24 de abril de 2018

Imprimi o livro. Acabou? (Lista do Zé #18)



Olá, olá!

Como já tinha adiantado para você, meu novo quadrinho, Cangaço Overdrive, é real, e já está chegando nas pessoas!

Para quem quiser pegar o seu diretamente das mãos da galera que produziu, a partir deste sábado começaremos uma série de eventos de lançamentos:
  • 28/04, 15h - lançamento e bate-papo na Reboot Comic Store, em Fortaleza/CE
  • 05/05, 19h - lançamento e bate-papo na Livraria Pensar, em Sobral/CE
  • 12/05, 19h - lançamento e bate-papo na Fafidam Uece, em Limoeiro do Norte/CE
Não é do Ceará? Vou deixar a dica de ouro: na Amazon, a HQ está saindo com um descontão e frete grátis na promoção do Dia Mundial do Livro:

Mas o que acontece com o quadrinista depois que seu livro já está impresso?

A vida pós-impressão

Saiu o livro! Acabou o trabalho? Com certeza, não.

O livro ainda nem tinha saído da gráfica, atualizo contatos de imprensa. Lá no MailChimp já está tudo mais ou menos organizado em listas. Discussão com a editora para fechar um texto para imprensa e escolha das páginas para divulgar. Disparo de e-mails. Muitos feedbacks positivos (“baita sacada esse título”). Muita gente pedindo entrevista. Um jornal de Brasília escreve uma maravilhosa nota para o livro, mesmo ninguém de fora da equipe tendo lido ainda. Muita gente pedindo o livro. Alguns canais “com ótimos preços para reviews de livros de autores iniciantes”.

Não dá pra mandar livro para todo mundo da imprensa. Então escolho, escolho, escolho. Visito site de jornal, visito blog, visito Instagram e YouTube (esses dois últimos entre os canais mais relevantes, diz o editor). Escolho, escolho, escolho. Entro em contato com os “escolhidos”. Muitos ficam felizes. Alguns não respondem. Outros dizem não receber livros. Ok, tudo bem, obrigado, espero que goste. Empacoto livros, escrevo dedicatórias individuais. Durmo tarde nesse dia.

Mando mensagens para amigos: me chamem para podcasts, qualquer um que aceite um jabá no final. Gravo podcast sobre cyberpunk, gravo podcast sobre Instagram e gravo podcast sobre Nicolas Cage (sério).

Configuro o Google Alertas para receber e-mail sobre qualquer menção ao livro na internet. A ansiedade é grande, abro o Twitter e já tem o nome do livro escrito na caixa de busca. Mas não dá tempo de ficar nervoso, pois é hora de pensar nos eventos de lançamento.

Reservo local. Mando fazer banner. Será que vai alguém?

Tem mais? Tem sim, o livro saiu de edital: tenho prestação de contas para fazer, tenho relatório para fazer.

Enquanto isso, a equipe do outro quadrinho para lançar este ano cobra o roteiro. Daqui a pouco vai começar tudo novamente. Ainda bem.
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See you, space cowboy!

28 de março de 2018

Cordel e cyberpunk (Lista do Zé #17)


 Olá, olá!

Meus textos tão atrasando pra que meus quadrinhos novos não atrasem. Por falar neles, apresento a vocês Cangaço Overdrive, minha nova graphic novel (uiuiui). O quadrinho já está a venda nos links abaixo:

Mas como surgiu essa ideia maluca? Eu escrevi algumas curiosidades sobre a HQ logo abaixo.

 

Nordeste feelings


Ao que parece, Cangaço Overdrive é minha primeira HQ longa que vem de uma ideia original minha. Digo isso por que Quem Matou João Ninguém? foi construída a partir de uma ideia do Wagner Nogueira (que revisou o roteiro inteiro e fez diversas sugestões) e Steampunk Ladies partiu de uma ideia do Di Amorim (ainda que eu o tenha convencido a seguir caminhos diferentes).

Em 2006 ou 2007 eu trouxe o desenhista Walter Geovani para um evento em Sobral, cidade onde nasci. Como quaisquer quadrinistas que passam algumas horas conversando, em algum momento discutimos sobre fazer um quadrinho com cangaceiros. Ele me falou sobre uma passagem de Lampião, conhecido como o “rei do cangaço”, pela sua cidade, Limoeiro do Norte. Mas o Geovani sempre esteve muito ocupado no mercado americano durante esses anos e nossa conversa entrou em stand by logo depois que nos despedimos. Alguns anos depois, comecei a amadurecer a ideia de fazer uma história no mesmo naipe da animação Samurai Jack, que tem como principal plot colocar um samurai tradicional num ambiente futurista. Sem nem lembrar da conversar com o Geovani, me pareceu natural que, se eu fizesse algo assim, teria de ser com um cangaceiro. Na época compartilhei essa ideia com o desenhista Wescley Braga e ele chegou a fazer alguns estudos para o personagem principal, que já se chamava Cotiara. A ideia era fazer uma série de tirinhas, num tom mais cômico (como Samurai Jack) e que tivesse alguma continuidade (ao estilo Terry e os Piratas, do Milton Caniff). Nunca consegui parar para escrever os roteiros e o Wescley acabou iniciando uma carreira nas artes plásticas e o projeto parou por aí. Antes de decretarmos a morte dele eu já tinha escolhido o nome: Cangaço Overdrive.

Quando divulguei como se chamava minha próxima HQ e que ela seria cyberpunk, a galera DELIROU nesse nome e pensou no óbvio, que o título era uma homenagem à Monalisa Overdrive, o terceiro livro da Trilogia do Sprawl (eu falei sobre ela no post anterior). Mas essa primeira tentativa de tirar a HQ do papel com o Wescley aconteceu há mais de dez anos e na época o único livro que conhecia do William Gibson era Neuromancer (e que eu ainda nem tinha lido). O nome Cangaço Overdrive foi inspirado pelo álbum “Seca distorcida”, da banda de hardcore cearense Jumentaparida. Substituí o “seca” por “cangaço” e “distorcida” por “overdrive”, também com uma banda de hardcore na cabeça, no caso os paulistas do Aditive, que tinham uma música que eu gostava muito chamada Câncer overdrive.

Acho que foi no final de 2015, com um edital de cultura abrindo no Governo do Estado do Ceará, que perturbei o Geovani para fazermos algo juntos. Ele foi logo dizendo que “poderia ser aquele projeto com cangaceiro que conversamos”. Ao cavucar minhas anotações procurando algo já iniciado, encontrei Cangaço Overdrive e decidi usar o plot principal. Mas, para aproveitar melhor o estilo de desenho do Geovani, não dava para ser tira e nem cômico. E assim o projeto começou se tornar um legítimo cyberpunk, com todos os seus pessimismos.

