6 de janeiro de 2010

O blockbuster, o cult, o desbocado e o indie



Primeiro post do ano! E tenho pressentimento que esse ano promete... Desejo a todos um ótimo 2010. 2009 foi um ano bom para o cinema, para os quadrinhos, para a literatura... enfim, nós, cinéfilos, nerds ou qualquer tipo de apreciador de entretenimento em geral (criei um novo gênero?), nos divertimos bastante. E vem mais por aí. E sem mais lengalenga, peço perdão para a redundância e comento logo abaixo os assuntos mais comentados nesse final de ano: Avatar, Lunar, Misfits e Umbigo sem fundo.


O blockbuster
Com certeza, você já ouviu falar de James Cameron. Talvez tenha até deixado escorrer uma lágrima no final de Titanic. Ou já tenha visto algo dele com aliens antes, ou embaralhado sua cabeça com robôs vindo e voltando ao futuro. Futuro. James Cameron quer sempre chegar lá antes. Para tanto, no seu mais novo filme, ele criou a tecnologia que precisava para contar sua história. Avatar é um imenso delírio visual, feito para ser visto em 3D. Você vai ver torrents do filme pipocando na sua tela, vai ver ainda a possibilidade de comprá-lo pirata e assistir no seu monitor de 50 polegadas. Se o fizer, porém, não verá o que Cameron fez pelo cinema. Exagero, alguns dirão. Tudo que eu sei é que depois de Avatar é difícil ver cinema da mesma forma. Jim (como chamam os mais íntimos) criou uma experiência que só será corretamente visualizada com aquele óculos engraçado. A indústria cinematográfica tem problemas para enfrentar a pirataria? Pessoas deixam de ir ao cinema para comprar filmes não originais? Desafio quem piratear a sensação imersiva desse filme em outro lugar que não seja dentro de uma sala de cinema com um bocado de pipoca. Pipoca, sim, por que o filme é um blockbuster, e como tantos outros, segue fórmulas, clichês, jornada do herói de Jung e o que mais estiver na cartilha de Hollywood, com direito a panfletarismo ecológico (que na minha opinião não é nunca inconveniente). Mas até usando uma fórmula conhecida, o obsessivo Jim executa com perfeição seu vôo. Mas e agora, James, que fronteira¹ você pretende ultrapassar?

O cult

Será preciso meio bilhão de dólares (preço estimado de Avatar) para criar um novo marco na ficção científica no cinema? Quem viu Lunar (Moon, 2009) sabe que não. Sam Rockwell faz Sam Bell, funcionário da empresa Lunar, com contrato de trabalho de três anos numa estação na Lua. Usufruindo apenas da companhia do robô GERTY e a duas semanas do fim do seu contrato, ele começa a duvidar de sua sanidade... e de sua identidade. Dizer qualquer outra coisa sobre o filme será spoiler. A inevitável comparação de Lunar com 2001 - Uma odisséia no espaço, do genial Stanley Kubrick, apenas torna o filme mais imprevisível. Sensacional atuação solitária de Rockwell (que vem escolhendo muito bem seus projetos) e um roteiro genial, com edição e planos que dão cara de cinema indie a esse scifi obrigatório, que chega direto para DVD (para variar) no Brasil ainda este mês. Desde já fico de olho no trabalho do diretor do filme, Duncan Jones.

O desbocado

Era difícil ignorar Misfits (sem relação com a banda de mesmo nome). Estava em todo canto: "nova série com jovens com superpoderes, blá, blá, blá...", mas o "blá, blá, blá" chamava atenção, afinal comparavam o conteúdo do seriado com Skins e Kids, visões sem firulas e desbocadas dos adolescentes contemporâneos. Resolvi conferir a curta primeira temporada dessa série inglesa. Não começa muito bem, o primeiro episódio é interessantíssimo nos primeiros minutos, mostrando o relacionamento forçado entre os personagens principais (destaque para Nathan e Simon), mas se perde quando temos o acontecimento que dá poderes aos personagens principais da série. Temos um corre-corre forçado e um sem fim de "acasos convenientes". Mas ainda assim uma ou duas boas idéias me fizeram acreditar na série e seguir até o sexto e último episódio. E tenho que admitir que, como amante das formas de arte que desafiam a boa moral (em outras palavras: obras com muito palavrão!), curti bastante. A série ganha força nos episódios seguintes e cativa por seus personagens realmente machucados pela vida, com um humor negro bem colocado. E se os poderes parecem um pouco manjados (invisibilidade, leitura de pensamentos, viagem no tempo², etc), vale ver como personagens tão pitorescos lidam com eles. Um bom exemplo disso é como a Alisha e Curtis lidam com o fato de viver um relacionamento em que não podem se tocar... Acho que Vampira e Gambit, dos X-Men, nunca pensariam na solução deles... Ênfase também para a trilha sonora, que tem bandas como LCD Soundsystem, Klaxons, Joy Division, Blur e The Rapture (que toca na bela abertura). E em um momento ou outro o roteiro pode ter suas falhas, mas nada que desprestigie a série como um todo. Fácil, fácil de encarar para quem assistiu mais de uma temporada de Heroes... Misfits já tem a segunda temporada garantida para 2010 na Inglaterra, mas não tem data para estrear no Brasil.



O indie

O fim do ano traz as famosas listas dos melhores (coisa que não me meto mais a fazer para evitar polêmicas e esquecimentos injustos). Umbigo sem fundo (Bottomless Belly Button) é um puta drama indie em quadrinhos. E eu não poderia resumir melhor o livro em uma frase. Maggie e David Loony são casados há quarenta anos, mas decidiram se separar. Agora a família Loony está reunida em sua velha casa e seus filhos tem que conviver com antigos fantasmas enquanto tentam se adaptar com a idéia do divórcio. O californiano Dash Shaw só tinha 23 anos quando escreveu esse tijolão, que esbanja uma maturidade sem igual, com um humor ácido, quase negro. O desenho irregular de Shaw casa perfeitamente com o tom alternativo da trama, com personagens afetados pelos novos valores familiares. Algumas sacadas são sensacionais, como o fato do personagem Peter ser desenhado como um ser diferente do restante da família ou ainda a caça incessante de Dennis por respostas, o que o leva a fuçar cartas codificadas e túneis secretos pela residência dos Loony. Um livraço, que, junto com o ótimo Retalhos (de Craig Thompson) confirma que a Quadrinhos na Cia (selo da Editora Companhia das Letras) entrou com tudo no mercado de quadrinhos brasileiro³.




¹ A próxima fronteira de James Cameron pode ser quebrada em breve, quando Avatar encostar em Titanic entre os filmes com maior bilheteria em todos os tempos.
² Notei uma grande semelhança no poder do personagem Curtis com o personagem Déjà Vu, do fanzine de quadrinhos cearense Mutunaz. Por sinal ainda tenho que comentar sobre esse fanzine aqui!
³ E olha que ainda faltam vários títulos interessantes da editora para eu ler...

1 comentários:

Mabelle Barthes disse...

Muito doida a parte das tags! D: