometeu – o professor João deu um curto sorriso ao final dessa afirmação. A ironia foi captada imediatamente pelo convidado, que pareceu incomodado.

– Hum. Acho que devo voltar à Suíça. Minha viagem a Portugal, ao que parece, não deve trazer grandes frutos. Auf Wiedersehen, senhores.
Victor levantou-se do seu banco, fez um cumprimento da forma mais educada que pôde e não aguardou a resposta dos seus ouvintes. Aquela discussão ainda ecoaria na cabeça de Eliseu por alguns dias.
 
III
A cansativa viagem de navio de volta ao Brasil estava finalmente acabada. Eliseu foi recebido pelos pais de forma efusiva. Junto deles, Elisabete, antes uma amiga de infância barulhenta e típica garotinha rica, agora uma bela dama de família nobre e quem se insistia dizer ser a melhor pretendente para o jovem recém-chegado.

– Meus cumprimentos, meus pais. Senhorita Elisabete... – Eliseu fez uma pequena reverência.

– Vejam se não é o novo médico da família! – o pai de Eliseu abraçava-o desengonçadamente.

– Estudei ciências naturais, meu pai... Acredito que “cientista” seja mais adequado.

– Não complique, meu filho... Estávamos ansiosos por sua volta. A jovem Elisabete não parava de falar em você durante esses anos – finalizava a mãe de Eliseu, transformando a situação na mais desconfortável possível.

Na carruagem que levava a família inteira ao lar, o pai de Eliseu o inteirava sobre as novidades na colônia. Percebia-se certo clima tenso nas ruas de Vila Rica.

– Depois dos franceses, deu nos jovens brasileiros de separar nossa capitania do restante do Brasil... Não que eu esteja satisfeito com a coroa... Continuam taxando o ouro até que pouco sobre a quem o minera. Mas, mais do que a gravata-borboleta, a forca parece ser o adereço de pescoço na moda no momento. Certos pensamentos não podem fazer as pessoas perderem a cabeça... Se é que você me entende, filho...

– Não se falava em outra coisa na universidade, pai.

– Enfim, vários foram presos. Alguns devem ser soltos. Têm suas costas largas, pertencem a cultos que vão além dos poderes da realeza... No entanto haverá aqueles que serão exemplos, que não devem escapar da punição. Inclusive, entre os presos, há alguém que talvez você conheça... Fazia bicos cuidando dos dentes da nobreza da cidade...
 
– Doutor Joaquim! – Eliseu não conseguiu esconder a surpresa.

– Por aqui era conhecido pelo apelido de “Tiradentes”... Andou se envolvendo em confusões no Rio de Janeiro. Está preso junto com outros de sua laia.

Eliseu pareceu sentido por não poder fazer algo a respeito. Imaginar que o doutor lutava pelos direitos da população fazia Eliseu nutrir algum respeito por ele, talvez nem tenha percebido a contaminação com essas ideias no ensino superior.

Já em sua casa, Eliseu continuava os estudos. Andava um pouco perturbado nos últimos meses: havia chegado a uma encruzilhada. Incomodava a ideia de não ir além das conclusões dos autores que estudava. Às vezes pensava não ter o estímulo certo, a inspiração adequada para encontrar novas conclusões. Tentava colocar os pensamentos em ordem quando ouviu a porta bater.

– Eliseu! A senhorita Elisabete o aguarda na sala de jantar! – a voz empolgada da mãe de Eliseu do lado de fora do quarto machucava seus tímpanos.

Foi encontrar-se com a jovem senhorita na sala de casa. Por mais bela que fosse a convidada, Elisabete com certeza não era das companhias mais interessantes no momento. Acostumado com as rodas calorosas de debates científicos, assuntos cotidianos como a vida social da burguesia ou o último romance de Castelo Branco não eram interessantes o suficiente para afastar os pensamentos de Eliseu de seu trabalho, um tratado que questionava as bases da biogênese. A sineta na porta de entrada da casa salvou o jovem de uma estafante descrição dos desenhos bordados no vestido mais novo da rainha.

Um empregado entregou um grande pacote a Eliseu.

Ao ver o nome do remetente, os olhos de Eliseu brilharam. Pediu licença à Elisabete, já se desculpando, afirmando ter de ir ao banheiro tratar de “assuntos naturais”. A garota sorriu e disse voltar em outra hora, recomendando a leitura de um bom romance à toalete, caso o intestino resolvesse não “trabalhar” de forma adequada.

Eliseu bateu com força a porta de seu quarto, trancando-o. Verificou mais uma vez o nome do remetente no envelope. Dentro dele um calhamaço de papel com uma série de estudos e o que parecia ser um diário. Um sucinto bilhete completava o pacote:

“Prezado colega, por vários momentos ensaiei jogar esse material à lareira. No entanto o conhecimento é um presente sem valor, se você não pode compartilhá-lo com alguém. Ao tempo que sigo na minha jornada moral final, procurando expiar meus pecados, deixo-lhe que analise todas as minhas descobertas. Sinto que esteve certo no nosso encontro e peço-lhe para que tome as providências adequadas para com este estudo. Peço perdão pela rudeza em minha despedida e espero que essa correspondência forneça o final adequado à nossa relação. Atenciosamente, Victor”.
 
IV
O decreto de condenação de Tiradentes à forca era o assunto da cidade. Eliseu recebeu a notícia com tristeza. Mas não pensou sobre isso durante muito tempo. No último ano a evolução de seu estudo foi notável. Nada seria possível sem as anotações de Victor, a quem o jovem cientista tinha enviado diversas correspondências sem obter nenhum retorno, como se o suíço tivesse desaparecido da face da Terra. De qualquer forma aquele parecia um caminho sem volta. Logo contestaria a teoria da biogênese. Eliseu sentiu que em breve criaria a vida em laboratório, por meios próprios.

Diariamente o jovem cientista visitava o necrotério da cidade, onde lhe eram permitidas autópsias em escravos e indigentes. Passava horas debruçado sobre os corpos recém mortos, exercitando o solve et coagula. Demorou a acreditar que Victor havia encontrado suas respostas em textos alquímicos, que uma prática antiga e obscura derrotaria as ciências naturais. Não apenas isso: suas descobertas poderiam oferecer uma derrota à própria morte.

No exato momento em que separava a cabeça de um velho negro morto, Eliseu ouviu barulhinhos agudos, como saltos finos, acertando o chão de madeira às suas costas.

– Eu... Eu... Poderia falar com você, Eliseu...? Lá fora, por favor! – enojada com a cena com que se deparava, Elisabete tinha um lenço cobrindo nariz e boca e nem esperou o jovem responder para sair da sala de autópsia.

Eliseu não parecia satisfeito pela interrupção de seu trabalho, mas as obrigações sociais, às quais ele ainda se sentia apegado, fizeram-no acompanhar à moça a calçada.

– Há uma semana espero algum comunicado seu, Eliseu! Você prometeu me levar ao teatro... – a jovem parecia indignada.

