21 de junho de 2019

O evangelho de Evangelion (Lista do Zé #24)


Olá, olá!

Um dos animes mais amados de todos os tempos está disponível novamente! Nesse texto eu falo sobre Evangelion, animação japonesa que eu fiz um esforço absurdo para acompanhar no final dos anos 90 (via fitas VHS mal gravadas) e agora você pode assistir no conforto da sua Netflix. A criação máxima do estúdio Gaynax e do diretor Hideaki Anno agora pode ser apreciada por uma nova geração de amantes das boas (e um pouco complexas) histórias.

Mas primeiro...

Preciso avisar que Cangaço Overdrive está de volta às prateleiras, depois de ter esgotado no site oficial da Editora Draco e em alguns dos principais fornecedores online. A segunda tiragem do quadrinho já está disponível na loja online da Draco ou na Amazon. Enjoy!

Além disso meu parceiro Walter Geovani está vendendo edições diretamente, incluindo um sketch original de brinde. Para adquirir, deixem mensagem lá no Instagram dele: instagram.com/walter_geovani_wg

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Clássico moderno

A Netflix acaba de disponibilizar em seu catálogo Neon Genesis Evangelion, um dos maiores clássicos da animação japonesa dos anos 1990. Pergunte a qualquer pessoa que tenha acompanhado a série na época do lançamento o que ela lembra a respeito e, além da marcante música de abertura, provavelmente você ouvirá duas coisas: 1) os robôs gigantes e 2) a trama complexa. É reduzir demais colocar Evangelion apenas nestes dois pontos, mas são bons lugares para começarmos esse texto.

Então, sim, tem uns robozões. Robôs gigantes (os mechas) estão incrustados na cultura pop japonesa, desde os live actions do tipo metal hero e tokusatsu (Jaspion e Changeman, respectivamente) até animações como Gundan e Macross. Para justificar os robôs, a trama do anime se passa em 2015 (que seriam 20 anos no futuro na época do lançamento), num Japão distópico onde adolescentes são os únicos pilotos possíveis para máquinas de guerra gigantes, os EVAs. Logo no primeiro episódio entendemos quem essas máquinas gigantes têm de enfrentar: criaturas poderosas conhecidas como Anjos (e só isso já é de dar um nó na cabeça). Em meio aos confrontos, acompanhamos Shinji Ikari, um destes pilotos adolescentes, nos seus primeiros momentos como piloto do Eva-01. Abandonado na infância, Shinji volta à cidade natal para um momento de reconciliação, mas acaba frustrado quando descobre que seu pai é o líder dessa resistência contra os anjos e queria apenas que ele pilotasse o Eva-01. Esse conflito entre pai e filho (e o passado por trás dele) é apenas um dos temperos do caldeirão do anime, que tem nas batalhas um pequeno percentual do seu tempo de tela. O que não faltam por aí são textos falando que o próprio uso dos mechas no desenho denota uma crítica dos criadores à falência da sociedade japonesa, utilizando elementos dos mangás e animes, patrimônios nacionais do país. Isso sem falar em várias questões existencialistas levantadas pelos personagens, todos nitidamente lutando contra traumas psicológicos próprios.

É aí que entramos no segundo ponto de destaque de Evangelion. Sem dúvidas temos aqui um dos roteiros mais inventivos e também mais complicados já criados em uma animação seriada, uma ficção científica existencialista com elementos da Cabala, do Cristianismo, do Judaísmo e do Xintoísmo. É a típica história que começa no meio e você se vê dentro de um furacão junto com o protagonista, que cresceu isolado de tudo e representa nossas dúvidas dentro da trama. Uma coisa que é necessária dizer pra você que vai encarar o anime pela primeira vez é que a maior parte dos mistérios da trama não será explicada. O anime é aberto a muitas interpretações e isso funciona muito bem na maior parte da trama. Mas é importante dizer que nem sempre esse mistério todo, beirando a psicodelia em alguns momentos, é proposital e bem conduzido. Evangelion teve uma série de problemas de produção, especialmente em seus últimos episódios, o que levou a um final forçado na série, com sérias restrições orçamentárias. Não é preciso ser expert para perceber isso, ainda mais quando em vários episódios você passa longos minutos numa tela estática e apenas ouvindo os personagens falando. A maior parte da ação (e ação BOA, diga-se de passagem) está na primeira metade da série. É óbvio que há um sem fim de ideias boas também para contornar os problemas de produção, como o fato de que os anjos vão tendo suas formas exploradas de forma absurda no decorrer da série, até serem muito mais do que monstro gigantes.

Para compensar os probleminhas desse final, a série original já foi reeditada mais de uma vez e ainda ganhou um longa-metragem resumo (Evangelion: Death (True)²) e outro que finaliza o confronto com os anjos (The End of Evangelion), também disponíveis na Netflix.

E se você está em dúvidas sobre ver ou não, eu digo que vale a pena! A última vez que vi foi no ano passado e continua muito bom. Se tramas cabeçudas são sua praia, você não irá se decepcionar. Boa parte do gostoso de acompanhar algo assim é gastar horas lendo sobre teorias na internet depois... Definitivamente Evangelion é um desses raros casos em que vale a pena se perder nos vídeos de “final explicado”.

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Já viu Evangelion? É sempre bom lembrar: responda este e-mail com seu comentário e ele chega na minha caixa de entrada. Você pode também deixar um comentário aqui ou ainda no meu Twitter, Facebook ou Instagram.

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Levanta a cabeça, Shinji!

25 de maio de 2019

Cordel de Cangaço Overdrive + indicações brasileiras steampunk (Lista do Zé #23)


Olá, olá!

Falei no texto passado que meu próximo projeto é o segundo volume de Steampunk Ladies. Depois de quatro anos do lançamento do primeiro, garanto que a espera vai valer a pena! Pensando nisso, preparei um pequeno guia com a indicação de algumas obras recentes nacionais na temática steampunk, pra você ir entrando no clima.

Além disso, falo sobre minha primeira publicação em literatura de cordel: Cangaço Overdrive: Passado e futuro. Este cordelzinho foi distribuído para quem comprou minha HQ Cangaço Overdrive na CCXP 2018 e agora é a sua vez de ter acesso em formato PDF. Vale dizer que não tem spoilers do quadrinho original, então pode ler antes dos quadrinhos, tá? E para quem já leu a HQ, é hora de conhecer um pouquinho mais sobre a origem dos personagens dos grupos de Cotiara e Rosa.

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Uma das coisas mais elogiadas em Cangaço Overdrive é a narração em cordel. Foi uma das primeiras ideias que tive antes de iniciar o roteiro do quadrinho. Não sou poeta, mas rimar uma história não era pra ser tão complicado, afinal eu tive banda por mais de dez anos e já compus algumas músicas, certo?

Na prática o negócio foi mais complexo (imagina aí acertar texto e imagem, tendo que se preocupar com a rima e também com a métrica própria do cordel?). De qualquer forma, depois dessa experiência maluca eu fiquei doido pra fazer mais. Então para a CCXP do ano passado eu pensei que um brinde legal seria um pequeno cordel, que foi impresso e depois cortado e montado manualmente. O cordel explora a origem de alguns dos personagens da HQ. Agora é sua vez de tê-lo, clicando no link abaixo:

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Steampunk brasileiro

Lá pela década de 80 a ficção científica vivia um dos seus momentos de ouro, especialmente na literatura. Nesse contexto foi criado o tal cyberpunk (já falei um pouco sobre isso), título de um conto do escritor Bruce Bethke e que acabou definindo um novo gênero. A frase que resume o estilo é o "high tech, low life", referindo-se a um futuro extremamente tecnológico, mas de péssimas condições de vida. Já no final da década de 80, o escritor K. W. Jeter, procurando uma expressão para designar trabalhos que se passavam no passado e que remetiam aos conceitos do cyberpunk, cunhou o steampunk. Ao invés do futuro, os cenários/períodos históricos favoritos do gênero eram a Era Vitoriana Inglesa e o Velho Oeste Americano pós-segunda revolução industrial, por isso o "steam" do nome, uma alusão à tecnologia a vapor vigente na época. A principal brincadeira era imaginar estes períodos com tecnologia mais avançada. Vale dizer que depois surgiram outras vertentes, com combustíveis diferentes alimentando as cabeças dos autores: teslapunk (em alusão às primeiras máquinas elétricas), dieselpunk (diesel das máquinas nas guerras mundiais), atompunk (energia atômica) e até solarpunk (que leva a discussão de volta para o futuro, com energias limpas). Mas esses outros ficam para um próximo texto...

E no Brasil? Muita coisa stempunk tem sido lançada no Brasil nestes mais de trinta anos. Fazer uma lista é um negócio espinhoso e para essa me concentrei em trabalhos mais recentes. Lá no meu blog eu pretendo aumentar esta lista nos próximos meses (e tô guardando na agulha um texto sobre ficção científica nacional em que quero explorar os títulos mais clássicos, em breve neste mesmo canal).


Vaporpunk

O Steampunk feito no Brasil se enraizou no fandon primeiramente através de livros de contos, especialmente antologias de editoras de gênero. Embora não possa deixar de reconhecer os trabalhos de editoras como a Tarja (in memorian) e a Estronho, foi a Draco que pavimentou essa estrada, especialmente com os dois volumes de Vaporpunk. Embora livros de contos de autores diferentes costumem apresentam trabalhos melhores e piores, considero o nível dos dois livros bem alto, possivelmente por que temos alguns dos escritores mais prolíficos do gênero no país: Octavio Aragão, Flávio Medeiros, Eric Novello, Carlos Orsi, Fábio Fernandes, Romeu Martins, Dana Guedes, Nikelen Witter, Luiz Bras, Sid Castro, Jacques Barcia, Cirilo S. Lemos e Gerson Lodi-Ribeiro. Vale dizer que o primeiro volume também tem participação de autores portugueses. Esses livros foram só o pontapé para uma coleção chamada Mundo Punk, que também incluiu as coletâneas Dieselpunk e Solarpunk (que foi uma das primeiras iniciativas no gênero do mundo e já foi traduzida para o inglês). Nada como encerrar o ciclo com um livro sobre Cyberpunk, que iniciou todo o gênero, né? Na campanha que está rolando do livro, tem uma recompensa para levar TODOS os livros do Mundo Punk (mais a coletânea em quadrinhos Periferia Cyberpunk) por apenas R$ 200,00. Apoie a coletânea até o dia 29/05 e leve a coleção completa por esse precinho camarada!

Le Chevalier

Um espião francês sem passado é o indicado por Napoleão em casos em que o Império Francês precisa resolver com discrição. Iniciado num romance do escritor A.Z. Cordenonsi, Le Chevalier e a Exposição Universal, as aventuras do personagem seriam expandidas também para uma série de contos e duas histórias em quadrinhos, Le Chevalier: Arquivos Secretos Vol. 1 e Le Chevalier nas Montanhas da Loucura (com roteiros do escritor e desenhos de Fred Rubin, que eu considero o "Mignola brasileiro"). As aventuras do cavaleiro são uma boa pegada para quem gosta de histórias despretensiosas e cheias de ação.

Brasiliana Steampunk

Se na indicação anterior o autor resolveu expandir seu universo além da literatura, aqui nós vamos ainda mais longe. Estudioso da arte transmídia, o escritor Enéias Tavares toca o ambicioso projeto Brasiliana Steampunk, que concentra a história num Brasil ficcional onde personagens clássicos da nossa literatura interagem entre si. No centro das tramas, um grupo de aventureiros autodenominado Parthenon Místico. Os passos que consolidaram este universo foram dados no romance policial A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison, que narra através de cartas e "gravações mecânicas" os acontecimentos que se seguem após a prisão de um assassino serial na cidade de Porto Alegre dos Amantes. Não bastasse ter escrito um dos romances mais inventivos da ficção científica nacional, Enéias seguiu ampliando seu universo em direção a outras linguagens, incluindo vários contos, um suplemento escolar, áudios dramáticos, um jogo de tabuleiro (Cartas a Vapor), webcomics e agora uma audaciosa série em live action. Dá pra se perder por bastante tempo neste universo!

Arcane Sally & Sr. Vapor

Lançada primeiro online no Tapas em inglês e depois impressa em edição nacional numa campanha no Catarse, a história em quadrinhos Arcane Sally & Sr. Vapor é escrita pelo norte-americano David Alton Hedges com desenhos do brasileiro Jefferson Costa (La dançarina, Jeremias: Pele). Misturando os conceitos científicos do steampunk com fantasia (uma tendência nos últimos anos), acompanhamos Sr. Vapor, um agente da coroa britânica, e seu fiel valete Sr. Runnymede em caça a um criminoso que supostamente voltou dos mortos. Para isso eles contarão com uma nova e misteriosa parceira, Miss Sally. Essa edição nacional compila os três primeiros capítulos da webcomic (que é tudo que saiu até agora... Cadê o resto, Jefferson??).
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Depois quero saber sua opinião sobre o meu cordelzinho! Tem outras indicações steampunk nacionais? Comente aí embaixo. Você pode também deixar um comentário sobre este texto no meu Facebook ou no meu Instagram.

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Alimentem as caldeiras, que tenho um quadrinho para terminar!

29 de março de 2019

O Príncipe Dragão (Lista do Zé #22)


Olá, olá!

Com muitos projetos em andamento tá complicado impedir alguns "hiatos" nos meus textos. Nunca antes estive tão envolvido em projetos relacionados à arte como agora. Tem quadrinhos, cinema e talvez até um retorno à música em andamento. Ainda que eu não consiga dar uma data AINDA, meu próximo projeto é a continuação de Steampunk Ladies, quatro anos após o lançamento do primeiro volume. Segurem as pontas, por que está saindo.