Essa é também minha primeira história longa que se passa no nordeste. Mesmo entre as curtas, agora de cabeça eu só me lembro de uma história de quatro páginas que escrevi para o Capitão Rapadura. Depois de contar uma história numa favela e de um faroeste com protagonistas femininas, esse deveria ser o meu trabalho mais fácil, por ser um tema mais próximo da minha vivência. Mas não foi bem assim. Na primeira versão da história que mandei para a Draco, o meu editor Raphael Fernandes estranhou a falta de expressões e gírias nordestinas. Eu até tentei nessa primeira versão, juro. Mas provavelmente por todo esse tempo da minha vida absorvendo quadrinhos (e outras coisas) vindas ou de outros países ou do eixo Sul-Sudeste, tudo que eu fazia parecia extremamente fake artificial. Mas nada que uma imersão em obras nordestinas não resolvesse. E aí apareceu a literatura de cordel.

Imerso nessas publicaçõezinhas, parecia (e acho que é mesmo) uma ótima ideia usar cordel na HQ. E eu decidi: a narração será em cordel, rimadinho e quase independente da HQ, mesmo que integrada a ela. Pô, no meio da HQ eu já tinha me arrependido dessa ideia, mas vá lá, a ideia parecia (parecia não, era mesmo!) muito boa. E me orgulho muito de ter virado cordelista por um ano. Penso, inclusive, em fazer mais isso. Veremos.

Duas figuras nordestinas são fortes influências para este trabalho: Chico Science e Patativa do Assaré. O primeiro veio de uma provocação do Raphael Fernandes: “escuta Nação Zumbi, vai ajudar nos diálogos”. Na real, não tinha como Nação Zumbi ajudar TANTO assim com os diálogos. Eles são de Recife e, ainda que haja muitas similaridades, cearenses e pernambucanos têm jeitos de falar bem diferentes. Mas aí lá fui eu revisitar o álbum “Da lama ao caos” e… BUM! Eu nem sabia, mas estava fazendo quase uma adaptação para quadrinhos do álbum. Toda a verve política que eu procurava tinha sido escrita pelo Chico no álbum em 1994, especialmente nas músicas Monólogo ao pé do ouvido, Banditismo por uma questão de classe, Rios, pontes e overdrives (overdrives de novo!) e Da lama ao caos. Sobrou pra minha esposa e filhas ouvir durante seis meses Nação Zumbi quase 24 horas por dia...

E sobre o segundo… Eu não sei quantos que estão lendo esse texto conhecem o Patativa. Nascido em 1909, em Assaré, cidade com pouco mais de 20.000 habitantes do sul do Ceará, o cara foi provavelmente um dos maiores poetas populares do estado. Eu conhecia bem superficialmente sua história. Cego de um olho e com uma alfabetização irregular, Patativa criava e declamava suas poesias (normalmente na métrica do cordel) de cabeça. O que eu não conhecia sobre Patativa era o seu lado político e ativista, bem visível em pedradas como Reforma agrária é assim.... Sério, procurem pelo trabalho dele, especialmente declamado de sua própria voz. E o documentário sobre ele do Rosemberg Cariry é ótimo.

Na verdade toda a cultura popular nordestina merece ser visitada constantemente. Se Cangaço Overdrive serviu pra que eu percebesse isso, espero que sirva para vocês também.

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Mantenham-se firmes!







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1 de janeiro de 2018

Um 2017 (cyber)punk (Lista do Zé #16)



Olá, olá!

Eu ia escrever um texto sobre 2017, mas aí resolvi escrever a resenha do último livro que li no ano passado. E em algum ponto as duas coisas se encontraram.

Um clássico (às vezes) incompreendido

Terminar 2017 com Neuromancer como última leitura é meio emblemático. Demorei mais do que o normal na leitura do livro, diga-se de passagem. E MUITA coisa aconteceu neste meio tempo.

O romance mais conhecido de William Gibson não é fácil. Ainda que não tão distante hoje quanto era na época em que foi escrito (1984), temos um futuro distópico num mundo bem mais tecnológico que o nosso. Provavelmente usando isso como ferramenta narrativa, Gibson não se preocupa em explicar o seu cenário, tomando a maior parte das coisas como cotidianas para o hacker Case e os demais personagens. A sensação é parecida com ler um livro de duzentos anos atrás, só que no futuro e sem poder consultar um dicionário. Para esta função, ajuda um pouco um glossário ao final, mas os neologismos são incontáveis, sendo às vezes mais prático seguir sem olhar para trás (ou sem olhar para o final do livro, no caso), abstraindo toda a viagem verborrágica do autor. Falando em verborragia, soma-se ainda o estilo de prosa de Gibson, que é futurista na trama, mas não muito contemporâneo no estilo. O que falta em explicações do funcionamento dos objetos de cena, sobra nas descrições deles.

E uma das coisas que aconteceu enquanto eu lia o livro, e que eu não poderia abster desse texto, foi um debate acalorado num grupo do Facebook e também num post do escritor Fábio Fernandes, tradutor da edição que li do livro, comemorativa aos 25 anos do livro. Muitas pessoas diziam que o livro era chato e que haviam desistido dele em algum ponto.

Mas se Neuromancer é uma montanha difícil de escalar, as recompensas no seu percurso compensam as pedras no caminho. Dixie, Wintermute e as demais inteligências artificiais que surgem na trama são personagens interessantíssimos (mesmo que nem sempre se entenda suas motivações, propositadamente). E eu poderia falar das várias previsões feitas por Gibson no início dos anos 80, mas é mais provável que o autor tenha inspirado a criação dessas coisas, em especial a internet. Nem sempre ele acerta, claro (e os meios de armazenamento mais comuns na história são as fitas magnéticas, só para citar um exemplo). Na leitura eu ficava maluco mesmo era nos encontros entre Case e seus antagonistas, momentos de tensão incríveis, com diálogos que mostram um autor já habilidoso no seu romance de estreia, que levou para a casa a tríplice da literatura scifi (os prêmios Hugo, Nebula e Philip K. Dick) e foi considerado pela revista Time um dos 100 maiores romances de todos os tempos.