– Estou numa fase crucial da pesquisa, Elisabete. Sempre existem grandes peças em cartaz. Sei que a senhorita pode aguardar mais algumas semanas...

– Creio não ser possível, caro senhor. Caso não apareça pela noite em minha residência serei obrigada a aceitar o convite do nobre bancário da cidade.

– Pode ser que apareça, cara dama. Se conseguir executar meu experimento a tempo...

– Você foi avisado, Eliseu. Até mais ver. – Elisabete deu às costas, fazendo seu vestido serpentear no chão de terra batida como o rabo de um camaleão.

O jovem cientista retornou ao seu experimento não parecendo se importar com a ameaça da moça. Estava justamente testando a peça final de seu quebra-cabeça. Não poderia haver distrações. No entanto, Eliseu decepcionou-se ao ver que a cabeça do autopsiado era incompatível com seus planos. Teria que esperar um novo corpo, nas condições ideais, chegar ao necrotério.

Ansioso, Eliseu retornou à sua residência. Não almoçou e nem jantou. Foi direto ao seu quarto e folheou o diário de Victor, tentando conter sua agitação. O tom de horror que a narrativa do estudioso suíço tomava ao final dos escritos não impressionava mais o jovem cientista. Interessava-lhe muito mais emular o experimento do colega implantando algumas de suas próprias considerações. Mal tinha deitado na cama, quando ouviu um estardalhaço na rua. Um verdadeiro carnaval tomava conta da cidade. À frente do batalhão real, traziam a cabeça de Tiradentes.
 
V
Aquela noite parecia mais escura do que as outras. Na Praça de Santa Quitéria, um sentinela do império se esforçava para dormir. A imagem daquela cabeça numa estaca, que ele tinha a missão de vigiar, assombrava seu sono. Do outro lado da rua, esgueirando-se pelas esquinas de Vila Rica, o padre Manuel da Silva Gatto aproximava-se do soldado adormecido com uma vara. O religioso acreditava que aquela cena macabra subvertia não só os valores morais da cidade, mas também os ideais de liberdade em que ele acreditava. A densa neblina o ajudaria a furtar a cabeça daquele que ele acreditava ser um honrado herói, um mártir de uma capitania livre. Ou, quem sabe, até país livre.

A densa neblina da madrugada prejudicava a visão do padre, que, de longe, espetava a vara em direção à estaca que prendia a cabeça de Tiradentes. Mesmo sem enxergar o alvo, Gatto tentou diversas vezes, até perceber, num momento em que a neblina lhe possibilitou alguma visão, que a cabeça não estava mais lá. Assustado, fugiu ao perceber que o sentinela estava despertando. O soldado real surpreendeu-se com a estaca vazia e tratou de preparar a melhor desculpa que tinha para justificar o roubo.
 
Eliseu corria o mais rápido que podia até o necrotério, olhando para os lados de forma desconfiada. Dentro do saco de tecido, a cabeça de Tiradentes parecia conservada, provavelmente pela salmoura a que ela tinha sido submetida. Uma superstição para torná-la infértil, mas que veio muito a calhar.

O quebra-cabeça estava montado, todos os procedimentos pareciam estar em ordem. A cabeça foi conectada ao grande mosaico humano criado por Eliseu. Seguindo passo a passo as anotações de Victor, Eliseu aguardou. Primeiro alguns minutos. Depois uma hora. Uma decepção pareceu tomar-lhe, pois nada acontecia.
 
– Não! Não pode ser! Levanta, criatura! – Eliseu enfurecia-se enquanto batia no peito do ser que ele havia criado. Primeiro lentamente, depois raivosamente.

Num movimento brusco, a criatura ergueu-se com um urro grave. Assustado, o jovem cientista caiu ao pé da parede. Durante alguns segundos apenas observou o ser formado por diversos pedaços humanos sentado sobre sua mesa. Olhando em volta da sala, a criatura percebeu Eliseu.

– Eli... Zeu... Garoto...

Um choque subiu pela espinha de Eliseu. Aquilo poderia ser a maior descoberta científica da humanidade, mas a macabra lembrança que aquele mosaico humano tinha o perturbava.

– Você... Ainda me conhece... É você, Tiradentes?

– Tiradentes está morto... Eu estava lá... Eu era ele... – o ser agora articulava de forma impressionante, o que acelerava os batimentos cardíacos de Eliseu.

Levantando-se da mesa, o ser caminhou até o cientista e ajoelhou-se perante seu criador, encarando-o face a face.

– Por quê? Por que você me trouxe de volta?

– Qualquer um gostaria de ter uma segunda chance... Pela cidade você é conhecido como um herói! E ainda mais: você agora é a prova de que não é apenas Deus que pode criar a vida!

O ser segurou Eliseu pelos ombros agressivamente.

– Você pensa que é Deus?! É por isso que me trouxe de volta? Acha que eu queria estar aqui? Eu não mereço mais viver! Nem muito menos ser chamado de... herói! Você não sabe o que eu passei... Nos três anos que fiquei preso... fui torturado diariamente. Espremiam-me por qualquer informação... Entreguei cada revolucionário de Vila Rica... da mesma forma que Silvério me entregou à coroa. A revolução é uma grande ilusão... E eu fui só um maldito peão.

A criatura levantou-se e circulou pela sala. Olhou para si mesmo várias vezes. Chorou. Agitado, começou a correr pela sala quebrando todas as coisas que encontrava. Eliseu deixou o canto da parede e tentou aproximar-se de sua caixa de ferramentas. A criatura parecia não se importar mais com ele.

O jovem não sabia como proceder. Estava diante de sua maior descoberta. Do fim da encruzilhada. Mas encarava uma criatura incompleta, incapaz de perceber sua própria importância. Um ser danificado como qualquer ser humano normal. Eliseu aproximou-se de um bisturi que estava à sua frente.
 
– Você não tinha o direito! Minha morte foi uma condenação por meus erros! – o ser gritava agora sem nenhuma reserva.

Eliseu começou a se preocupar com o alarde que ele fazia. Logo haveria guardas à sua porta.

– Acalme-se, doutor... Você precisa entender o que você se tornou... – com a mão que levava o bisturi escondida em suas costas, o cientista tentou aproximar-se da criatura.

Por um momento, o ser se acalmou. Baixou a cabeça e começou a gargalhar insanamente.

– É irônico, garoto. Devo-lhe algo! E ainda lembro o que você me deu na última vez que nos vemos: SANGUE!

O ser pulou sobre Eliseu, e um confronto se deu sobre a mesa. Durante alguns minutos o cientista tentava, em vão, acertar o bisturi na criatura. Jogando-o com força sobre a parede, o amargurado ser desarmou o jovem. Eliseu mal pôde ver quando a criatura quebrou o recipiente de uma lamparina sobre si mesmo. O combustível começou a queimar o seu próprio corpo, enquanto o ser gargalhava de prazer.

– É o que acontece quando você chega perto demais de Deus, garoto... – em chamas, o ser pulou sobre Eliseu.