Eu tinha preparado outro texto pra hoje, mas nessa semana consegui concluir a segunda temporada de O Príncipe Dragão, animação que eu indiquei rapidamente no texto passado. Tenho que dizer que fiquei maluco no final, pensando em várias coisas em que a série me afetou, e acabei colocando esse texto na frente para tentar convencer vocês a também conhecer a série, já que eu vejo tão poucas pessoas falando a respeito dela. Será que eu consigo?

Ah, antes disso, Cangaço Overdrive está concorrendo ao Prêmio Le Blanc de Arte sequencial, Animação e Literatura Fantástica e QUALQUER PESSOA pode votar. Concorremos na categoria HISTÓRIA EM QUADRINHOS NACIONAL PUBLICADA POR EDITORA. Se curtiu o quadrinho e quer ver seu legado continuar, separe dois minutinhos pra votar neste link: http://bit.ly/CotiaraNoLeblanc

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Quando numa San Diego Comic-Con anunciaram O Príncipe Dragão (The Dragon Prince), me empolguei bastante. À frente de qualquer descrição sobre a trama surgia apenas a frase: "Dos mesmos criadores de Avatar: A Lenda de Aang)". Como grande fã de Avatar e de sua sucessora, A Lenda de Korra, era empolgante vê-los numa tentativa de criar um novo mundo de fantasia. Mas confesso a grande tristeza quando vi o primeiro trailer de O Príncipe Dragão... Ao que parece o público infantojuvenil tem demonstrado uma certa aversão ao estilo tradicional de animação, o que tem feito a maior parte das produtoras apostar nas animações em 3D. Em OPD (vamos abreviar para facilitar) isso se repete, com o adicional de uma escolha questionável pela diminuição da taxa de quadros (efeito que faz parecer às vezes que estamos assistindo um slideshow ao invés de um desenho animado). Lá mesmo, naquele trailer, eu condenaria essa técnica. Preciso dizer que eu queimei minha língua sobre ela alguns anos depois, ao ver Homem-Aranha no Aranhaverso, que se utiliza muito melhor do mesmo recurso. O fato é que OPD nem de longe tem o charme da animação do teioso. Era o fim, certo? Como encarar uma animação que incomoda tanto? Com um bom roteiro, claro.

Na trama de OPD, os irmãos e príncipes humanos Callum e Ezran começam uma inesperada parceria com Rayla, uma elfa assassina enviada para matá-los. Trabalhando em conjunto, eles embarcam em uma jornada épica na busca de paz para seus reinos em guerra.

O tal criador de Avatar envolvido em OPD é Aaron Ehasz, na verdade um dos principais roteiristas da animação já clássica da Nickelodeon. Junto dele, outras cabeças ligadas principalmente ao mercado de videogames, pessoas que contribuíram em jogos como League of Legends e Uncharted (e vale dizer que há um game de OPD já em desenvolvimento). Com um pé na jornada aventuresca da animação de Aang, mas em alguns momentos alçando voos que a aproximariam de Game of Thrones (ou uma versão para todos os públicos dela), a equipe de criadores e roteiristas conseguiu criar um intrigante trama que explora de forma muito competente contornos familiares e políticos.

"Mas Game of Thrones, Zé? Sério mesmo?". Um dos grandes trunfos de OPD são os personagens, tão tridimensionais quanto a animação em si, o que lembra muito a série da HBO. Em muitos momentos é até difícil definir os antagonistas, criaturas tão (ou mais) interessantes que a trinca principal de protagonistas. Só no final da segunda temporada é que se tem uma dimensão maior das forças antagônicas da série (ou pelo menos eu acho que tive). Sobre os personagens, é interessante ressaltar a forma sensível como a diversidade é representada, com um casal de rainhas, um lobo deficiente físico, um pirata cego e ainda a sensacional Amaya. Esta última, uma das minhas personagens prediletas, é uma general surda e muda que se comunica com os outros personagens através de libras. Esses discursos acontecem de forma tão natural que esse é o tipo de desenho animado que eu quero que minhas filhas vejam mais e mais no futuro.

Mas o fato de ser influenciada por cenários de alta fantasia como GOT não impede que a série explore de forma muito satisfatória um dos itens obrigatórios das animações infantojuvenis: o humor. Mesmo em momentos mais dramáticos, os personagens ainda fazem piadas sobre suas próprias situações, equilibrando bem os positivos e negativos. O destaque fica para a personagem Claudia. Tão obscura quanto a magia que usa, Claudia tem alguns dos melhores momentos de humor, enquanto tem um dos arcos dramáticos mais misteriosos da série.

Tudo isso em apenas duas temporadas curtas de nove episódios cada. A animação, que é uma série original Netflix, parece estar ainda longe de terminar. E tem potencial para se tornar algo ainda muito maior.


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Salvem o príncipe dragão!

27 de dezembro de 2018

Pra começar 2019 com animação (Lista do Zé #21)


Olá, olá!

Estranhou a falta de um "boas festas" no texto anterior? É por que eu ainda tinha uma carta na manga. Quem me conhece sabe que sou apaixonado por desenho animado, em todos os seus gêneros, espectros e nacionalidades. Inclusive, é um sonho meu um dia poder me envolver com isso. Então juntei algumas coisinhas pra começar 2019 com animação (tudunts!). Não é uma lista de melhores do ano por que a) nem tudo é de 2018 e b) bem que eu queria ter visto coisas o suficiente pra fazer uma lista dessa com propriedade mas o tempo não deixa. Por sinal, o que eu mais gosto das indicações abaixo é que são séries com episódios curtos e que são facilmente encaixáveis em momentos livres. E, tirando o bônus, todos estão disponíveis na Netflix. Ah, para dicas diárias e em tempo real, me siga no Instagram: instagram.com/zewellington


1. O PRÍNCIPE DRAGÃO

Foi quase, MAS QUASE MESMO, que deixei passar O Príncipe Dragão. Vendida como a nova animação das mentes criativas por trás de Avatar: A Lenda de Aang, a série se passa num mundo fantástico que me lembra mais Game of Thrones. Mas se a pegada da animação é bem mais pra família, o desenho animado e a série da HBO têm mais coisas em comum: apresentam personagens complexos e a mesma perspectiva sobre as nuances complexas entre o bem e o mal. Um dos maiores exemplos é o Lorde Viren, antagonista dessa primeira temporada. Habilidosamente os roteiristas manipulam seus interesses entre os dois lados da trama e o espectador nem sabe direito no que acreditar. E eu poderia facilmente construir um texto sobre cada um dos três personagens do grupo principal da série ou ainda dos incríveis coadjuvantes (como Claudia e Amaya), mas não quero estragar nenhuma surpresa. Resumindo: o roteiro é definitivamente o ponto alto. Como eu disse antes, eu quase dispensei a série, por conta do seu principal defeito já presente desde o primeiro trailer: a animação. A técnica de computação gráfica estranhíssima escolhida pela produção, com uma taxa de quadros por segundo reduzida, quase põe tudo a perder. Em algumas cenas de ação mais rápidas a impressão é que o vídeo está travando. Mas vá na fé, os olhos se acostumam rápido e a história envolve de uma forma que rapidamente vai embora a curta primeira temporada.

2. VOLTRON - O DEFENSOR LENDÁRIO

Estamos ainda naquelas produções em que, pelos trailers e divulgações, eu não daria nada. Remake de um anime da década de 80, Voltron – O Defensor Lendário é uma grande homenagem a essas produções de “mechas”, conhecidas vulgarmente como “filminhos de robô gigante”. A pegada aqui não é Power Rangers, mas algo mais pra Macross ou Gundam, outros clássicos japoneses. Beleza? Não, não. Esquece isso. Voltron, o robô lendário da série, se monta talvez umas quatro vezes na primeira temporada de 11 episódios da série. Capitaneado por uma experiente equipe de animação, o desenho animado ganha contornos complexos e histórias que focam no passado dos pilotos dos leões que formam o robozão. Como showrunners temos dois nomes quase ocultos do mainstream, mas que figuraram entre os principais desenhos animados lançados nos últimos vinte anos: Lauren Montgomery e Joaquim dos Santos (não estranhem o nome, Joaquim nasceu em Portugal). Os dois estiveram à frente de boa parte das boas (e algumas ótimas) animações lançadas pela DC Comics nos últimos vinte anos e ainda o já citado Avatar: A Lenda de Aang e sua continuação A Lenda de Korra. Dito isso, já se sabe o que esperar: uma trama cheia de nuances, com muita cabeça mas também bastante coração. E as lutas de robô contra monstros? Ah, tem delas também. São poucas, mas quando acontecem ocupam quase episódios inteiros e são bem empolgantes. Voltron não é a melhor coisa que você vai assistir na vida, mas vai te divertir bastante. Só vi a primeira temporada (de 2016) e assistir até a oitava já lançada é uma das primeiras resoluções para 2019.

3. HILDA

Provavelmente a melhor animação de 2018 na minha opinião, Hilda é uma adaptação da série de histórias em quadrinhos do mesmo nome, criada pelo inglês Luke Pearson. A animação aproveita um pouco dos quadrinhos, mas segue seu rumo próprio levando a personagem que dá nome às histórias para uma aventura na cidade. Olha, eu tenho duas filhas, uma de cinco e outra de três anos, e é um desafio diário encontrar coisas que consigam capturar a minha atenção e a delas ao mesmo tempo. Quando encontramos algo que elas gostam, é bobo demais pra mim. Aí eu encontro algo que eu gosto e parece perfeito pra elas e... Elas não tão nem aí. Quem é pai sabe como é. Por isso Hilda é ouro puro. Uma animação fofinha, com um design de personagens lindo, cenários de degradê hipnotizantes e trilha sonora de vídeo-game (feita pela canadense Grimes), capazes da tarefa hercúlea que é prender a atenção de uma criança com menos de dez anos. E ainda consegue usar todos esses elementos para embalar uma história poderosa, cheia de fantasia e mensagens positivas e onde nada é o que parece. E nada é por acaso também. Tudo acontece por um motivo e episódios que parecem isolados se conectam numa grande história. Hilda é uma verdadeira obra de arte da animação moderna. Se esse tipo de filme é a sua pegada, só veja.

4. RICK AND MORTY

Já falei sobre as duas primeiras temporadas de Rick and Morty (leia aqui). De uns tempos pra cá o negócio virou uma febre (e foi um dos temas que mais vi na CCXP deste ano). Então corre, por que a terceira temporada tá na Netflix! Sem dar muitos spoilers, eu adianto que é a temporada mais sombria e filosófica da série. No mesmo episódio que Rick vira um pickle (Pickle Rick!) e protagoniza uma (VIOLENTA) homenagem ao cinema de ação das décadas de 80 e 90, temos uma análise da família dos protagonistas num consultório psicológico que é um dos diálogos mais bem escritos que assisti nos últimos tempos. Rick and Morty continua uma animação MUITO ERRADA (e inapropriada para menores de 18 anos). Mas ainda assim é impossível deixar de assistir.

5. OSWALDO

Esse é um bônus, ok? Isso por que das animações que eu tô indicando aqui Oswaldo é a única que não tem na Netflix (mas deve estar disponível no Cartoon Network Já!, para quem tem CN na sua tevê por assinatura). Vivemos um momento incrível na animação nacional. O Brasil conseguiu derrubar várias barreiras e vincular seus conteúdos em canais como Discovery Kids, Cartoon Network e os canais da Disney, junto com algumas das maiores produções do mundo. E não é simplesmente uma cota sendo cumprida: algumas dessas animações estão entre as mais assistidas dos canais onde são vinculadas. Oswaldo, que mostra o dia a dia de um pinguim de 12 anos dentro de uma família “normal”, é um desses bons exemplos. Criado por Pedro Eboli e pelo Birdo Studio, a animação é um prato cheio para quem viveu sua adolescência entre internet, RPG e vídeo-games na (não mais tão próxima) década de 90. Com roteiros espertíssimos, o desenho sabe como fazer rir. Os 13 episódios da primeira temporada têm 11 minutos cada de humor bem feito para todas as idades. Oswaldo foi a animação mais assistida na Cartoon Network em 2017, mesmo enfrentando gigantes como Hora da Aventura e Steven Universo. Uma façanha merecida. E a segunda temporada vem aí em 2019.

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2018 foi um ano maluco pra mim. Mas foi o ano de Cangaço Overdrive, então acho que valeu muito a pena. Estou sendo marcado em algumas listas de melhores do ano e recebendo críticas e resenhas incríveis do trabalho (a última foi essa do Judão). Muito obrigado a todo mundo que comprou e/ou divulgou o quadrinho. Vocês me ajudaram a fazer esse ano um pouco melhor.

Para 2019 tem a continuação de Steampunk Ladies: Vingança a Vapor no forno, uma adaptação literária para HQ e uma vontade imensa de voltar à prosa (e, quem sabe, pelo menos terminar de escrever a primeira versão do meu primeiro romance). Existem outros projetos menores e muitos obstáculos. Mas eu sigo da mesma forma como sempre segui em toda minha vida: um passo por vez.

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Agora sim: um ótimo final de ano para todo mundo!

21 de dezembro de 2018

CCXP: como é estar no coração do evento (Lista do Zé #20)

FOTO: Autógrafos na mais perfeita ergonomia na Alley da CCXP.


Olá, olá!

Este ano lancei um quadrinho novo e já emendei a divulgação dele com a participação na Comic Con Experience, mais conhecida como CCXP, o que deixou esse semestre bem intenso. Por sinal, vou falar um pouquinho nesse texto da experiência de expor no evento e de participar como artista em convenções do tipo. Vai!