A cereja do bolo é o cenário criado pelo autor, que seria utilizado ainda em dois livros subsequentes (fechando a Trilogia do Sprawl). Muito além do high-tech-low-life pelo qual o cyberpunk é conhecido, Gibson pintou um futuro culturalmente diverso, misturando dub jamaicano ao estilo de vida otaku, romance noir a artes marciais, influenciando toda a cultura pop e a contracultura americana e, por consequência, mundial. The Ghost in The Shell, Matrix, Gurps e muitos outros produtos de entretenimento devem muito (senão tudo) a Neuromancer. Talvez em breve a cultura pop devolva a Gibson suas contribuições, já que vem aí a adaptação cinematográfica da sua obra-prima,  anunciada recentemente, pelas mãos do promissor Tim Miller, diretor do filme do Deadpool.

Como eu disse, é um tanto simbólico que esse livro feche meu ano. É uma resenha, mas vale também como um resumo para o meu 2017, que teve seus percalços, mas se mostrou uma jornada de grande valor para mim (e acho que com um final feliz). Só espero que 2018 esteja mais para um livro mais fácil, como um algum romance comercial do Stephen King.

E que livro define o seu 2017?

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Além do quadrinhos cyberpunk Cangaço Overdrive, que divulguei no texto anterior, lançarei no ano que vem a continuação de Steampunk Ladies. Desta vez vou contar com a ajuda da desenhista Sara Prado nos desenhos, que por sua vez contou com o apoio do desenhista Wilton Santos. Wilton estava no primeiro volume e além dele volta o colorista Ellis Carlos. Da mesma forma que em Cangaço Overdrive, conto com o Deyvison Manes nas letras e com o Rob Lean na arte-final. Nas próximas semanas vamos divulgar mais algumas coisas do projeto, que vira em 360º nossa história, indo do Velho Oeste Americano para a Londres vitoriana.


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Um ótimo 2018!

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20 de novembro de 2017

Mauricio (Lista do Zé #15)



Olá, olá!

Num texto só, hoje eu vou relatar um encontro e fazer uma indicação de livro.

Ah, se você caiu aqui no site de paraquedas e gostou deste texto, pode receber por e-mail os textos da lista preenchendo os campos no final deste post.

Um encontro que não estava no gibi

​Eram 16h de uma terça-feira, dia 7 de novembro deste ano, quando a Margarida Melo, uma das curadoras da Feira do Livro de Sobral, me ligou:

– Corre aqui no hotel que o Mauricio quer te ver!

Larguei tudo que estava fazendo na empresa e fui encontrar o quadrinista e empresário Mauricio de Sousa em seu hotel em Sobral. Mais tarde naquele dia ele faria a palestra magna na abertura da Feira, que aconteceu entre 7 e 9 de novembro, na cidade em que nasci.

Deixa eu voltar alguns dias no tempo. Eu já estava bem feliz de ter um evento relacionado ao livro acontecendo pela primeira vez na minha cidade, bem nesse momento especial da minha vida, com dois álbuns em quadrinhos lançados e sendo vendidos no Brasil inteiro. Para completar, por uma sugestão do meu amigo e um dos idealizadores da Feira, Yves Gurgel, surgiu o nome do Mauricio como palestrante na abertura. Baita sorte: o maior nome dos quadrinhos no Brasil numa feira na minha cidade. Mas a adrenalina subiu quando o Yves mandou uma mensagem no meu WhatsApp perguntando se eu poderia moderar a palestra, já que no contrato o Mauricio solicitava alguém no palco com ele. "É pegadinha?", eu perguntei.

No saguão do hotel, o Mauricio me perguntou como estava o clima. Apesar de esta ser uma pergunta famosa de quem passa por aqui pela primeira vez (Sobral tem comumente temperaturas próximas aos 40°), ele na verdade se referia à política local (e mais na frente você vai entender o interesse dele nesse tema). Dias antes do evento, um blog sensacionalista da cidade noticiou a vinda do Mauricio fazendo alarde sobre seu cachê e chamando a atenção para necessidades de infraestrutura na cidade. Ele estava no Japão quando recebeu a notícia, provavelmente alertado por sua assessoria de comunicação. Eu disse a ele que a principal preocupação dos sobralenses naquele dia era conseguir um lugar no auditório para 500 pessoas, já que os ingressos gratuitos tinham se esgotado alguns momentos após a abertura das inscrições. Ele se tranquilizou e abriu um sorriso. Aproveitei o momento para presenteá-lo com uma edição de Quem Matou João Ninguém?, chamando sua atenção para uma referência a seus personagens na página 39 (você tinha notado?). Ele disse que achou a edição bonita e me perguntou sobre o prêmio que ganhei, que todo mundo comentava desde que ele tinha chegado. Eu disse que o tinha recebido na mesma cerimônia onde sua esposa, Alice Takeda, foi homenageada no ano passado, que entre muitas pessoas que eu admirava ele também estava lá. Ele me indagou sobre o quê conversaríamos no palco do evento. Abri meu celular onde estavam algumas perguntas e comentei que havia me baseado na sua autobiografia. “Ah, então você estudou bem”. De fato, ler o livro dele me ensinou bastante.

Mauricio: A história que não está no gibi é um livro de memórias baseado em depoimentos do quadrinista ao jornalista Luís Colombini. É escrito em primeira pessoa, o que já nos adianta que teremos fatos da vida do Mauricio narrados sobre o seu ponto de vista. Eu sempre fico muito desconfiado com esse tipo de biografia autorizada, por que é comum vermos apenas um lado da história ou, ainda pior, uma grande propaganda do biografado. Mas, mais do que me preparar para a moderação de um papo com o autor, a história do Mauricio sempre me despertou curiosidade por conta do seu lado empreendedor. E nesse aspecto o livro é bem interessante para quem quer entender como funciona a cabeça de um empresário nato num dos segmentos mais complicados para se empreender no Brasil: a cultura.

No livro vemos que o criador da Turma da Mônica sempre teve um comportamento superprotetor com seus “filhos desenhados”, negociando contratos com muito cuidado e desistindo de negociações muito rentáveis se sentisse que poderia perder o controle sobre suas criações. Marca também a coragem do quadrinista para embarcar em grandes empreendimentos, como um estúdio de cinema ou um parque temático. Às vezes com alguma teimosia, mas normalmente de forma estritamente planejada, Mauricio sempre surpreendeu o mercado nesses quase 60 anos de carreira. Mesmo assim, um dos capítulos mais interessantes do livro é o que mostra os projetos do quadrinista que NÃO deram certo (no melhor estilo Fuckup Night), com planos infalíveis envolvendo desde os Beatles e Maradona até uma máquina patenteada que permitia sentir cheiros enquanto se assistia a um filme.