Tentando desvencilhar-se do monstro, Eliseu sentia seu corpo queimar. Ao mesmo tempo, toda a sala parecia incendiar-se com os resíduos do combustível. Criatura e criador pararam de respirar quase ao mesmo tempo.
 
VI
No dia seguinte, uma parte da população de Vila Rica comentava o incêndio no necrotério. Pouco sobrara da sala de autópsia. Ferramentas derretidas e anotações queimadas, entre elas um velho diário, pilhavam-se ao lado de dois corpos fundidos e irreconhecíveis no meio da sala. Mas naquele momento o assunto que incomodava a maior parte dos cidadãos da vila era o desaparecimento da cabeça de Tiradentes.
 
“Portanto condenam o réu Joaquim José da Silva Xavier, por alcunha o Tiradentes, alferes que foi do Regimento pago da Capitania de Minas, a que, com baraço e pregão seja conduzido pelas ruas públicas ao lugar da forca, e nela morra morte natural para sempre, e que depois de morto lhe seja cortada a cabeça e levada a Vila Rica, onde no lugar mais público dela, será pregada em um poste alto, até que o tempo a consuma, e o seu corpo será dividido em quatro quartos, e pregados em postes, pelo caminho de Minas, no sítio da Varginha e das Cebolas, onde o réu teve as suas infames práticas, e os mais nos sítios das maiores povoações, até que o tempo também os consuma, declaram o réu infame, e seus filhos e netos tendo-os, e os seus bens aplicam para o Fisco e Câmara Real, e a casa em que vivia em Vila Rica será arrasada e salgada, para que nunca mais no chão se edifique, e não sendo própria será avaliada e paga a seu dono pelos bens confiscados, e mesmo chão se levantará um padrão pelo qual se conserve em memória a infâmia deste abominável réu; [...]”
Sentença proferida contra Tiradentes em virtude do levante e conjuração de Minas Gerais
 
 
“De pena algumas lágrimas verteram,
Mas resignados logo as enxugaram.

 
Diante deles estava inteiro o Mundo
Para, a seu gosto, habitação tomarem,
E tinham por seu guia a Providência.

 
Dando-se as mãos os pais da humana prole,
Vagarosos lá vão com passo errante

Afastando-se do Éden, solitários.”
Paraíso Perdido, John Milton

30 de março de 2020

O amor nos tempos da pandemia (Lista do Zé #29)



Olá, olá!

O negócio tá meio assustador, eu admito. Nesta segunda-feira (30/03), completei 15 dias em quarentena na minha casa. O coronavírus desafia nossa lógica social. Ao mesmo tempo, esse tempo enfurnado com minha esposa e filhas me fez valorizar algumas pequenas coisas da correria diária, talvez por que é uma característica minha ver o lado bom desse tipo de situação. Ainda não sei como serão as próximas semanas, mas no geral temos conseguido passar muito bem por esse momento aqui em casa, com as crianças aproveitando como nunca essa aproximação familiar. Há coisas negativas? Ô, se há. Não dá pra ignorar os fatores econômicos, que a gente aqui em casa também vai sentir. Mas, ainda assim, tenho a convicção de que ficar em casa é a melhor opção no momento. Vamos ter que pensar nas consequências financeiras no momento seguinte, infelizmente. Pra você que lê esse texto, caso tenha condições, avalie apoiar iniciativas na sua comunidade para diminuir os impactos daquelas pessoas que não tem os privilégios que nós temos. E proteja seus pais e avós. Isso tá próximo de acabar, eu sinto isso. Infelizmente, não são muitas as coisas que eu posso fazer para conter o avanço da doença. Sendo assim, vou contribuir da forma que sei: com conteúdo. Pretendo aumentar os textos da minha lista de e-mails nas próximas semanas, pra começar.



Além disso, pra esse período de isolamento social, junto com uma galera dos quadrinhos brasileiros, criei uma iniciativa que disponibiliza quase duas centenas (e subindo) de obras nacionais para leitura gratuita no site bit.ly/hqsnaquarentena. Aproveitem, por que este material estará disponível para download somente enquanto durar o período de isolamento social. E, se curtirem os trabalhos, sigam os autores nas redes sociais e considerem comprar material deles, afinal vai ser um ano muito difícil pra gente, com poucos eventos e muitas livrarias e comic shops fechadas.

Pra essa iniciativa, disponibilizei meu quadrinho Interlúdio. Lançamos esse quadrinho online em 2008, como parte do segundo EP da minha banda Sobre o Fim (tem uma parte da história dessa publicação aqui). É uma HQ curtinha, sobre teoria do caos, desenhada pelos amigos Silvio Romero, Camila Nágila, André Pinheiro e Demétrio Braga, e que inclusive foi indicada ao Troféu HQMIX na época.

Além disso, como uma pequena contribuição na vida das pessoas nesse momento, estou articulando algumas lives com amigos no Instagram, que devem começar a acontecer já nesta semana. Vão ser vários assuntos, mas principalmente dicas sobre produção de quadrinhos e indicações de quadrinhos, música, livros e filmes. Sigam o meu perfil (@zewellington) e fiquem atentos às divulgações que vão sair por lá.

https://www.zewellington.com/p/combos.html


Outra novidade é a volta às prateleiras da minha primeira graphic novel, Quem Matou João Ninguém?, que pode ser adquiridas no site da Editora Draco, na Amazon ou diretamente comigo.

Por falar em pegar comigo, montei alguns combos com meus quadrinhos e promocionalmente estarei vendendo com frete grátis para todo o Brasil. Meu compromisso com meus leitores sempre foi de divulgar os lugares mais em conta onde comprar minhas HQs, não seria diferente neste momento econômico mais complicado, então eu tenho que dizer que sai bem mais barato comprá-las pela Amazon (com pouco mais de R$ 70,00 você consegue comprar juntas Quem Matou João Ninguém?, Cangaço Overdrive e Steampunk Ladies: Choque do Futuro). Mesmo assim, listei três motivos para comprar diretamente comigo:

1⃣ em todos os combos comprados comigo vão brindes (adesivo ou pôster A3 ou ambos nos combos a partir de três livros). E, se o comprador quiser, tem também dedicatória com seu nome nos livros.
2⃣ Steampunk Ladies: Vingança a Vapor, o primeiro volume da série, está esgotado na maior parte das livrarias, incluindo a Amazon. Tenho comigo alguns exemplares resgatados de comic shop (e que estão esgotando rapidamente).
3⃣ por que você ajuda a desaguar meu estoque de quadrinhos, que eu esperava baixar nos eventos cancelados neste semestre.

O link para a compra dos combos é facinho: bit.ly/zwcombos

E a vida segue. Se quiser precisar de alguém para conversar, responde este e-mail que ele chega direto na minha caixa de entrada.

Fique em casa e cuide da sua família.

13 de fevereiro de 2020

Roteirista de quadrinhos no Brasil? (Lista do Zé #28)



Olá, olá!