No coração do entretenimento brasileiro


Só no quinto ano de realização consegui participar pela primeira vez da CCXP, grande evento de entretenimento encabeçado pelo site Omelete e pela agência Chiaroscuro Studios (além de vários outros parceiros). Embora nunca tenha participado de eventos do tipo fora do Brasil, sei pelos depoimentos dos organizadores que a CCXP é baseada em eventos como a San Diego Comic Con e a New York Comic Con. O comic no nome já denuncia que os quadrinhos tiveram papel importante na origem desses eventos, mas já lá fora os estúdios de cinema (e agora também de televisão) vêm conquistando os maiores espaços de exposição. Aqui no Brasil não é diferente: nossa versão brasileira de uma grande convenção já é marcada pela divulgação dos grandes blockbusters vindouros. Mas os quadrinhos resistem e estavam representados nesta CCXP na participação de editoras como Panini, JBC e Jambô e ainda pela imensa Artists’ Alley, local onde se concentram os chamados artistas independentes (eu poderia fazer um texto inteiro sobre o uso do termo “independente” aqui, mas vou deixar pra uma próxima vez).

Há uma seleção acirrada pelo espaço na AA da CCXP. Foram aproximadamente 540 selecionados entre mais de 1.000 inscrições. Nós pagamos para ter um espaço lá, um valor que, embora venha crescendo ano a ano, ainda é menor do que o valor dos ingressos de quem vai apenas pra curtir. Para os artistas a CCXP é trabalho PESADO. Por contrato não podemos abandonar nosso espaço no evento. Embora na maioria dos casos as mesas do AA sejam duplas e permitam um rodízio (e este ano tive a companhia incrível do roteirista e letrista das estrelas Deyvison Manes), dificilmente quem está lá quer se ausentar do seu espaço, já que isso significa perder vendas (e num evento gigante como a CCXP, é pouco provável que alguém faça o mesmo caminho duas vezes). Em um dos dias, fora pequenos intervalos para banheiro e lanche, cheguei a ficar 10 HORAS na minha mesa em atividade intensa. Por que se os grandes nomes internacionais (alguns brasileiros, inclusive) podem se dar ao luxo de ficar sentados esperando as filas de autógrafo se formarem na sua frente, para a maior parte dos autores uma nova função na sua carreira precisa ser desenvolvida neste período de cinco dias de evento: VENDEDOR.

A maior parte do público passante da CCXP não consome quadrinhos. Muitos estão cientes da existência de grandes personagens dos quadrinhos, como Capitão América, Homem de Ferro e Superman, mas muito por conta dos filmes dos cinemas ou dos milhares de produtos licenciados (ou não). É nesse momento que o artista da AA precisa se apresentar e em alguns momentos até abordar algum curioso na frente da mesa para vender seu trabalho. Sei que para alguns colegas fazer isso é algo impensável e que os incomoda bastante. Eu meio que venho perdendo esta vergonha de evento pra evento, especialmente quando percebi que o que ganho desse contato é imenso, tanto na possível conversão da compra quanto num feedback imediato.

Nesta CCXP percebi o grande acerto que foi a criação do conceito de Cangaço Overdrive, que acabou sendo uma das grandes lições do evento. Misturar cangaceiros e ficção científica (além da sacada do nome do projeto e da belíssima capa feita pelo Daniel Canedo) gerou um grande número de pessoas parando em frente à minha mesa. Mas nem só de abordagens a curiosos foi feito o meu evento. Todo o trabalho que venho desenvolvendo nestes mais de dez anos fazendo quadrinhos trouxe à minha mesa muita gente que queria me conhecer e até mesmo completar a sua “estante do Zé”. Cada elogio e cada “esperando a continuação” que recebia gerava uma energia inexplicável (também conhecida como “quentinho no coração”). Contou também ao meu favor todo esforço de divulgação que fizemos, em mais uma parceria de sucesso com a Editora Draco, no decorrer de 2018. Além do buzz gerado nos primeiros meses de lançamento, antes do evento conseguimos alguns espaços importantes em veículos conhecidos em matérias com “quadrinhos indicados para conhecer no evento”. E aí vem o outro aprendizado: qual o melhor momento para fazer um lançamento de quadrinhos?

Primeiro tenho que destacar que, mesmo com toda minha organização para o evento, houve um ponto falho. O segundo volume de Steampunk Ladies deveria ser o meu lançamento para o evento, mas acabamos adiando o lançamento para não comprometer a qualidade do produto final. Lançado há mais de seis meses, Cangaço Overdrive acabou tendo que ocupar este lugar. Eu, que sempre evitei lançar meus quadrinhos próximo a grandes eventos por conta da grande concorrência no período (um dia também escrevo sobre isso), percebi o quanto seria vantajoso ter algo recente na CCXP. Meu estoque pessoal estava baixo (e preciso dizer que voltei para casa praticamente sem NADA do que levei). A situação só não foi pior por conta do apoio imprescindível que recebi da editora. Não acho que seja assim para todos os artistas, tanto que conheço colegas que não tiveram sua expectativa de vendas atendida no evento. Há algumas variáveis aí, mas penso que a maioria delas está relacionada com a habilidade que o artista tem para divulgar suas obras. Conta a meu favor minha dedicação nessa área e minha experiência profissional com marketing (meu trabalho na “vida real”). Como autor foi legal ver a saída e o interesse nas minhas obras. E olha que já fui a eventos em que eu tinha que me desdobrar para carregar de volta a maior parte do estoque que tinha levado... Pra minha sorte, a CCXP se confirmou como um local para vender, com um público sedento em consumir novidades.

Fico feliz por ter conseguido participar do evento. Meu ano foi conturbado e cheguei a desistir de ir ao evento no início do semestre. Há muito investimento envolvido nesta viagem de mais 3.000 km e a grana despendida, apesar de alta, nem é o maior dos gastos. Conciliar a vida profissional e pessoal sem muitas certezas dos retornos criam uma espécie de estresse pré-evento. Para estar na CCXP, abri mão, por exemplo, da festinha de final de ano da escola das minhas filhas, o que me gerou uma culpa enorme enquanto estava em São Paulo. E aí vale destacar o GRANDE apoio que recebi da minha esposa para encarar esta aventura. Felizmente, o resultado desta jornada foi a substituição do estresse pré-evento por uma satisfação pós-evento. Uma boa maneira de dar fim a 2018.

P.S. IMPORTANTE: nunca mude seu cabelo antes de um evento desse por que muita gente não vai te reconhecer.

Detalhe da minha mesa na CCXP 2018.


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Lá no Facebook (ou o que ainda resta dele) criei uma página, mais para poder atender a algumas necessidades de divulgação usando anúncios. Se você é um dos resistentes que ainda usam a rede, aproveita pra curtir: fb.com/zewellington (inclusive você pode deixar um comentário sobre esse texto no post dele lá).

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Ah, estou colocando tudo que leio nos meus perfis no Skoob (me sigam também no meu perfil de autor) e Goodreads e o que assisto está indo pro Filmow. Cliquem nos links e me adicionem por lá.