Mas se você gosta de quadrinhos e acha meio chato esse papo de empreendedorismo, pode curtir no livro os vários relatos de Mauricio sobre os bastidores dos quadrinhos e encontros com grandes mestres, como Will Eisner, Hugo Pratt, Osamu Tezuka e muitos outros. O livro também detalha o processo de produção individual do autor no início da carreira até a forma como isso evoluiu para um grande estúdio, quando ele definiu uma série de padrões para que cada uma das mais de mil páginas por mês de quadrinhos continuassem saindo como se tudo ainda fosse feito por um único autor.

O livro é um relato bem suavizado, vale destacar. Ao mesmo tempo que isso o faz uma delícia de se ler, se percebe o mesmo cuidado que Mauricio tem em seus quadrinhos para não “incomodar” nenhum público específico. Fica um pouco a impressão de que ele está pisando em ovos nos momentos mais polêmicos. Há também uma visão muito pessoal do Mauricio com relação à mistura de arte e política. O quadrinista sempre evitou essa relação em seus trabalhos, gastando algumas partes do livro para explicar os seus porquês. Meio que do seu jeito, não muito diretamente, ele inclusive crítica o engajamento político na arte, o que pessoalmente me incomodou um pouco (mas que vai da ideologia de cada um). Fica claro para mim que essa posição política é um dos principais segredos comerciais do autor. E ainda que em determinado momento ele diga que sua turminha hoje defende o empoderamento feminino, por outro lado ele confessa que ainda não surgiu um personagem homossexual na Turma da Mônica Jovem por que isso seria “cutucar um vespeiro”.

Pela noite eu e Mauricio subimos no palco para a abertura da Feira do Livro. Como em todos os momentos em que pude estar com ele, Mauricio foi gentil e atencioso, sempre se mostrando interessado nos papos. Mesmo com 82 anos, foi paciente com cada fã que encontrou, até aqueles que furaram os bloqueios de segurança. No palco, quando eu disse que ele que mandava no evento, Mauricio falou que se ele mandava sua ordem era que eu o dirigisse. Para completar, após o evento, a organização do evento ainda me relatou um fato curioso.

– O nome dele é Zé Wellington mesmo? Ele não acha ruim ser chamado de ? É que vou colocar aqui no meu Instagram – perguntou o Mauricio à Margarida numa mensagem.

– Não acha, Mauricio! É assim que todo mundo conhece ele – ela respondeu.

– Mesmo assim vou colocar José Wellington, por que é mais respeitoso.

Que prazer te conhecer, Mauricio.

Até cortei o cabelo pra receber o Mauricio.

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Anunciei nesses dias meu próximo quadrinho, previsto para o início de 2018. Ele se chamará Cangaço Overdrive e é resultado de uma parceria com o desenhista cearense Walter Geovani, conhecido pelo longo período em que foi desenhista regular da personagem Red Sonja e que recentemente ilustrou um trabalho da roteirista Gail Simone para a Vertigo, selo adulto da DC Comics.

Em 2030 o Ceará enfrenta sua maior seca em séculos. Neste cenário, um lendário cangaceiro e um impiedoso coronel duelam mais uma vez no sertão. Misturando cyberpunk e cordel, o álbum dá início a saga do cangaceiro Cotiara num nordeste distópico.

Eu escrevi o roteiro, o Geovani fez os layouts das páginas e ainda contamos com a participação do Luiz Carlos B. Freitas no lápis, Rob Lean na artefinal, Dika Araújo nas cores e Deyvison Manes nas letras. Tem um preview abaixo, mas legal mesmo é curtir a página do projeto no Facebook para ficar por dentro de tudo (é só clicar aqui!).


A covardia é muito grande
Mas ninguém tá desistindo
Pois dizia Patativa
Num cordel deveras lindo:
“Morre cem de quando em quando
Mil vai substituindo”


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Até mais, "galela"!

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16 de outubro de 2017

É assim que (se re)começa (Lista do Zé #14)


Olá, olá!

Eu voltei... Agora pra ficar... Por que aqui-- Ah, pára vai. Foram meses malucos, numa volta de 180º na minha vida. Entre mortos e feridos, sobrevivi. Mas o que importa é que aos poucos vamos devolver a atividade pra essa bodega.

Além das mudanças no campo pessoal e profissional, tem dois álbuns novos aí querendo nascer e logo eu vou falar deles (no próximo texto, acho). Mas essas histórias... Como nascem? Onde vivem? Do que se alimentam? Eu resolvi escrever sobre (um dos caminhos mais comuns no) meu processo produtivo. Quer começar uma história, mas não sabe por onde começar? Deixa eu te contar como eu faço. Pode te ajudar. Ou não.

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Processo "caótico" 

Existem várias formas de se estruturar uma história. Mckee, Field, Vogler... Pode escolher o teórico de sua preferência. Tem para todos os gostos: 3, 5, 10, 1000 atos. Tem um monte de gente tentando encontrar uma fórmula ou receita para a história (filme, livro, HQ, publicidade etc) comercial perfeita. Eu não gosto de fórmulas, mas entendê-las é bem esclarecedor (e te ajuda dá segurança para seguir sem elas).

Construir uma história não é fácil. Depois de treze anos escrevendo, agora que estou encontrando a minha forma de fazer isso. É uma mistura do que muitos autores ensinam, mas não se parece com nenhum. Ainda assim, os últimos dois quadrinhos que lancei tiveram processos muitos diferentes entre si e ainda mais diferentes dos dois próximos quadrinhos que irei lançar. Quando você pergunta para um autor como é o processo dele é comum ouvir ele dizer "que é caótico". É um clichê e é delicioso confundir as pessoas com essa expressão, mas, pelo menos no meu caso, é a mais pura verdade.

Às vezes vem de uma situação que eu passei ou vi. Às vezes surge enquanto eu vejo um filme ou leio uma história em quadrinhos. Às vezes começa com uma pergunta. Às vezes com um diálogo entre duas pessoas. Às vezes com uma ideia que eu quero defender. Simplesmente surge o insight e eu começo a escrever ao redor dele, loucamente, qualquer ideia relacionada. Além disso, corro para minha estante de coisas não lidas e vejo tudo que possa contribuir com aquela ideia. Vejo filmes na Netflix, converso com outras pessoas a respeito... É hora de imergir no mundo daquela história para conseguir o máximo de informações. E juntar essas informações em algum lugar. Hoje eu junto num documento do Google Drive.