Ano passado completei 15 anos nesta vida de histórias em quadrinhos, mais especificamente como roteirista. Nos últimos tempos tenho recebido diversas dúvidas de outros colegas iniciando nesta atividade e pensei que poderia ser legal escrever sobre esses anseios. É bom destacar que, mesmo debutante na atividade, ainda estou aprendendo sobre ela e sobre o mercado, então as 7 perguntas que eu respondi abaixo são mais relacionadas à minha visão como roteirista.

Mas antes... Preciso dizer que meus dois últimos quadrinhos estão com um descontaço na Amazon (juntos saem por menos de 50 mangos):
Aproveitem, por que os preços podem voltar ao normal a qualquer momento!

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Tem que ser meio DOIDO para encarar uma carreira de roteirista de quadrinhos no Brasil (ou amar quadrinhos e não ter disposição para aprender a desenhar). Tem, sim, um montão de gente no país fazendo roteiro para HQ (e muito bem), mas as funções ligadas a desenho são bem mais populares. Saber desenhar realmente é uma mão na roda para contar histórias em forma de quadrinhos, ao mesmo tempo que não dispor dessa habilidade vai dificultar um pouquinho (mas não tornar impossível) a vida do pretenso quadrinista.

Escrevi meus primeiros textos ainda na adolescência. Os quadrinhos entraram na minha vida bem depois da literatura (que ainda é presente na minha vida, mas com muito menos intensidade). Minhas primeiras tentativas de fazer quadrinho vieram durante a explosão dos animes no Brasil, lá quando Os Cavaleiros do Zodíaco chegaram por aqui. Foi quando descobri também que é necessária muita dedicação para ser um bom desenhista. Mas, já na adolescência, eu era um multifazedor-de-coisas e vi que não dava para aprender a desenhar, aprender a tocar violão, organizar eventos, passar no vestibular etc. ao mesmo tempo. Durante um curso de cinema me dei conta que os roteiros poderiam ser um melhor caminho para mim. E assim vem sendo.

Separei abaixo algumas das principais perguntas que recebo sobre esta função. Elas podem ser um guia para as pessoas que pretendem se jogar nesta maluquice.

1. Um roteirista é aquele cara que faz as letrinhas das histórias?
Por mais boba que essa pergunta possa parecer, eu me sinto na obrigação de começar por ela. Quem faz as letrinhas nos quadrinhos é um profissional importantíssimo chamado letrista (nos meus últimos quadrinhos, tive o privilégio de contar com o incrível Deyvison Manes na função). Para letreirizar a HQ, o letrista utiliza o roteiro, essa, sim, a peça fundamental do trabalho do roteirista. O roteiro é um documento que guia a criação das histórias em quadrinhos. Não existe um formato pré-definido para ele, pesquisando pela internet você vai encontrar modelos diferentes. Embora a maioria dos roteiristas escreva um texto descrevendo o que quer que seja desenhado, há colegas que desenham seus roteiros, como se fosse um esboço da história em quadrinhos (é assim que são feitos os roteiros da Turma da Mônica). Coloquei um trechinho do roteiro de Cangaço Overdrive neste link, para quem tiver curiosidade em ver como são os meus. Ah, embora não seja função do roteirista letreirizar sua HQ, é bem interessante ele ter noções sobre esta função (dica para a vida).

2. Como consigo pessoas para desenhar meus roteiros?
Essa é a pergunta que mais recebo no inbox do meu Instagram. Para um roteirista iniciante, é um desafio absurdo convencer um bom desenhista a desenvolver seus primeiros roteiros. As sugestões que eu daria seriam as seguintes: A) comece com roteiros de histórias curtas (entre 4 e 12 páginas) e B) tente juntar outras pessoas que querem fazer quadrinhos e proponha trabalhos coletivos. Sobre a letra A, leve em consideração que desenhar quadrinhos é uma coisa demorada e que pode levar tempo. Histórias curtas aumentam as chances de um desenhista se interessar e de aquele seu roteiro realmente ser desenhado até o final. Sobre a B, vou contar um segredinho para vocês.... Quando me dei conta que queria ser roteirista, me vi sob essa problemática. Minha primeira ação foi criar um grupo de estudo na minha cidade, o que atraiu vários quadrinistas (a maioria desenhistas). Criamos um fanzine chamado Gattai Zine, onde publicávamos trabalhos curtinhos, misturando as pessoas do grupo. Bum! Dois coelhos com uma cajadada só. Se mesmo assim tiver dificuldades, talvez seja melhor se matricular em aulas de desenho... ou botar a cabeça para funcionar e pensar em alternativas, como fez o Marcelo Saravá no incrível 1000 Palavras, coletânea de tirinhas apenas com textos (conheça aqui). Ah, mesmo já tendo algum reconhecimento, até hoje ainda é um desafio para mim encontrar parceiros. Tanto que nos meus últimos quadrinhos eu busquei apoio de editais para conseguir pagar todos os envolvidos (falei sobre isso neste texto).

3. Você vive disso?
Hoje sim, mas não apenas disso. Tenho outras duas profissões (sou professor universitário e consultor na área de marketing). Vale dizer que nos primeiros 10 anos como roteirista/quadrinista EU MAIS GASTEI DO QUE GANHEI ALGUMA COISA. Lembro que 50% da cota dos meus exemplares de Quem Matou João Ninguém? (que lancei em 2014) enviei para a imprensa e influenciadores do meio. Felizmente, naquela época eu podia fazer isso (hoje já não tenho como). Como qualquer profissão ligada à arte, é preciso tempo e muito trabalho para estabelecer uma carreira. E, vale dizer, dentro das minhas receitas como roteirista, talvez uns 30% sejam com venda de quadrinhos. Os outros 70% vêm de participações em eventos, palestras, cursos e serviços relacionados. Conversando com outras pessoas no meio, percebi que isso é meio que bem comum.

4. Roteirista de HQ no interior do Ceará... Como é isso?
Difícil pra caralho. Nem queira saber. E olha que tenho um monte de privilégios como o homem branco que sou (nem consigo imaginar como é para quem não tem). Eu entendo (mas fico triste com) o monte de gente que desiste no meio do caminho ou acaba debandando para outras áreas, como cinema e literatura.

5. Indica livros?
Infelizmente tem pouca coisa impressa especificamente sobre roteiro para quadrinhos. Tem um material que a Opera Graphica lançou no Brasil (e que é difícil de encontrar hoje) chamado Guia Oficial DC Comics – Roteiros, escrito pelo grande Dennis O’Neil, que é um dos mais completos que já li. O primeiro material que tive acesso foi um e-book do Gian Danton, que é bem simples, mas me ajudou bastante (não é à toa que convidei o Gian para o prefácio de Quem Matou João Ninguém?). Tem alguma coisa sobre roteiro nos ótimos livros do Scott Mccloud, sendo o Desenhando Quadrinhos o meu favorito: o nome em português pode enganar (no original é Making Comics), mas ele trata de todas as etapas do processo. Tenho lido materiais de outras linguagens, que também ajudam bastante. Um dos livros que mais estudo e consulto é o Story, do Robert McKee (que é voltado para o roteiro de cinema). Tenho aqui, lá no fundo do meu coração, alimentado a ideia de escrever um pequeno manual... Quem sabe?