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Só vem, 2019!

22 de julho de 2018

De Londres (Lista do Zé #19)

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Olá, olá!

De volta à programação normal, apresento o álbum Do Inferno, de Alan Moore e Eddie Campbell. Além disso, falo um pouco de uma primeira experiência no IGTV, ou Instagram TV, onde pretendo disponibilizar algumas dicas para quem quer aprender mais sobre contar histórias. Também para quem quer produzir, divulgo no final deste texto um curso que estarei realizando no Estúdio Daniel Brandão ainda neste mês de julho. Embarque aí, por que já estamos zarpando!

De Londres

​Não foi a primeira vez que li Do Inferno, clássico dos quadrinhos com roteiro de Alan Moore e desenhos de Eddie Campbell. Na primeira leitura, há mais de dez anos, lembro que uma das partes que mais me chamou atenção foi o capítulo IV, um elaborado passeio pela cidade de Londres conduzido por Sir William Gull, médico que viveu durante a era vitoriana e o escolhido (explico mais à frente) pelos autores como o mítico assassino Jack, o Estripador.

É um capítulo estranho, diga-se de passagem, já que você está no começo do livro, naquela expectativa de adentrar na investigação minuciosamente contextualizada de Moore e Campbell, e tem que encarar quase 40 páginas de conversa entre Gull e o seu cocheiro sobre a história de alguns locais de Londres. Confesso que na primeira leitura não entendi bem o porquê deste trecho da história, mas foi uma das partes que mais gostei, especialmente pela forma como Moore encerra o capítulo. Só uma década depois saquei o que o roteirista queria com o capítulo, além, é claro, de criar uma relação do assassino com a cidade. Um pouco antes de eu encarar Do Inferno mais uma vez, eu li outro quadrinho também lançado pela Editora Veneta no Brasil: A vida secreta de Londres. Organizada pelo quadrinista Oscar Zárate, o livro é uma coletânea de pequenos quadrinhos e contos sobre Londres. Embora, como toda coletânea, o livro tenha seus altos e baixos, uma das partes mais bacanas é o (imenso) texto introdutório, escrito pelo editor Rogério de Campos. Nele, o editor se dedica a apresentar as origens da psicogeografia, termo cunhado pelo pensador francês Guy Debord, em 1955, para tratar dos efeitos que o ambiente geográfico opera sobre as emoções e o comportamento dos indivíduos. Não sou um estudioso do assunto e é provável que eu erre ampliando e simplificando esta definição, mas ainda assim eu vou tentar: imagine um grupo de pessoas que tenta entender o efeito dos lugares (ou da história deles) nas pessoas. Na introdução de A vida secreta de Londres sabemos que Iain Sinclair, um dos mais importante nomes da psicogeografia, é um dos autores que mais influenciou Alan Moore (ambos inclusive participam desta coletânea).

E aí nós voltamos ao quadrinho, que tem seu roteiro embasado principalmente no livro Jack The Ripper: The Final Solution (1977), de Stephen Knight, que supõe que Sir William Gull, que chegou a ser médico da Rainha Vitória e da Coroa Britânica, seria o culpado pelos famosos assassinatos de cinco prostitutas durante o ano de 1888, numa conspiração arquitetada pela Maçonaria. O roteiro de Moore é meticuloso, costurando vários acontecimentos da época, documentos oficiais e tudo mais que se sabe (e também o que se supõe) sobre os assassinatos. Antes de se tomar tudo como verdadeiro, vale ler o imenso apêndice do livro, onde Moore comenta praticamente PÁGINA A PÁGINA os acontecimentos da HQ, revelando o que é real e comprovado e o que foi "mudado para fins ficcionais".

Até hoje não há consenso sobre quem foi o estripador e vez por outra, mesmo os crimes já completando seus 130 anos, algum fato novo surge. O último (que eu tenho conhecimento) foi a descoberta do DNA de um dos principais suspeitos da época, o barbeiro polonês Aaron Kosminski, em um xale de uma das vítimas. Ainda que esta descoberta encontre vários contestadores, reli Do Inferno com esta notícia na cabeça e imaginando como Moore gastou sua energia apostando num culpado que um dia pode ser inocentado, num tijolo de mais de 600 páginas, e como isso poderia fazer a obra perder sua relevância. Bobagem minha. Antes de ser uma história policial, o quadrinho é uma poderosa carta de amor e de ódio à Londres. Neste sentido, Do Inferno seguirá ainda durante muito tempo como um clássico dos quadrinhos.

Ainda assim, lá no final, em um dos apêndices desta edição brasileira da Veneta, Moore conta numa pequena história em quadrinhos a sua relação com o tema e como a obsessiva busca pelo verdadeiro estripador foi capaz de criar grandes “telefones sem fio” na história deste caso e mexer com todos aqueles que se debruçaram sobre o caso, ele mesmo incluso. E eu, como roteirista e escritor, entendi bem o ponto de Mr. Moore sobre como imergir num assunto pode neblinar os pensamentos de um contador de histórias. A mesma neblina londrina que, ano a ano, escurece as possibilidades de um dia sabermos quem foi o verdadeiro assassino.

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Recentemente o Instagram disponibilizou o IGTV, uma estrutura para vídeos mais longos voltada especialmente para quem produz conteúdo. Resolvi fazer uma primeira experiência na ferramenta com um vídeo sobre estrutura narrativa. Para conferir, é só procurar meu perfil lá no Instagram: @zewellington.

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Começa já AMANHÃ (23/07) a Oficina de Construção de Narrativas e Mercado Editorial, do Estúdio Daniel Brandão, do qual eu tenho a honra de dividir a instrutoria com os amigos Pedro PJ Brandão, roteirista, pesquisador e host do excelente podcast HQ SEM ROTEIRO, e Luís Carlos Sousa, roteirista e professor do EDB. Acontece de 23 a 27 de julho, das 19h às 22h, e ainda temos algumas vagas. Inscrições e mais informações podem ser obtidas pelo e-mail daniel.s.brandao@gmail.com.

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É sempre bom lembrar: responda este e-mail com seu comentário e ele chega na minha caixa de entrada. Você pode também deixar um comentário sobre esse texto no meu Facebook, no post sobre ele.

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See you!

24 de abril de 2018

Imprimi o livro. Acabou? (Lista do Zé #18)



Olá, olá!

Como já tinha adiantado para você, meu novo quadrinho, Cangaço Overdrive, é real, e já está chegando nas pessoas!

Para quem quiser pegar o seu diretamente das mãos da galera que produziu, a partir deste sábado começaremos uma série de eventos de lançamentos:
  • 28/04, 15h - lançamento e bate-papo na Reboot Comic Store, em Fortaleza/CE
  • 05/05, 19h - lançamento e bate-papo na Livraria Pensar, em Sobral/CE
  • 12/05, 19h - lançamento e bate-papo na Fafidam Uece, em Limoeiro do Norte/CE
Não é do Ceará? Vou deixar a dica de ouro: na Amazon, a HQ está saindo com um descontão e frete grátis na promoção do Dia Mundial do Livro:

Mas o que acontece com o quadrinista depois que seu livro já está impresso?