Aí entra um adendo importante: nenhuma história minha é feita nas condições que eu gostaria (como a maioria das pessoas pensa que acontece). Leia-se por condições ideais sentar-se numa mesa durante uma semana, oito horas por dia, para pensar no que vou contar e, realmente, começar a fazer. Com a) trabalho (muito trabalho) e b) crianças (muito mais trabalho), é comum eu me dedicar intensamente a uma história durante alguns dias e deixá-la guardada por meses até ter tempo para voltar nela novamente. E eu esbarrei com a charge do Odyr que inicia este texto nesses dias e descobri que isso não acontece só comigo.

Depois de deixar uma ideia incompleta numa gaveta e passar semanas sem conseguir escrever por motivos do tipo a ou b, o processo de retorno a esta ideia é lento e envolve reler e lembrar muitas coisas, num catatau de letras entre referências de outras obras e coisas que eu mesmo escrevi. Por essas e outras, em Sobre a Escrita (que eu já falei a respeito aqui), Stephen King recomenda que nunca se leia o que se escreveu ontem ou antes de ontem. Sempre em frente, diz o rei, e quando chegar ao final da sua primeira versão você pode (e deve) voltar ao início e revisar tudo. O método é tentador (e provavelmente muito eficaz), mas as milhares de releituras me permitem lapidar a história e minimizar erros, mesmo que produtivamente essa não seja a melhor forma por que demanda MUITO MAIS TEMPO. Funciona para mim? Sim. Mas entre um método meu e outro do Stephen King, a escolha parece meio óbvia, né?

O próximo passo é processar o que juntei, transformando o calhamaço de informações em uma sinopse, tipo aquelas atrás das antigas fitas de videocassete. É um resumo sem entregar muito da história, que convença alguém (neste momento eu mesmo) que aquilo vale à pena. Nas fitas VHS ou nas contracapas dos livros, o final não está lá para não estragar as surpresas da história. Nesse meu caso, o final não está lá por que eu ainda não sei como vai acabar mesmo. Penso essa sinopse de forma publicitária, para saber a força dessa ideia. É provável que ela mude completamente quando o livro for lançado, pelo tanto de voltas que a história dá até que ela realmente fique pronta. Mas naquele momento inicial ela cumpre um papel de me mostrar um vislumbre de como seria aquilo pronto e me convencer de que aquilo merece ser contado (e o tempo, investido).

A sinopse é uma parada muito legal de se fazer. Não sei se é por que trabalho com publicidade, mas adoro pensar em como eu venderei o produto final. Já a etapa seguinte, o argumento, é uma BARRA. Nele preciso descrever com mais detalhes a história, incluindo início, meio e fim. E aí sou confrontado com uma das perguntas mais difíceis de responder para quem escreve histórias: como vai acabar? Pra mim é uma das partes mais complicadas de se fazer. Sou muito exigente comigo mesmo com relação a isso e inclusive sou ciente que errei bastante nesse ponto em trabalhos anteriores. Eu gosto de finais conclusivos, mas que deixam possibilidades abertas, por mais contraditório que isso possa parecer. Vale dizer que É IMPORTANTE SABER COMO A HISTÓRIA VAI TERMINAR ANTES DE SEGUIR PARA AS PRÓXIMAS ETAPAS. Está em caixa alta, por que é um erro comum não seguir este conselho.

Vencido o argumento (e o final), aí vem ele, a estrela da coisa: o roteiro. O roteiro nada mais é do que uma descrição quadro a quadro do que acontece na HQ. Muita gente não entende o que é isso. É comum acharem que um roteiro de HQ também é desenhado (e até pode ser em alguns casos), então eu vou falar de novo de outro jeito: o roteirista descreve, normalmente em forma de PALAVRAS, o que acontece em cada quadro da HQ. O resultado deste processo é um documento longo. Para se ter uma ideia, o roteiro de Quem Matou João Ninguém? tem quase 25.000 palavras, o que equivaleria a metade do tamanho médio de um romance.

Informações soltas, sinopse, argumento... O roteiro usa tudo isso como base, mas sem nenhuma paixão por manter as coisas do jeito como estão. Digo isso por que é comum surgirem ótimas ideias no processo que podem te fazer mudar a história como um todo. Em dos meus roteiros atuais eu tinha muito claro o meu grupo de personagens principais, incluindo um personagem específico, que entrou na história por que eu tinha um ótimo final para ele. Mas quanto mais eu escrevia, mais ele sobrava naquele meio. Até que eu decidi que não fazia sentido ele estar ali. E ploft: já era. Perdi uma baita sacada no final (que vai acabar ficando para outra história), mas ganhei mais espaço para desenvolver os outros personagens.

Depois do roteiro, a história vai para o desenhista (ou ser filmada no caso de um filme). Mais etapas vem pela frente, como desenho, cores, artefinal, letreiramento e editoração... Num grande mercado meu trabalho como roteirista acabaria aqui, no roteiro em si... Mas estamos falando do Brasil e, normalmente, sobra para o roteirista gerir a equipe que faz o trabalho. Mas esse é um assunto para outro texto.

Tem muito mais coisas para escrever sobre criar uma história e eu quero contar mais sobre elas no próximos textos. Mas esse texto ficou longo e eu pensei que parar por aqui aqui ia te deixar muito curioso. Ou seja, um bom final.

Charlie Kaufman está julgando você, que não está escrevendo agora.

Bem rapidinho


  • Em Ritmo de Fuga (Baby Driver) é espetacular, né? O mundo vai descobrindo o diretor Edgar Wright, mas você, que é esperto e lê a Lista do Zé, já tinha descoberto no texto #8.
  • Já viram a terceira temporada de Rick and Morty?
  • Novos CDs do Foo Fighters e do Queens of Stone Age rolando. Já escutaram?
  • E no mês de novembro rola o NaNoWriMo, desafio para escritores que consta em escrever um livro do início ao fim durante o mês de novembro. A proposta é chegar as 50.000 palavras em 30 dias. Se nos próximos treze dias eu matar os dois roteiros que estou fazendo, penso em encarar o desafio e finalmente finalizar meu primeiro romance em prosa. E aí me veio uma maluquice de montar um grupo de apoio com outros autores que vão participar. Não vai ser nenhum tipo de consultoria e nem vamos ficar mandando os textos uns para os outros (se fôssemos ler o que cada um escreve nem teríamos tempo para escrever), mas ter um espaço onde pudéssemos compartilhar nossas experiências e incentivar uns aos outros para chegar no final (como um grupo de corrida nerd). Se estiver afim de participar, manda e-mail para contato (@) zewellington.com.
E como diria King, sempre em frente.