6. Pode ler meu roteiro e dar uma opinião?
Taí uma coisa que me perguntam muito... Fico lisonjeado quando alguém me pede uma opinião sobre algo que escreveu. Mas fazer isso é uma questão muito complexa. Primeiro, ler um texto ainda não publicado gera um certo comprometimento com aquela ideia original. Se futuramente alguma história minha apresentar algum elemento similar ao conceito que o colega me enviou, ele pode entender que eu o estou plagiando. Segundo, alguém pode ficar surpreso com isso, mas LER ROTEIROS LEVA TEMPO. Tem gente que fica até chateado quando eu digo isso, mas é importante frisar que há quem preste este tipo de serviço, conhecido como revisão crítica, e dá um trabalho danado. E, mesmo que não desse, nesta minha vida de pai do Chris, com três empregos, é muito complicado conseguir arrumar tempo para algo assim. Nem mesmo quando me pedem como serviço pago eu costumo atender. Só faço isso em situações muito especiais. Então, quando fizer este pedido para algum roteirista ou escritor, entenda se ele lhe der um respeitoso "não". Se precisar deste tipo de serviço, recomendo essa relação de prestadores levantada pelo Rodrigo Van Kampen.

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30 de janeiro de 2020

Criando quadrinhos no Brasil (Lista do Zé #27)

https://open.spotify.com/episode/2FissmQ0He4qjx2zLLKFNm?si=uLEiGS2JS3i4YUwYZVONEw


Primeiramente: Feliz Dia do Quadrinho Nacional! Nós, que fazemos quadrinhos no Brasil, comemoramos esta data todo dia 30 de janeiro, em alusão à data da publicação do que se considera a primeira história em quadrinhos do Brasil, As aventuras de Nhô-Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte, de Angelo Agostini. Isso aconteceu em 1869.

Escolhi o dia de hoje para publicar um podcast onde converso com boa parte da equipe envolvida em Steampunk Ladies: Choque do Futuro. Falamos sobre como eles atuam no mercado, se vivem de fazer quadrinhos e ainda se quadrinhos e política são uma boa mistura. O programa é um prato cheio pros curiosos e, principalmente, pra quem quer entrar no mercado de quadrinhos. Dá pra escutar nos links abaixo:

Tá liberado compartilhar nas redes sociais e prestigiar essa galera que tá na labuta diária!

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O primeiro evento de lançamento de Steampunk Ladies: Choque do Futuro acontecerá no próximo sábado (01/02), em Fortaleza, durante a Feira Livre de Quadrinhos, que nesta edição acontecerá no Centro Universitário Farias Brito (R. Castro Monte, 1364 - bairro Varjota). O evento começa ao meio dia e o painel de lançamento será às 14h. Terei o prazer de dividir o momento com a querida Brendda Maria e o incrível Paulo Moreira. Meu amigo Rildon Oliver fará a moderação. Conto com a presença dos amigos de Fortaleza!


Querendo compras meus quadrinhos? Vai no site da Editora Draco ou peça o seu na Amazon (e se já tem, não esqueça de avaliar):
Informações em tempo real lá no meu Instagram: instagram.com/zewellington
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Leia mais quadrinhos nacionais!

18 de novembro de 2019

Subversão londrina (Lista do Zé #26)



Está valendo! Já está à venda o meu novo quadrinho, Steampunk Ladies: Choque do futuro, nos links abaixo:
Agora é hora de falar um pouco mais sobre o quadrinho!

Subversão londrina

 Sue e Rabiosa unem-se às sufragistas na Inglaterra do século XIX para impedir que tecnologias avançadas sejam usadas contra o resto do mundo. É uma nova aventura das personagens que surgiram em Steampunk Ladies: Vingança a vapor (2015), o livro que me deu o Troféu HQMIX na categoria "Novo Talento Roteirista". Este volume tem desenhos de Sara Prado, Wilton Santos e Leonardo Pinheiro, cores de Ellis Carlos, Ale Starling e Thyago Brandão (com contribuição da Mariane Gusmão) e letras de Deyvison Manes. Tivemos a honra de contar ainda com prefácio da Lívia Stevaux (MinasNerds) e posfácio da Dana Guedes (escritora e entusiasta steampunk). A edição ficou a cargo novamente do sensacional time da Editora Draco. Este projeto é apoiado pela Secretaria Estadual da Cultura do Governo do Estado do Ceará - Lei nº 13.811, de 20 de agosto de 2006.

Originalmente, Steampunk Ladies: Choque do futuro deveria ter sido lançado no ano passado, mas tive que engatar uma marcha mais lenta na reta final dele para conseguir finalizar e lançar adequadamente Cangaço Overdrive. É uma continuação de Steampunk Ladies: Vingança a vapor. Tenho sentimentos bem variados este primeiro volume e cheguei a pensar em não continuar essa história, que comecei lá em 2015 (um pouco antes na verdade). Os detalhes vão ficar guardados nos cofres da memória, o que importa é que se trata de um quadrinho protagonizado por mulheres e bem próximo do lançamento de "Vingança a vapor" eu comecei a duvidar que tínhamos feito um trabalho que respeitasse esse conceito principal. Nem cheguei a fazer um lançamento propriamente dito do livro. Enfim, como eu acredito que só quem pode responder se fizemos ou não um trabalho adequado são as mulheres que leram o quadrinho, penso que na balança o saldo foi positivo, já que a maioria das respostas foi muito boa. O fato é que eu sentia que num segundo volume muitas coisas deveriam mudar.

Há uma mudança brusca no tom deste novo quadrinho em comparação ao anterior. Parte disso está relacionado com o deslocamento do cenário do Velho Oeste Americano para a Inglaterra Vitoriana, mas as coisas vão bem além disso. "Choque do futuro", de alguma forma, reflete as modificações pelas quais o país e este escritor que vos fala passaram nos últimos quatro anos. O principal antagonista da história luta principalmente contra uma mudança no status quo, o que permitiria que o time de protagonistas (agora mais do que duas!) participasse no mundo moderno que se forma no universo de Steampunk Ladies. Não sei se vocês vão curtir esta aventura, mas pelo menos sei que o coração dela está apontado na direção certa.

Pode ser uma experiência mais legal ler os volumes em sequência, mas adianto que não é necessário ler o primeiro volume para entender o segundo. Pode até ser interessante inverter a ordem das histórias, começando com este segundo e entendendo o primeiro volume como um prequel (se Star Wars pode ter várias formas de ver sua cronologia, eu também posso). De qualquer forma, quem quiser adquirir esta nova edição já pode clicar aqui e comprar no site da Editora Draco. Para quem estará na CCXP - Comic Con Experience, que acontece de 5 a 8 de dezembro em São Paulo, pode pegar diretamente comigo na MESA F08 da Artists' Alley.