A vida pós-impressão

Saiu o livro! Acabou o trabalho? Com certeza, não.

O livro ainda nem tinha saído da gráfica, atualizo contatos de imprensa. Lá no MailChimp já está tudo mais ou menos organizado em listas. Discussão com a editora para fechar um texto para imprensa e escolha das páginas para divulgar. Disparo de e-mails. Muitos feedbacks positivos (“baita sacada esse título”). Muita gente pedindo entrevista. Um jornal de Brasília escreve uma maravilhosa nota para o livro, mesmo ninguém de fora da equipe tendo lido ainda. Muita gente pedindo o livro. Alguns canais “com ótimos preços para reviews de livros de autores iniciantes”.

Não dá pra mandar livro para todo mundo da imprensa. Então escolho, escolho, escolho. Visito site de jornal, visito blog, visito Instagram e YouTube (esses dois últimos entre os canais mais relevantes, diz o editor). Escolho, escolho, escolho. Entro em contato com os “escolhidos”. Muitos ficam felizes. Alguns não respondem. Outros dizem não receber livros. Ok, tudo bem, obrigado, espero que goste. Empacoto livros, escrevo dedicatórias individuais. Durmo tarde nesse dia.

Mando mensagens para amigos: me chamem para podcasts, qualquer um que aceite um jabá no final. Gravo podcast sobre cyberpunk, gravo podcast sobre Instagram e gravo podcast sobre Nicolas Cage (sério).

Configuro o Google Alertas para receber e-mail sobre qualquer menção ao livro na internet. A ansiedade é grande, abro o Twitter e já tem o nome do livro escrito na caixa de busca. Mas não dá tempo de ficar nervoso, pois é hora de pensar nos eventos de lançamento.

Reservo local. Mando fazer banner. Será que vai alguém?

Tem mais? Tem sim, o livro saiu de edital: tenho prestação de contas para fazer, tenho relatório para fazer.

Enquanto isso, a equipe do outro quadrinho para lançar este ano cobra o roteiro. Daqui a pouco vai começar tudo novamente. Ainda bem.
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See you, space cowboy!

28 de março de 2018

Cordel e cyberpunk (Lista do Zé #17)


 Olá, olá!

Meus textos tão atrasando pra que meus quadrinhos novos não atrasem. Por falar neles, apresento a vocês Cangaço Overdrive, minha nova graphic novel (uiuiui). O quadrinho já está a venda nos links abaixo:

Mas como surgiu essa ideia maluca? Eu escrevi algumas curiosidades sobre a HQ logo abaixo.

 

Nordeste feelings


Ao que parece, Cangaço Overdrive é minha primeira HQ longa que vem de uma ideia original minha. Digo isso por que Quem Matou João Ninguém? foi construída a partir de uma ideia do Wagner Nogueira (que revisou o roteiro inteiro e fez diversas sugestões) e Steampunk Ladies partiu de uma ideia do Di Amorim (ainda que eu o tenha convencido a seguir caminhos diferentes).

Em 2006 ou 2007 eu trouxe o desenhista Walter Geovani para um evento em Sobral, cidade onde nasci. Como quaisquer quadrinistas que passam algumas horas conversando, em algum momento discutimos sobre fazer um quadrinho com cangaceiros. Ele me falou sobre uma passagem de Lampião, conhecido como o “rei do cangaço”, pela sua cidade, Limoeiro do Norte. Mas o Geovani sempre esteve muito ocupado no mercado americano durante esses anos e nossa conversa entrou em stand by logo depois que nos despedimos. Alguns anos depois, comecei a amadurecer a ideia de fazer uma história no mesmo naipe da animação Samurai Jack, que tem como principal plot colocar um samurai tradicional num ambiente futurista. Sem nem lembrar da conversar com o Geovani, me pareceu natural que, se eu fizesse algo assim, teria de ser com um cangaceiro. Na época compartilhei essa ideia com o desenhista Wescley Braga e ele chegou a fazer alguns estudos para o personagem principal, que já se chamava Cotiara. A ideia era fazer uma série de tirinhas, num tom mais cômico (como Samurai Jack) e que tivesse alguma continuidade (ao estilo Terry e os Piratas, do Milton Caniff). Nunca consegui parar para escrever os roteiros e o Wescley acabou iniciando uma carreira nas artes plásticas e o projeto parou por aí. Antes de decretarmos a morte dele eu já tinha escolhido o nome: Cangaço Overdrive.

Quando divulguei como se chamava minha próxima HQ e que ela seria cyberpunk, a galera DELIROU nesse nome e pensou no óbvio, que o título era uma homenagem à Monalisa Overdrive, o terceiro livro da Trilogia do Sprawl (eu falei sobre ela no post anterior). Mas essa primeira tentativa de tirar a HQ do papel com o Wescley aconteceu há mais de dez anos e na época o único livro que conhecia do William Gibson era Neuromancer (e que eu ainda nem tinha lido). O nome Cangaço Overdrive foi inspirado pelo álbum “Seca distorcida”, da banda de hardcore cearense Jumentaparida. Substituí o “seca” por “cangaço” e “distorcida” por “overdrive”, também com uma banda de hardcore na cabeça, no caso os paulistas do Aditive, que tinham uma música que eu gostava muito chamada Câncer overdrive.

Acho que foi no final de 2015, com um edital de cultura abrindo no Governo do Estado do Ceará, que perturbei o Geovani para fazermos algo juntos. Ele foi logo dizendo que “poderia ser aquele projeto com cangaceiro que conversamos”. Ao cavucar minhas anotações procurando algo já iniciado, encontrei Cangaço Overdrive e decidi usar o plot principal. Mas, para aproveitar melhor o estilo de desenho do Geovani, não dava para ser tira e nem cômico. E assim o projeto começou se tornar um legítimo cyberpunk, com todos os seus pessimismos.

Essa é também minha primeira história longa que se passa no nordeste. Mesmo entre as curtas, agora de cabeça eu só me lembro de uma história de quatro páginas que escrevi para o Capitão Rapadura. Depois de contar uma história numa favela e de um faroeste com protagonistas femininas, esse deveria ser o meu trabalho mais fácil, por ser um tema mais próximo da minha vivência. Mas não foi bem assim. Na primeira versão da história que mandei para a Draco, o meu editor Raphael Fernandes estranhou a falta de expressões e gírias nordestinas. Eu até tentei nessa primeira versão, juro. Mas provavelmente por todo esse tempo da minha vida absorvendo quadrinhos (e outras coisas) vindas ou de outros países ou do eixo Sul-Sudeste, tudo que eu fazia parecia extremamente fake artificial. Mas nada que uma imersão em obras nordestinas não resolvesse. E aí apareceu a literatura de cordel.