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1 de março de 2017

Rick, Morty e o carnaval (Lista do Zé #13)



Olá, olá!

E este é o texto de fevereiro sendo entregue em... MARÇO. Carnaval + gripe dá nisso. Mas antes tarde do que nunca e o texto deste mês ainda está de pé (eu espero).

Voltaram bem da folia? Quantas horas de séries maratonadas? A indicação de hoje é para curar qualquer tipo de ressaca.

Rick and Morty

Todo mundo tem aquele amigo de Facebook (ou Twitter, para os que ainda usam) que parece prever as tendências cinematográficas ou televisivas. Não é o cara que reproduz o que os grandes sites escreve, mas que vai até onde a grande mídia não vai (ou não recebe para ir) e desencava alguma coisa legal. Foi assim que, há um tempo atrás, eu descobri a série Community, que rapidamente se tornou uma das coisas de tevê mais legais que já assisti (e um dia eu preciso escrever um texto a defendendo daqueles impuros de coração que a detratam). Esse texto não é sobre Community ainda, mas sobre a última aventura do seu criador, Dan Harmon.

Já em Community, vários episódios especiais de animação denunciavam as experiências de Harmon com desenhos animados, já que o cara montou uma empresa só pra isso. E aí, nessa minha "timelinda" das redes sociais, dois nomes começaram a ecoar: Rick e Morty. Apesar de ser apaixonado por animação, talvez eu deixasse passar, com tanta coisa pra ver... Mas aí o Sr. Google me entregou que os dois famigerados personagens que dão nome a esta animação do Adult Swim saíram da cabeça de Harmon, em parceria com Justin Roiland, dublador com programas como A Hora da Aventura e Gravity Falls no currículo. A animação surgiu a partir de uma ideia de Roiland, que produziu uma série de vídeos em flash chamada The Real Animated Adventures of Doc and Marthi, uma paródia non sense (e não recomendada para menores) de De Volta para o Futuro. É bem tosco e você pode ver aqui por sua conta e risco.

Para a tevê, Doc e Marthi ganharam novos nomes e um espectro de aventuras mais amplo: acompanhamos agora o cientista arrogante e bebarrão Rick em aventuras extra-espaciais (ou dimensionais ou CORPORAIS ou aonde for) junto com seu neto Morty. A relação entre os dois lembra muito a dinâmica consagrada em Doctor Who, do ser quase onisciente sobre o universo e tudo mais e sua companion curiosa. A diferença é que Morty é um garoto inseguro e covarde, que na maioria das vezes é arrastado para as aventuras do avô contra a sua vontade.

Tudo é muito maluco nos episódios, mas ainda assim muito bem amarrado. Com muitas referências a grandes clássicos da ficção científica, a animação tem roteiro sempre imprevisível, levando seus finais até as últimas consequências, mesmo que isso envolva humor negro e um pouco de gore. Mas é engraçado como, mesmo assim, existe uma narrativa muito clara onde acompanhamos o quanto os personagens mudam no decorrer da série. Um momento em especial tem uma força poderosa na animação: o forte final do episódio "Rick Potion #9". Dá pra se fazer uma tese de doutorado a respeito dele. De verdade. Quem assistia Community vai entender a habilidade de Dan Harmon em transformar uma aparentemente simples história para rir numa grande mensagem existencialista (alguém lembra do episódio "Remedial Chaos Theory", de Community?).

"Parece Os Simpsons ou South Park?", alguém pode perguntar. Em alguns momentos lembra o primeiro, mas os personagens (especialmente Rick) parecem ter saído do segundo. Falando nos Simpsons, uma propaganda do Adult Swim mostra o que poderia ser o encontro entre as duas séries (e já deixa bem claro as diferenças entre elas).

Mas o humor de Rick and Morty não é fácil, o que foi uma das primeiras razões para eu ter demorado a escrever sobre a animação. Explorar os problemas do American Way of Life faz com que sobrem críticas para todo mundo. Depois de ver as duas primeiras temporadas, ambas disponíveis na Netflix, fiquei maluco para conversar com alguém a respeito. São poucos os textos sobre a animação na web, me fazendo pensar que ela talvez incomode muito mais do que faça fãs, seja por seu lado gore, seja por que algumas piadas, embora não visuais, sejam de embrulhar o estômago.

Ah, a insanidade continua, por que a terceira temporada começa a ser exibida neste mês no Estados Unidos.


Já viu a série? Curtiu? Se sentiu incomodado com alguma piada? Conta aí! Responda este e-mail com seus comentários! Você pode também deixar um comentário sobre esse texto no meu Facebook, no post sobre ele.

Ah, é sempre bom lembrar que estou colocando tudo que leio nos meus perfis no Skoob (me sigam também no meu perfil de autor) e Goodreads e o que assisto está indo pro Filmow. Cliquem nos links e me adicionem por lá.

Já leu Quem Matou João Ninguém? ou Steampunk Ladies? Que tal ir no Skoob e avaliá-los? Você ajuda a mais pessoas saberem se os livros são para elas:

 

Bem rapidinho

  • Quem Matou João Ninguém? e Steampunk Ladies chegaram ao Kindle, para quem sempre me perguntava! Procure na Loja Kindle, caso já seja um adepto da leitura digital como eu.
  • Em mais um episódio da série Roteirismos, do Avantecast, eu e o PJ Brandão conversamos com a Petra Leão (roteirista da Turma da Mônica Jovem) e a Débora Santos (nome em crescimento no quadrinho cearense alternativo) sobre arte comercial e autoral. E ficou bem legal. Escuta aí!
  • E reforçando: vai rolar a CCXP Tour, em Recife, durante a semana santa. Estarei lá, no Centro de Convenções de Pernambuco, de 13 a 16 de abril, dividindo mesa com o parceiro Nycolas Di. Se vai, quero te encontrar lá!
Conhece alguém que gostaria de receber meus textos? É só encaminhar este e-mail e pedir para ele clicar neste link: http://bit.ly/listadoze

Acabou o carnaval, bora nós pra mais um ano!


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30 de janeiro de 2017

E o tal do edital? (Lista do Zé #12)



Olá, olá!

12º texto... Um ano de textos na Lista do Zé! E chegando hoje, no chamado Dia do Quadrinho Nacional. Aos que gostaram do texto sobre Economia Criativa, dessa vez vamos falar sobre como financiar o seu trabalho artístico através dos editais de incentivo.

