22 de julho de 2018

De Londres (Lista do Zé #19)

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Olá, olá!

De volta à programação normal, apresento o álbum Do Inferno, de Alan Moore e Eddie Campbell. Além disso, falo um pouco de uma primeira experiência no IGTV, ou Instagram TV, onde pretendo disponibilizar algumas dicas para quem quer aprender mais sobre contar histórias. Também para quem quer produzir, divulgo no final deste texto um curso que estarei realizando no Estúdio Daniel Brandão ainda neste mês de julho. Embarque aí, por que já estamos zarpando!

De Londres

​Não foi a primeira vez que li Do Inferno, clássico dos quadrinhos com roteiro de Alan Moore e desenhos de Eddie Campbell. Na primeira leitura, há mais de dez anos, lembro que uma das partes que mais me chamou atenção foi o capítulo IV, um elaborado passeio pela cidade de Londres conduzido por Sir William Gull, médico que viveu durante a era vitoriana e o escolhido (explico mais à frente) pelos autores como o mítico assassino Jack, o Estripador.

É um capítulo estranho, diga-se de passagem, já que você está no começo do livro, naquela expectativa de adentrar na investigação minuciosamente contextualizada de Moore e Campbell, e tem que encarar quase 40 páginas de conversa entre Gull e o seu cocheiro sobre a história de alguns locais de Londres. Confesso que na primeira leitura não entendi bem o porquê deste trecho da história, mas foi uma das partes que mais gostei, especialmente pela forma como Moore encerra o capítulo. Só uma década depois saquei o que o roteirista queria com o capítulo, além, é claro, de criar uma relação do assassino com a cidade. Um pouco antes de eu encarar Do Inferno mais uma vez, eu li outro quadrinho também lançado pela Editora Veneta no Brasil: A vida secreta de Londres. Organizada pelo quadrinista Oscar Zárate, o livro é uma coletânea de pequenos quadrinhos e contos sobre Londres. Embora, como toda coletânea, o livro tenha seus altos e baixos, uma das partes mais bacanas é o (imenso) texto introdutório, escrito pelo editor Rogério de Campos. Nele, o editor se dedica a apresentar as origens da psicogeografia, termo cunhado pelo pensador francês Guy Debord, em 1955, para tratar dos efeitos que o ambiente geográfico opera sobre as emoções e o comportamento dos indivíduos. Não sou um estudioso do assunto e é provável que eu erre ampliando e simplificando esta definição, mas ainda assim eu vou tentar: imagine um grupo de pessoas que tenta entender o efeito dos lugares (ou da história deles) nas pessoas. Na introdução de A vida secreta de Londres sabemos que Iain Sinclair, um dos mais importante nomes da psicogeografia, é um dos autores que mais influenciou Alan Moore (ambos inclusive participam desta coletânea).

E aí nós voltamos ao quadrinho, que tem seu roteiro embasado principalmente no livro Jack The Ripper: The Final Solution (1977), de Stephen Knight, que supõe que Sir William Gull, que chegou a ser médico da Rainha Vitória e da Coroa Britânica, seria o culpado pelos famosos assassinatos de cinco prostitutas durante o ano de 1888, numa conspiração arquitetada pela Maçonaria. O roteiro de Moore é meticuloso, costurando vários acontecimentos da época, documentos oficiais e tudo mais que se sabe (e também o que se supõe) sobre os assassinatos. Antes de se tomar tudo como verdadeiro, vale ler o imenso apêndice do livro, onde Moore comenta praticamente PÁGINA A PÁGINA os acontecimentos da HQ, revelando o que é real e comprovado e o que foi "mudado para fins ficcionais".

Até hoje não há consenso sobre quem foi o estripador e vez por outra, mesmo os crimes já completando seus 130 anos, algum fato novo surge. O último (que eu tenho conhecimento) foi a descoberta do DNA de um dos principais suspeitos da época, o barbeiro polonês Aaron Kosminski, em um xale de uma das vítimas. Ainda que esta descoberta encontre vários contestadores, reli Do Inferno com esta notícia na cabeça e imaginando como Moore gastou sua energia apostando num culpado que um dia pode ser inocentado, num tijolo de mais de 600 páginas, e como isso poderia fazer a obra perder sua relevância. Bobagem minha. Antes de ser uma história policial, o quadrinho é uma poderosa carta de amor e de ódio à Londres. Neste sentido, Do Inferno seguirá ainda durante muito tempo como um clássico dos quadrinhos.

Ainda assim, lá no final, em um dos apêndices desta edição brasileira da Veneta, Moore conta numa pequena história em quadrinhos a sua relação com o tema e como a obsessiva busca pelo verdadeiro estripador foi capaz de criar grandes “telefones sem fio” na história deste caso e mexer com todos aqueles que se debruçaram sobre o caso, ele mesmo incluso. E eu, como roteirista e escritor, entendi bem o ponto de Mr. Moore sobre como imergir num assunto pode neblinar os pensamentos de um contador de histórias. A mesma neblina londrina que, ano a ano, escurece as possibilidades de um dia sabermos quem foi o verdadeiro assassino.

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Recentemente o Instagram disponibilizou o IGTV, uma estrutura para vídeos mais longos voltada especialmente para quem produz conteúdo. Resolvi fazer uma primeira experiência na ferramenta com um vídeo sobre estrutura narrativa. Para conferir, é só procurar meu perfil lá no Instagram: @zewellington.

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Começa já AMANHÃ (23/07) a Oficina de Construção de Narrativas e Mercado Editorial, do Estúdio Daniel Brandão, do qual eu tenho a honra de dividir a instrutoria com os amigos Pedro PJ Brandão, roteirista, pesquisador e host do excelente podcast HQ SEM ROTEIRO, e Luís Carlos Sousa, roteirista e professor do EDB. Acontece de 23 a 27 de julho, das 19h às 22h, e ainda temos algumas vagas. Inscrições e mais informações podem ser obtidas pelo e-mail daniel.s.brandao@gmail.com.

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Já leu Quem Matou João Ninguém?, Steampunk Ladies ou Cangaço Overdrive? Que tal ir lá na Amazon e avaliá-los? Você ajuda a mais pessoas saberem se os livros são para elas. Não tem ainda? Aproveita o Black Friday do site, por que eles estão com desconto:
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See you!