Imerso nessas publicaçõezinhas, parecia (e acho que é mesmo) uma ótima ideia usar cordel na HQ. E eu decidi: a narração será em cordel, rimadinho e quase independente da HQ, mesmo que integrada a ela. Pô, no meio da HQ eu já tinha me arrependido dessa ideia, mas vá lá, a ideia parecia (parecia não, era mesmo!) muito boa. E me orgulho muito de ter virado cordelista por um ano. Penso, inclusive, em fazer mais isso. Veremos.

Duas figuras nordestinas são fortes influências para este trabalho: Chico Science e Patativa do Assaré. O primeiro veio de uma provocação do Raphael Fernandes: “escuta Nação Zumbi, vai ajudar nos diálogos”. Na real, não tinha como Nação Zumbi ajudar TANTO assim com os diálogos. Eles são de Recife e, ainda que haja muitas similaridades, cearenses e pernambucanos têm jeitos de falar bem diferentes. Mas aí lá fui eu revisitar o álbum “Da lama ao caos” e… BUM! Eu nem sabia, mas estava fazendo quase uma adaptação para quadrinhos do álbum. Toda a verve política que eu procurava tinha sido escrita pelo Chico no álbum em 1994, especialmente nas músicas Monólogo ao pé do ouvido, Banditismo por uma questão de classe, Rios, pontes e overdrives (overdrives de novo!) e Da lama ao caos. Sobrou pra minha esposa e filhas ouvir durante seis meses Nação Zumbi quase 24 horas por dia...

E sobre o segundo… Eu não sei quantos que estão lendo esse texto conhecem o Patativa. Nascido em 1909, em Assaré, cidade com pouco mais de 20.000 habitantes do sul do Ceará, o cara foi provavelmente um dos maiores poetas populares do estado. Eu conhecia bem superficialmente sua história. Cego de um olho e com uma alfabetização irregular, Patativa criava e declamava suas poesias (normalmente na métrica do cordel) de cabeça. O que eu não conhecia sobre Patativa era o seu lado político e ativista, bem visível em pedradas como Reforma agrária é assim.... Sério, procurem pelo trabalho dele, especialmente declamado de sua própria voz. E o documentário sobre ele do Rosemberg Cariry é ótimo.

Na verdade toda a cultura popular nordestina merece ser visitada constantemente. Se Cangaço Overdrive serviu pra que eu percebesse isso, espero que sirva para vocês também.

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1 de janeiro de 2018

Um 2017 (cyber)punk (Lista do Zé #16)



Olá, olá!

Eu ia escrever um texto sobre 2017, mas aí resolvi escrever a resenha do último livro que li no ano passado. E em algum ponto as duas coisas se encontraram.

Um clássico (às vezes) incompreendido

Terminar 2017 com Neuromancer como última leitura é meio emblemático. Demorei mais do que o normal na leitura do livro, diga-se de passagem. E MUITA coisa aconteceu neste meio tempo.

O romance mais conhecido de William Gibson não é fácil. Ainda que não tão distante hoje quanto era na época em que foi escrito (1984), temos um futuro distópico num mundo bem mais tecnológico que o nosso. Provavelmente usando isso como ferramenta narrativa, Gibson não se preocupa em explicar o seu cenário, tomando a maior parte das coisas como cotidianas para o hacker Case e os demais personagens. A sensação é parecida com ler um livro de duzentos anos atrás, só que no futuro e sem poder consultar um dicionário. Para esta função, ajuda um pouco um glossário ao final, mas os neologismos são incontáveis, sendo às vezes mais prático seguir sem olhar para trás (ou sem olhar para o final do livro, no caso), abstraindo toda a viagem verborrágica do autor. Falando em verborragia, soma-se ainda o estilo de prosa de Gibson, que é futurista na trama, mas não muito contemporâneo no estilo. O que falta em explicações do funcionamento dos objetos de cena, sobra nas descrições deles.

E uma das coisas que aconteceu enquanto eu lia o livro, e que eu não poderia abster desse texto, foi um debate acalorado num grupo do Facebook e também num post do escritor Fábio Fernandes, tradutor da edição que li do livro, comemorativa aos 25 anos do livro. Muitas pessoas diziam que o livro era chato e que haviam desistido dele em algum ponto.

Mas se Neuromancer é uma montanha difícil de escalar, as recompensas no seu percurso compensam as pedras no caminho. Dixie, Wintermute e as demais inteligências artificiais que surgem na trama são personagens interessantíssimos (mesmo que nem sempre se entenda suas motivações, propositadamente). E eu poderia falar das várias previsões feitas por Gibson no início dos anos 80, mas é mais provável que o autor tenha inspirado a criação dessas coisas, em especial a internet. Nem sempre ele acerta, claro (e os meios de armazenamento mais comuns na história são as fitas magnéticas, só para citar um exemplo). Na leitura eu ficava maluco mesmo era nos encontros entre Case e seus antagonistas, momentos de tensão incríveis, com diálogos que mostram um autor já habilidoso no seu romance de estreia, que levou para a casa a tríplice da literatura scifi (os prêmios Hugo, Nebula e Philip K. Dick) e foi considerado pela revista Time um dos 100 maiores romances de todos os tempos.

A cereja do bolo é o cenário criado pelo autor, que seria utilizado ainda em dois livros subsequentes (fechando a Trilogia do Sprawl). Muito além do high-tech-low-life pelo qual o cyberpunk é conhecido, Gibson pintou um futuro culturalmente diverso, misturando dub jamaicano ao estilo de vida otaku, romance noir a artes marciais, influenciando toda a cultura pop e a contracultura americana e, por consequência, mundial. The Ghost in The Shell, Matrix, Gurps e muitos outros produtos de entretenimento devem muito (senão tudo) a Neuromancer. Talvez em breve a cultura pop devolva a Gibson suas contribuições, já que vem aí a adaptação cinematográfica da sua obra-prima,  anunciada recentemente, pelas mãos do promissor Tim Miller, diretor do filme do Deadpool.

Como eu disse, é um tanto simbólico que esse livro feche meu ano. É uma resenha, mas vale também como um resumo para o meu 2017, que teve seus percalços, mas se mostrou uma jornada de grande valor para mim (e acho que com um final feliz). Só espero que 2018 esteja mais para um livro mais fácil, como um algum romance comercial do Stephen King.

E que livro define o seu 2017?

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Além do quadrinhos cyberpunk Cangaço Overdrive, que divulguei no texto anterior, lançarei no ano que vem a continuação de Steampunk Ladies. Desta vez vou contar com a ajuda da desenhista Sara Prado nos desenhos, que por sua vez contou com o apoio do desenhista Wilton Santos. Wilton estava no primeiro volume e além dele volta o colorista Ellis Carlos. Da mesma forma que em Cangaço Overdrive, conto com o Deyvison Manes nas letras e com o Rob Lean na arte-final. Nas próximas semanas vamos divulgar mais algumas coisas do projeto, que vira em 360º nossa história, indo do Velho Oeste Americano para a Londres vitoriana.


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