(Ah, vale lembrar que esses textos podem ser enviados diretamente para seu e-mail, é só se cadastrar no final desta postagem)

(a tira que ilustra este post é do Carlos Ruas)

E o tal do edital?

Meus dois primeiros quadrinhos longos foram lançados com recursos de editais de incentivo. Para quem não sabe esses editais são uma espécie de seleção de projetos para serem apoiados por uma instituição pública (bancos, prefeituras ou governos estadual e federal) ou privada (empresas como Oi, Coca-Cola e muitas outras). Essas instituições têm recursos para investir em projetos culturais. O que elas ganham com isso? Bom, as instituições públicas normalmente fazem isso por que é papel delas dar este apoio e tem orçamentos próprios para isso (e não dá para apoiar qualquer um que bata na porta de uma secretaria ou ministério da cultura). Já as privadas usam esta seleção como uma forma de selecionar projetos que irão patrocinar, recebendo em troca a divulgação da marca da empresa no material promocional do projeto apoiado.

Vou para meu quarto projeto financiado por edital. Às vezes fico até meio envergonhado de falar isso, mas a verdade é que sem esse tipo de apoio eu provavelmente não conseguiria fazer quadrinhos. A esta altura do campeonato você já sabe que eu sou roteirista e que preciso de desenhistas para os meus álbuns, pessoas que posso pagar através destes editais. O que talvez você não saiba é que sem estes recursos quem trabalha comigo teria de esperar o álbum ser lançado, normalmente entre seis meses e um ano depois que o trabalho começa, para começar a ganhar alguma coisa, especificamente quando ele começar a ser vendido (e eu nem vou falar aqui do quanto se ganha com as vendas, mas saiba que é bem pouquinho para quem está começando). E como é que alguém trabalha durante um ano numa coisa sem ganhar nada por ela nesse período? Bom, bem-vindo ao mercado nacional de quadrinhos, este lugar de pessoas apaixonadas e um tanto malucas.

Então o fato é que tenho participado de todo edital que posso desde 2010. Se hoje é bonito falar que ganhei quatro paradas dessas, preciso dizer antes que passei três anos apenas PERDENDO. E mesmo o primeiro edital que ganhei, que possibilitou Quem Matou João Ninguém?, acho que só cheguei lá por que concorri 1) numa categoria de quadrinhos e 2) apenas com projetos do interior do Ceará. Arrisco a dizer que talvez só o meu projeto e o outro vencedor tenham se inscrito na época... Mas meu caso é uma exceção: na maioria das vezes esse tipo de edital é bem concorrido. Algumas áreas da cultura brasileira são extremamente dependentes de editais, como o audiovisual (por conta dos altos custos para ser realizado). Isso faz com que uma seleção nesta área seja um verdadeiro campo de batalha de projetos. Então, o que se pode fazer para ter um pouquinho mais de chance de se acessar esse tipo de recurso?

Primeiramente ter um bom projeto e um currículo interessante, para provar que irá conseguir realizá-lo. É por isso que os editais não são para quem está dando os primeiros passos. Em 2013, quando ganhei meu primeiro edital, eu já tinha nove anos de produção de quadrinhos. Eram fanzines e eventos pequenos, mas coisas que davam CREDIBILIDADE para mim e para o meu projeto. E nem preciso falar da importância dessa experiência para ter uma proposta razoável e que convencesse os avaliadores do edital de que o resultado prestaria, né?

É bom ter em mente também que você vai começar uma relação em que você será extremamente cobrado por quem vai lhe financiar. Por isso já na inscrição rola o primeiro filtro: o da paciência. Os processos seletivos exigem uma série de documentos e é preciso persistência e organização para juntar tudo. Mais do que isso, quem quer pleitear um recurso assim precisa da tal paciência para LER o edital. Parece bobagem, mas a maior parte do segredo de ganhar algo assim está em ler e entender o que é pedido. Muita gente reclama de tanta burocracia, tanto documento, tanta certidão e tanto esclarecimento. Mas veja bem: é dinheiro público sendo "dado" para alguém num país onde a corrupção... Bom, você já sabe. Muitos projetos apoiados em editais não são concluídos nunca. Às vezes por inexperiência ou outros problemas pessoas do artista/realizador (o que valeria até um novo texto). Mas muitas vezes por safadeza mesmo.

Para navegar neste mar de exigências, eu sempre digo para todo mundo que outro fator chave para conseguir ganhar meu primeiro edital foi conversar com pessoas que já tinham ganhado este mesmo edital antes. Eu acho que essa é a dica de ouro para ajudar no entendimento dos pontos mais esquisitos do linguajar burocrata de um edital.

Mas a burocracia é importante para ensinar uma primeira regra para quem quer ser financiado pelo governo: vai piorar se você ganhar. Depois de selecionado, para receber a grana tem mais um pouquinho de burocracia: envio de certidões, abertura de conta bancária, assinatura de convênio... E quando o dinheiro vem, vem também a necessidade de se cumprir as exigências da instituição sobre como vão ocorrer os pagamentos e as prestações de conta. Algumas vezes você recebe a grana numa conta que tem que gerenciar e em outras precisa encaminhar notas fiscais para um setor competente antes ou depois do pagamento. Cada edital tem seu jeito de funcionar. Para você ter uma ideia, um edital do governo do estado que ganhei três vezes funcionou de uma forma diferente em cada uma dessas três vezes. Houveram mudanças BRUSCAS de um ano para o outro na forma de inscrição e de execução. Entender o funcionamento em cada uma das vezes me exigiu várias visitas à secretaria da cultura e muitas ligações telefônicas. E é MUITO IMPORTANTE fazer todos os procedimentos da forma correta, já que, no caso dos editais de entidades públicas, trata-se de dinheiro dos contribuintes. Você terá que prestar conta de cada centavo que gastar. E se fizer algo errado e não conseguir justificar adequadamente, corre o risco de ter que devolver TUDO com correção monetária.

E caso você não seja muito habilidoso com essa burocracia? Bom, pode ser que os editais não sejam o meio ideal para você financiar o seu projeto. Mas ainda há uma alternativa para o seu caso, que seria contratar alguém para fazer o projeto e lhe dar consultoria na sua execução. A maioria dos editais permite que um valor seja previsto para isso (mais uma vez: consulte o texto do edital que está participando).

Por último, editais não são boas opções para quem não gosta de prazos, já que geralmente você já entra no edital sabendo quando tem que terminar seu projeto. Quase sempre é possível negociar possíveis adiamentos, mas eles dependem de autorização da entidade que está financiando sua arte.