 


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Por falar em CCXP, no evento estarei dividindo mesa com o ilustrador Jon Bosco (conheçam o incrível trabalho dele!). Além de Steampunk Ladies: Choque do futuro (que será lançada no evento), ainda vou estar com Cangaço Overdrive e mais um monte de coisinhas (prints com as capas dos meus quadrinhos, coletâneas que participei, cordéis etc.). Pra quem é de fora do Ceará, é uma oportunidade única de bater um papo comigo e conseguir uma dedicatória em um dos meus trabalhos.


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E se ano passado eu cheguei em SP direto para a CCXP, dessa vez eu consegui me organizar para estar por lá um pouco mais cedo. Um dos grandes motivos é o Draco Spirit Fest, aniversário de 10 anos da Editora Draco, minha casa editorial desde 2013. Vai ser uma celebração ao #dracospirit, com direito a show do meu conterrâneo Jonnata Doll, um dos grandes nomes da música indie brasileira atual. Vai ser no dia 30 de novembro (sábado), a partir das 17h, no Sebo Clepsidra (Loja 2).


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Outra novidade é que volto mais uma vez para uma oficina de férias no Estúdio Daniel Brandão (em Fortaleza). Dessa vez, o tema será "Narrativa da Escrita" e o objetivo é discutir temas referentes à criação de histórias nas mais diversas mídias (focando um pouquinho nas histórias em quadrinhos). A oficina é parte do programa "As Artes Narrativas", que ainda terá as oficinas "Narrativa do Desenho" (com Daniel Brandão) e "Narrativa das Cores" (com Juliana Rabelo). A minha oficina é logo na segunda semana de 2020 (6 a 10 de janeiro, para ser mais exato), o que é massa para quem vai colocar nas resoluções de ano novo escrever um livro ou produzir uma HQ. Você pode fazer uma oficina só ou fazer todas e aproveitar um desconto na inscrição. Inscrições e mais informações pelo e-mail estudiodanielbrandao@gmail.com ou pelo telefone (85) 3264.0051. As aulas serão presenciais na sede do estúdio, na Torre Empresarial Del Passeo (Av. Santos Dumont).



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8 de outubro de 2019

Fomos indicados ao Prêmio Jabuti! (Lista do Zé #25)


Olá, olá!

Cangaço Overdrive é um dos 10 finalistas na categoria História em Quadrinhos do Prêmio Jabuti, a maior premiação literária do Brasil. Só assim para eu tirar as teias de aranha dessa lista de e-mail. Juro que tentei várias vezes, em vão, sentar e pensar no meu texto #25, que a princípio seria lançado no dia 22 de agosto, em comemoração ao Dia do Folclore, com indicações de obras nacionais que exploravam temas brasileiros. Mas isso vai ficar pra próxima, por que eu fui indicado ao Prêmio Jabuti, porra! Tô bem feliz.

E é meio maluco, por que muitas coisas rolaram nesses últimos meses no cenário fantasista nacional e, sei lá, talvez tudo esteja ligado. Em agosto, estive em dois eventos literários: na Flipelô (em Salvador) e na Bienal do Livro do Ceará (que rolou em Fortaleza). Na Bahia, estive numa mesa com o quadrinista baiano Hugo Canuto (criador do quadrinho Contos dos Orixás) e em Fortaleza estive com o escritor potiguar Marcio Benjamin (especialista em terror com elementos nordestinos, autor do recém lançado Agouro) e ainda com o podcaster Rildon Oliver (Cosmonerd) e o professor/escritor/rpgista Dmitri Gadelha. Os temas foram bem parecidos: o impacto de se utilizar elementos brasileiros na escrita de ficção. No caso das mesas com o Hugo e o Marcio, formos ainda mais específicos: focamos nos elementos nordestinos.

Já tinha bastante coisa para começar a divagar a respeito, mas algumas bombas estavam para explodir. A primeira numa polêmica envolvendo uma série de ilustrações do artista gaúcho Vitor Wiedergrun, que tentava reimaginar elementos do cangaço num cenário futurista. Num texto da escritora Lídia Zuin, o nome da série de ilustrações do Vitor, Cyberagreste, vira nome de um movimento estético/literário. Foi o suficiente para uma sequência de textos (e textões) de nordestinos questionando pontos desta reportagem, que não tinha os principais interessados na história envolvidos: os nordestinos. Embora eu não tenhamos participado desse texto, Cangaço Overdrive é citado por lá, como tem estado na maior parte dessas discussões. Dessa história surge o Sertãopunk, um contraponto e quase um manifesto sobre o cyberpunk com o nordeste como cenário. Essa visão seria ardorosamente defendida por vários escritores nordestinos, com destaque para a cearense G.G. Diniz e os baianos Alan de Sá e Alec Silva. Veja só, eu entendo todo o sentimento do Vitor e da Lídia em suas produções e toda a boa vontade que está lá. Mas os questionamentos da Gabriele, do Alan e do Alec são muito válidos. Escrevi um texto para o blog da Draco falando mais sobre o sertãopunk.

E espera aí, que tem mais um ingrediente para acrescentar no caldeirão: num texto para a Folha de S. Paulo, o escritor Santiago Nazarian joga um balde de água fria nos escritores de literatura especulativa brasileiros. Nazarian escreve que esse tipo de literatura vive sempre um sentimento de que está prestes a decolar no mercado, mas que nunca chega a lugar nenhum de fato. E, claro, existiram os contrapontos, com destaque para a excelente thread no Twitter do Bruno Mantagrano e o texto escrito também para a Folha pelo escritor Samir Machado de Machado.

Ficam os links, por que ler sobre estes pontos pode ser um negócio muito enriquecedor, ainda mais se você está se propondo a ser um escritor no Brasil. Tem gente bem mais inteligente do que eu falando aí e se tem algo que eu aprendi é que ler pessoas inteligentes é um jeito de ficar um pouco mais inteligente também.

O fato é que a indicação do Jabuti chega num momento bem interessante, bem no meio dessa efervescência, onde a nossa ficção especulativa vai ganhando seu espaço entre os leitores brasileiros. Sou um cara bem novo nesse cenário e seria muito arrogante da minha parte ignorar todo o trabalho das gerações anteriores, que vem lá desde 1899, com o romance A rainha do Ignoto, da cearense Emília de Freitas. Mas eu consigo enxergar algumas bolhas sendo furadas.

Com o alto nível dos concorrentes, é difícil dizer se sigo nas próximas etapas do Prêmio Jabuti, mas fico feliz de ter conseguido chegar até aqui com um quadrinho distópico, que nada mais é do que o resultado do nosso incômodo com o cenário de retrocesso atual e um questionamento sobre os avanços destrutivos do capital. E, principalmente, uma ode à jornada do nordestino. Perdi o 22 de agosto, mas ganhei o privilégio de publicar esse texto hoje, no dia em que comemoramos os 110 anos da data de nascimento de um dos maiores poetas populares da história desse país, Patativa do Assaré. Poeta, subversivo e uma das grandes influências na criação de Cangaço Overdrive, Patativa vive em suas ideias e ideais.

Eu gostaria de agradecer a toda a equipe envolvida em Cangaço Overdrive por possibilitarem que chegássemos até aqui. Não poderia esquecer do apoio imprescindível da Editora Draco e de todos os amigos e familiares que vem ajudando a disseminar o quadrinho.

