1 de julho de 2009

Sebastião: sangue preto – parte 8

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– Calminha, sinhozinho, que hoje num é dia de sangue nêgo caí no chão. – bradou Francisco, fechando a porta do quarto


Um minuto de silêncio se fez no quarto. Se ouviam apenas os grunhidos de Lúcio. Antônio Maria estava quase sufocando pela mão de Francisco.

– Vamo, Tião... Passa pro lado... – enquanto falava comigo, Francisco se deu conta de Lúcio e da negra ensangüentada no chão – Que criatura é essa? Esse é o “fio” do senhor de engenho? “Matano” nossa gente... Esse “disgraçado” é o primero que vai morrer aqui!

– Não! Deixas o menino em paz! Já não vês o quanto ele sofre? – implorou Antônio Maria – Teus assuntos aqui são comigo! Não sou eu teu opressor?

Francisco gargalhou. Ele se deliciava com aquele momento. Ainda dentro do quarto de Lúcio, pela porta aberta, eu via a correria dentro da casa de Antônio Maria. Os negros e os índios provavelmente já haviam tomado toda a casa.

– “Vamo”, sinhô, “vamo”... Vê de pertinho teu “fio-bicho”... – ainda dominando Antônio Maria, Francisco se aproximava de Lúcio, que estranhamente tinha parado de grunhir.

Jorge e Rita se afastaram do seu irmão caçula, posicionando-se atrás da enorme cruz que o prendia. Estranhamente, Lúcio começava a ganhar um aspecto mais humano. De cabeça baixa, o garoto ofegava cada vez mais devagar, até estabilizar sua respiração.

– Isso, negro, vem aqui me matar e me livrar dessa maldição. – Lúcio falava agora civilizadamente. Na sua expressão, um sorriso curto.

– Criatura do mal... – Francisco levantava o facão e preparava-se para perfurar Lúcio – Chega aqui teu fim!
Antes que o facão encontrasse com o menino, Jorge, usando a espátula que havia pegado encontrado ao chão do quarto, desferiu um golpe certeiro contra a base da corrente que prendia Lúcio a cruz.

Instintivamente, ao ouvir o estrondo que o libertava, o garoto, já retransformado em monstro, pulou sobre Francisco rasgando sua garganta com as unhas com uma força surpreendente. Mal o negro caiu no chão, Lúcio avançou sobre seu peito, como um animal esfomeado. Francisco gritou e tentou afastar-se dos dentes de Lúcio, sem sucesso. O negro se debateu por alguns segundos, até perder sua consciência. Eu ainda estava estupefato com aquilo tudo e, quando pensei em afastar o garoto de Francisco, Jorge pulou a minha frente com a espátula, fazendo sinal para que eu não me movesse. Antônio Maria, Jorge e Rita preparavam-se para abandonar o quarto, quando Lúcio se voltou para eles.

– Não, pai, nem pense em sair no momento alto da festa...

– Por favor, filho, as coisas podem ser diferentes agora... – implorava Antônio Maria.

– Mais de dez anos estive preso! Esperas que eu aceite suas apologias assim?

Eu não sabia se tinha ouvido bem. Lúcio se disse preso a mais de dez anos? Mal tive tempo para refletir sobre aquilo, quando o menino continuou:

– Nunca tive tanta fome na minha vida... E hoje tenho tanto alimento no meu quarto...

Lúcio caminhava lentamente em direção ao pai. Espantava-me sua mudança de comportamento. Aquele, que antes era uma espécie de selvagem, se livrava das vestes sujas e arrumava o cabelo cuidadosamente com as mãos. Jorge ainda apontava a espátula para mim. Nesse momento, um cheiro forte de fumaça invadiu o quarto. A casa estava sendo queimada.

CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA
Texto por Zé Wellington.

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