Vale lembrar que existem outras formas de se financiar produção de arte no Brasil (nos futuros textos espero falar mais sobre elas). E aí, pronto para correr atrás da grana vai ajudar a realizar o seu trabalho?



Gostou do texto? Você pode também deixar um comentário abaixo ou no meu Facebook, no post sobre ele.

Ah, é sempre bom lembrar que estou colocando tudo que leio nos meus perfis no Skoob (me sigam também no meu perfil de autor) e Goodreads e o que assisto está indo pro Filmow. Cliquem nos links e me adicionem por lá.

Já leu Quem Matou João Ninguém? ou Steampunk Ladies? Que tal ir no Goodreads e avaliá-los? Você ajuda a mais pessoas saberem se os livros são para elas:

 Bem rapidinho

  • Para quem é do Ceará, está abrindo amanhã o Edital de Incentivo às Artes do Governo do Estado do Ceará. É o bendito edital que financiou meus primeiros trabalhos. Não percam esta oportunidade. Mais informações aqui.
  • A esta altura você já deve estar sabendo que vai rolar a CCXP Tour, em Recife durante a semana santa, confere? Estarei lá, no Centro de Convenções de Pernambuco, de 13 a 16 de abril, dividindo mesa com o parceiro Nycolas Di. Já salvem na agenda.
 

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30 de dezembro de 2016

Falou, 2016! (Lista do Zé #11)



Olá, olá!

2016 já era e eu tenho que dizer: MUITO OBRIGADO! Os textos da Lista do Zé me mantiveram escrevendo e buscando coisas para ler e assistir (neste ano que eu fiz as duas coisas bem pouco). 2017 vem chegando cheio de promessas, entre elas três possíveis novos álbuns em quadrinhos (que eu espero falar mais no próximo texto). Eu mal posso esperar. Por enquanto, vamos de indicação de filme pra tentar terminar este ano estranho em alto astral.

Apenas cante

Será que o diretor John Carney sabia que filmaria um dos momentos mais lindos da história do cinema quando entrou numa loja de música para captar Glen Hansard e Markéta Irglová tocando Falling slowly no filme Apenas uma vez (Once)? Segundo meu correspondente irlandês, por essas e outras, o filme se tornou um patrimônio do audiovisual na Irlanda, sendo hoje um musical permanente exibido em Dublin. Eu demorei pra conhecer esse filme e o trabalho do diretor irlandês. Num dos primeiros podcasts que gravei pro Iradex, falamos sobre o filme Mesmo se nada der certo (Begin again). Eu ainda não tinha visto o filme e fiquei curioso demais por falarem da forma como Carney tratava a música em seus filmes. Vi o filme e depois foi inevitável não assistir Apenas uma vez e ficar completamente obcecado pelo trabalho do diretor. E aí, no segundo texto da Lista do Zé, eu cantei uma bola: tinha saído o trailer do novo filme de John Carney... e o longa deve ser bom. Sing Street estreou em abril e, infelizmente, passou longe dos cinemas daqui (pelo menos por enquanto). Mas eis que, num plot twist inesperado, o filme aparece na Netflix.

Em Sing Street: Música e sonho, Conor é um garoto vivendo na Dublin da década de 1980. Não bastasse a adolescência ser o que é, Conor encara o fim do relacionamento dos pais e os abusos de uma escola conservadora, seja por parte do valentão da vez, seja pelo padre-diretor-perseguidor. Mas tem algo ali que ainda vale muito a pena. Tem toda a efervescência musical dos anos 80. E tem uma garota.

Sing Street: Música e Sonho é até parecido com os filmes anteriores de Carney, já que mostra personagens tentando realizar seus sonhos através da música enquanto acompanhamos o desenrolar de um amor "complicado". Por ser baseado nas memórias de infância do diretor, acho que aqui encontramos algumas das explicações pro seu modo de fazer cinema. Numa parte específica do filme, Conor (ou Cosmo) aprende que o amor é essa coisa "feliz-triste", uma sensação comum a esta última trinca de filmes de Carney. Quem já viu os dois filmes anteriores sabe que seus finais felizes também deixam um gosto amargo na boca. Mas todo esse amargor é dissipado pela aura musical que emana das suas obras, neste último filme homenageando tudo que foi a década de 80, com Duran Duran, The Cure e tudo o mais que você achar que era necessário para ser educado nos anos 80. Sobre esta educação, cabe a Brendan, irmão mais velho de Conor, o papel de mentor nesta jornada musical.

O filme é um espetáculo à parte no momento em que vemos o processo de composição da banda Sing Street, gerando lindos momentos de catarse musical (e espetacular edição de áudio, diga-se de passagem). Se Apenas uma vez gerou a linda Falling slowly e Mesmo se nada der certo a maravilhosa A step you can't take back, Sing Street tem tantas músicas legais que é difícil escolher uma só como o ponto máximo do filme. Pessoalmente elegi Up como a clímax musical do longa. Até pensei em deixar links dos vídeos dessas músicas, mas eu acho um sacrilégio elas serem assistidas primeiro fora do filme. Veja os filmes primeiro e depois se perca nas trilhas sonoras (todas disponíveis no Spotify). E olha só, faltam três dias pro final do ano. Por que não assistir um filme de Carney por dia e acabar o ano com um sorriso no rosto?

Um adendo final sobre o filme é dizer que ele também é sobre irmandade, como a sequência final e a última frase exibida antes dos créditos deixa a entender. E eu lembrei muito do meu correspondente irlandês enquanto assistia o filme. Meu irmão Leco está desde o início do ano em Dublin (MAS NÃO VIU ONCE AINDA!!!!!). E fez aniversário no último dia 28, veja só. Parabéns, Leco! E depois deste filme aprende a escutar mais as bandas que eu sugiro...


Você pode também deixar um comentário sobre esse texto no meu Facebook, no post sobre ele.

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Bem rapidinho

  • Dia 7 de janeiro minha banda Sobre o Fim vai estar no Garage Sounds, em Fortaleza. Bora?
  • Eu e o PJ Brandão convidamos os roteiristas Pablo Casado e Marcio Moreira para falar sobre diálogos nos quadrinhos. Pessoalmente eu gostei muito do resultado. Escute aqui!
  • De novo com o PJ e de novo em podcast, mas agora com o Kaio Anderson e o Gabriel Franklin, conversamos sobre como os serviços de streaming estão nos transformando. Muitas previsões para o futuro do entretenimento neste link.

E até 2017!


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