Sigamos lutando.


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DICA:

Se você ainda não tem a obra, aproveita que ela está com 30% de desconto no site da Editora Draco. Por tempo limitado!

21 de junho de 2019

O evangelho de Evangelion (Lista do Zé #24)


Olá, olá!

Um dos animes mais amados de todos os tempos está disponível novamente! Nesse texto eu falo sobre Evangelion, animação japonesa que eu fiz um esforço absurdo para acompanhar no final dos anos 90 (via fitas VHS mal gravadas) e agora você pode assistir no conforto da sua Netflix. A criação máxima do estúdio Gaynax e do diretor Hideaki Anno agora pode ser apreciada por uma nova geração de amantes das boas (e um pouco complexas) histórias.

Mas primeiro...

Preciso avisar que Cangaço Overdrive está de volta às prateleiras, depois de ter esgotado no site oficial da Editora Draco e em alguns dos principais fornecedores online. A segunda tiragem do quadrinho já está disponível na loja online da Draco ou na Amazon. Enjoy!

Além disso meu parceiro Walter Geovani está vendendo edições diretamente, incluindo um sketch original de brinde. Para adquirir, deixem mensagem lá no Instagram dele: instagram.com/walter_geovani_wg

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Clássico moderno

A Netflix acaba de disponibilizar em seu catálogo Neon Genesis Evangelion, um dos maiores clássicos da animação japonesa dos anos 1990. Pergunte a qualquer pessoa que tenha acompanhado a série na época do lançamento o que ela lembra a respeito e, além da marcante música de abertura, provavelmente você ouvirá duas coisas: 1) os robôs gigantes e 2) a trama complexa. É reduzir demais colocar Evangelion apenas nestes dois pontos, mas são bons lugares para começarmos esse texto.

Então, sim, tem uns robozões. Robôs gigantes (os mechas) estão incrustados na cultura pop japonesa, desde os live actions do tipo metal hero e tokusatsu (Jaspion e Changeman, respectivamente) até animações como Gundan e Macross. Para justificar os robôs, a trama do anime se passa em 2015 (que seriam 20 anos no futuro na época do lançamento), num Japão distópico onde adolescentes são os únicos pilotos possíveis para máquinas de guerra gigantes, os EVAs. Logo no primeiro episódio entendemos quem essas máquinas gigantes têm de enfrentar: criaturas poderosas conhecidas como Anjos (e só isso já é de dar um nó na cabeça). Em meio aos confrontos, acompanhamos Shinji Ikari, um destes pilotos adolescentes, nos seus primeiros momentos como piloto do Eva-01. Abandonado na infância, Shinji volta à cidade natal para um momento de reconciliação, mas acaba frustrado quando descobre que seu pai é o líder dessa resistência contra os anjos e queria apenas que ele pilotasse o Eva-01. Esse conflito entre pai e filho (e o passado por trás dele) é apenas um dos temperos do caldeirão do anime, que tem nas batalhas um pequeno percentual do seu tempo de tela. O que não faltam por aí são textos falando que o próprio uso dos mechas no desenho denota uma crítica dos criadores à falência da sociedade japonesa, utilizando elementos dos mangás e animes, patrimônios nacionais do país. Isso sem falar em várias questões existencialistas levantadas pelos personagens, todos nitidamente lutando contra traumas psicológicos próprios.

É aí que entramos no segundo ponto de destaque de Evangelion. Sem dúvidas temos aqui um dos roteiros mais inventivos e também mais complicados já criados em uma animação seriada, uma ficção científica existencialista com elementos da Cabala, do Cristianismo, do Judaísmo e do Xintoísmo. É a típica história que começa no meio e você se vê dentro de um furacão junto com o protagonista, que cresceu isolado de tudo e representa nossas dúvidas dentro da trama. Uma coisa que é necessária dizer pra você que vai encarar o anime pela primeira vez é que a maior parte dos mistérios da trama não será explicada. O anime é aberto a muitas interpretações e isso funciona muito bem na maior parte da trama. Mas é importante dizer que nem sempre esse mistério todo, beirando a psicodelia em alguns momentos, é proposital e bem conduzido. Evangelion teve uma série de problemas de produção, especialmente em seus últimos episódios, o que levou a um final forçado na série, com sérias restrições orçamentárias. Não é preciso ser expert para perceber isso, ainda mais quando em vários episódios você passa longos minutos numa tela estática e apenas ouvindo os personagens falando. A maior parte da ação (e ação BOA, diga-se de passagem) está na primeira metade da série. É óbvio que há um sem fim de ideias boas também para contornar os problemas de produção, como o fato de que os anjos vão tendo suas formas exploradas de forma absurda no decorrer da série, até serem muito mais do que monstro gigantes.

Para compensar os probleminhas desse final, a série original já foi reeditada mais de uma vez e ainda ganhou um longa-metragem resumo (Evangelion: Death (True)²) e outro que finaliza o confronto com os anjos (The End of Evangelion), também disponíveis na Netflix.

E se você está em dúvidas sobre ver ou não, eu digo que vale a pena! A última vez que vi foi no ano passado e continua muito bom. Se tramas cabeçudas são sua praia, você não irá se decepcionar. Boa parte do gostoso de acompanhar algo assim é gastar horas lendo sobre teorias na internet depois... Definitivamente Evangelion é um desses raros casos em que vale a pena se perder nos vídeos de “final explicado”.

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Já viu Evangelion? É sempre bom lembrar: responda este e-mail com seu comentário e ele chega na minha caixa de entrada. Você pode também deixar um comentário aqui ou ainda no meu Twitter, Facebook ou Instagram.

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Já leu Quem Matou João Ninguém?, Steampunk Ladies ou Cangaço Overdrive? Se não, compre na Amazon nos links abaixo. Já leu? Ajude a espalhar a palavra do Zé e deixe sua avaliação lá no site deles!
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Levanta a cabeça, Shinji!

25 de maio de 2019

Cordel de Cangaço Overdrive + indicações brasileiras steampunk (Lista do Zé #23)


Olá, olá!

Antes de te indicar alguns produtos brasileiros steampunk, preciso te dizer que já está à venda Steampunk Ladies: Choque do futuro, minha nova história em quadrinhos! Clique na imagem para garantir a sua agora!

https://editoradraco.com/produto/steampunk-ladies-choque-de-futuro-wellington-prado-santos-pinheiro


 
Em comemoração, preparei um pequeno guia com a indicação de algumas outras obras recentes nacionais na temática steampunk, pra você ir entrando no clima enquanto meu novo quadrinho não chega na sua casa.

Além disso, falo sobre minha primeira publicação em literatura de cordel: Cangaço Overdrive: Passado e futuro. Este cordelzinho foi distribuído para quem comprou minha HQ Cangaço Overdrive na CCXP 2018 e agora é a sua vez de ter acesso em formato PDF. Vale dizer que não tem spoilers do quadrinho original, então pode ler antes dos quadrinhos, tá? E para quem já leu a HQ, é hora de conhecer um pouquinho mais sobre a origem dos personagens dos grupos de Cotiara e Rosa.

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Uma das coisas mais elogiadas em Cangaço Overdrive é a narração em cordel. Foi uma das primeiras ideias que tive antes de iniciar o roteiro do quadrinho. Não sou poeta, mas rimar uma história não era pra ser tão complicado, afinal eu tive banda por mais de dez anos e já compus algumas músicas, certo?

Na prática o negócio foi mais complexo (imagina aí acertar texto e imagem, tendo que se preocupar com a rima e também com a métrica própria do cordel?). De qualquer forma, depois dessa experiência maluca eu fiquei doido pra fazer mais. Então para a CCXP do ano passado eu pensei que um brinde legal seria um pequeno cordel, que foi impresso e depois cortado e montado manualmente. O cordel explora a origem de alguns dos personagens da HQ. Agora é sua vez de tê-lo, clicando no link abaixo:

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Steampunk brasileiro

Lá pela década de 80 a ficção científica vivia um dos seus momentos de ouro, especialmente na literatura. Nesse contexto foi criado o tal cyberpunk (já falei um pouco sobre isso), título de um conto do escritor Bruce Bethke e que acabou definindo um novo gênero. A frase que resume o estilo é o "high tech, low life", referindo-se a um futuro extremamente tecnológico, mas de péssimas condições de vida. Já no final da década de 80, o escritor K. W. Jeter, procurando uma expressão para designar trabalhos que se passavam no passado e que remetiam aos conceitos do cyberpunk, cunhou o steampunk. Ao invés do futuro, os cenários/períodos históricos favoritos do gênero eram a Era Vitoriana Inglesa e o Velho Oeste Americano pós-segunda revolução industrial, por isso o "steam" do nome, uma alusão à tecnologia a vapor vigente na época. A principal brincadeira era imaginar estes períodos com tecnologia mais avançada. Vale dizer que depois surgiram outras vertentes, com combustíveis diferentes alimentando as cabeças dos autores: teslapunk (em alusão às primeiras máquinas elétricas), dieselpunk (diesel das máquinas nas guerras mundiais), atompunk (energia atômica) e até solarpunk (que leva a discussão de volta para o futuro, com energias limpas). Mas esses outros ficam para um próximo texto...

E no Brasil? Muita coisa stempunk tem sido lançada no Brasil nestes mais de trinta anos. Fazer uma lista é um negócio espinhoso e para essa me concentrei em trabalhos mais recentes. Lá no meu blog eu pretendo aumentar esta lista nos próximos meses (e tô guardando na agulha um texto sobre ficção científica nacional em que quero explorar os títulos mais clássicos, em breve neste mesmo canal).


Vaporpunk

O Steampunk feito no Brasil se enraizou no fandon primeiramente através de livros de contos, especialmente antologias de editoras de gênero. Embora não possa deixar de reconhecer os trabalhos de editoras como a Tarja (in memorian) e a Estronho, foi a Draco que pavimentou essa estrada, especialmente com os dois volumes de Vaporpunk. Embora livros de contos de autores diferentes costumem apresentam trabalhos melhores e piores, considero o nível dos dois livros bem alto, possivelmente por que temos alguns dos escritores mais prolíficos do gênero no país: Octavio Aragão, Flávio Medeiros, Eric Novello, Carlos Orsi, Fábio Fernandes, Romeu Martins, Dana Guedes, Nikelen Witter, Luiz Bras, Sid Castro, Jacques Barcia, Cirilo S. Lemos e Gerson Lodi-Ribeiro. Vale dizer que o primeiro volume também tem participação de autores portugueses. Esses livros foram só o pontapé para uma coleção chamada Mundo Punk, que também incluiu as coletâneas Dieselpunk e Solarpunk (que foi uma das primeiras iniciativas no gênero do mundo e já foi traduzida para o inglês). Nada como encerrar o ciclo com um livro sobre Cyberpunk, que iniciou todo o gênero, né? Na campanha que está rolando do livro, tem uma recompensa para levar TODOS os livros do Mundo Punk (mais a coletânea em quadrinhos Periferia Cyberpunk) por apenas R$ 200,00. Apoie a coletânea até o dia 29/05 e leve a coleção completa por esse precinho camarada!

Le Chevalier

Um espião francês sem passado é o indicado por Napoleão em casos em que o Império Francês precisa resolver com discrição. Iniciado num romance do escritor A.Z. Cordenonsi, Le Chevalier e a Exposição Universal, as aventuras do personagem seriam expandidas também para uma série de contos e duas histórias em quadrinhos, Le Chevalier: Arquivos Secretos Vol. 1 e Le Chevalier nas Montanhas da Loucura (com roteiros do escritor e desenhos de Fred Rubin, que eu considero o "Mignola brasileiro"). As aventuras do cavaleiro são uma boa pegada para quem gosta de histórias despretensiosas e cheias de ação.

Brasiliana Steampunk

Se na indicação anterior o autor resolveu expandir seu universo além da literatura, aqui nós vamos ainda mais longe. Estudioso da arte transmídia, o escritor Enéias Tavares toca o ambicioso projeto Brasiliana Steampunk, que concentra a história num Brasil ficcional onde personagens clássicos da nossa literatura interagem entre si. No centro das tramas, um grupo de aventureiros autodenominado Parthenon Místico. Os passos que consolidaram este universo foram dados no romance policial A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison, que narra através de cartas e "gravações mecânicas" os acontecimentos que se seguem após a prisão de um assassino serial na cidade de Porto Alegre dos Amantes. Não bastasse ter escrito um dos romances mais inventivos da ficção científica nacional, Enéias seguiu ampliando seu universo em direção a outras linguagens, incluindo vários contos, um suplemento escolar, áudios dramáticos, um jogo de tabuleiro (Cartas a Vapor), webcomics e agora uma audaciosa série em live action. Dá pra se perder por bastante tempo neste universo!

Arcane Sally & Sr. Vapor

Lançada primeiro online no Tapas em inglês e depois impressa em edição nacional numa campanha no Catarse, a história em quadrinhos Arcane Sally & Sr. Vapor é escrita pelo norte-americano David Alton Hedges com desenhos do brasileiro Jefferson Costa (La dançarina, Jeremias: Pele). Misturando os conceitos científicos do steampunk com fantasia (uma tendência nos últimos anos), acompanhamos Sr. Vapor, um agente da coroa britânica, e seu fiel valete Sr. Runnymede em caça a um criminoso que supostamente voltou dos mortos. Para isso eles contarão com uma nova e misteriosa parceira, Miss Sally. Essa edição nacional compila os três primeiros capítulos da webcomic (que é tudo que saiu até agora... Cadê o resto, Jefferson??).
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Depois quero saber sua opinião sobre o meu cordelzinho! Tem outras indicações steampunk nacionais? Comente aí embaixo. Você pode também deixar um comentário sobre este texto no meu Facebook ou no meu Instagram.

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Alimentem as caldeiras, que tenho um quadrinho para terminar!