9 de maio de 2009

Sebastião: Sangue preto – parte 1

castigo_escravo

Era uma senzala escura e imunda. Cheirava a fezes e comida podre. Negros acorrentados em trio, pelas mãos e pelos pés, num elo que nas pontas conectava-se ao chão. As correntes ficavam estiradas de forma que não possibilitassem nenhum movimento: o máximo que se podia era ficar sentado, ao custo dos movimentos dos outros dois colegas com quem se dividia os laços de aço. Eu estava cansado e faminto.

Não sei com precisão quantos dias durou aquela viagem. No navio, eu estava amarrado com cipó numa posição pela qual abraçava minhas canelas. Um pedaço de bambu enfiado entre meus braços e minhas pernas impedia qualquer tipo de mobilidade. Junto comigo, por volta de cem negros no mesmo conforto, enfileirados, de forma a aproveitar da melhor forma possível o espaço do porão da embarcação. Éramos escravos arrancados de nossas famílias.

Até alguns dias antes daquela viagem, eu iria me casar. Não um tipo de casamento como os brancos conheciam na época. Eu havia lutado contra Dumbaô, forma como se pronunciaria o nome do meu melhor amigo nessa língua, e ele morrera em minhas mãos como um bravo oponente, num costume de minha tribo que talvez causasse estranheza à cultura branca. Mas a tradição de lutar por uma esposa não era milenar, e sim uma medida tomada por nosso líder, meu pai, para resolver o problema da falta de mulheres em nossa tribo, fêmeas essas que, uma a uma, estavam sendo tomadas pelo homem branco, ainda crianças, para servir de empregadas ou prostitutas em suas sociedades altamente desenvolvidas. Ficar com Umaiame havia me custado preciosas amizades e alguns túmulos em nosso cemitério.

Na noite do casamento a maior festa que minha tribo já viu se consumou. Como filho do líder da tribo, a mim se passaria o comando do meu povo. Mas eles sabiam que naquela noite estaríamos embriagados com nossas raízes alucinógenas e que não insultaríamos nossos deuses derramando sangue numa cerimônia sagrada. Eles, caçadores de escravos, tinham ainda fogo e pólvora.

Quando os tiros e explosões começaram, meu povo não sabia de que lado eles vinham. Campeando de moitas e ocultos pelas trevas da noite, os brancos acertavam de longe meus irmãos. Atordoados, corríamos sem direção definida. Organizada pelas táticas de guerra de meu pai, nossa tribo havia resistido a outros ataques tempos atrás, mas o barulho da pólvora ensurdecia nossos pensamentos.

Segurando Umaiame, adentrei a selva, correndo desesperado, ignorando os ferimentos nas pernas causados pela vegetação e pelo terreno pedregoso. Ela transpirava, e era impossível diferenciar sua respiração rápida dos soluços amedrontados. Mas o estrondo de um tiro ressoou dentro do meu peito. Ainda correndo, vasculhei meu corpo com minha mão livre. Eu parecia inteiro. Subitamente minha corrida foi interrompida por Umaiame, que ancorava nossa escapada. Eu não deveria ter parado. Não deveria ter chorado por ela. Ela morria e ia para a companhia de Nanã, que protegeria sua alma e a plantaria para que ela pudesse renascer como uma fruta vermelha. Por isso minha tribo não chorava os mortos. Tentei em vão despertar Umaiame. Não deveria ser assim. Ela não deveria morrer ali. O tempo por mim desperdiçado aproximou nossos perseguidores. Quando ouvi os passos, já era tarde. Meu mundo veio abaixo com uma coronhada na nuca.

O que se passou após minha captura não é digno de nota. Logo me dei conta de que os brancos haviam matado somente mulheres, crianças e doentes. Eles procuravam aqueles que pudessem trabalhar na sua terra. Sua nova terra.

Dentro do navio que me traria ao Novo Mundo, meu povo foi misturado com outros com um único ponto em comum: a cor. Negros de todas as tonalidades, crenças e idiomas dividiam espaço no porão. Tive sorte, se é que assim posso chamar, e fui um dos poucos que sobreviveu à alimentação precária, aos maus tratos e às doenças contraídas durante a viagem. No desembarque perdi o contato com meus conterrâneos e já não tinha certeza se ainda vivia alguém da minha tribo.

Era algo próximo ao ano de 1630, até onde me lembro. É difícil ter certeza, por que ainda não entendia o sistema de contagem de tempo branco. Eu tinha por volta de vinte e cinco anos. Fui levado junto com outros escravos até uma propriedade rural há alguns quilômetros do litoral daquilo que se chamaria Brasil. Era o engenho do senhor Antônio Maria Coelho, neto bastardo de Duarte Coelho Pereira, português que no século que havia passado fora donatário da capitania de Pernambuco. Estávamos no período áureo da cana-de-açúcar, grande motivo de eu estar ali.

Fui jogado na senzala que me acolheria como lar e acorrentado nu a outros dois escravos. Logo descobri que os dois vinham de uma mesma tribo, que, acredito, deveria ser próxima da minha, já que conversavam em um dialeto muito parecido com o meu. Estavam já há alguns meses naquele lugar. O mais novo era um jovem forte que deveria ostentar uma idade próxima da minha. O outro, um velho com no mínimo sessenta anos, tinha uma barba branca como osso raspado e olhar que apontava uma experiência secular.

– Por que os ventos de Oyá te trouxeram nesse caminho, meu filho? – disse o velho lentamente, numa expressão cansada e usando velhas palavras do meu idioma.

– Os brancos atacaram covardemente minha tribo durante meu casamento. Mataram meu pai e minha esposa e incendiaram nossas casas – respondi sem poder olhá-lo nos olhos, por conta da posição em que estávamos acorrentados.

– A opressão branca continua. O que eles querem? Toda a terra para eles? Todos os homens da outra cor a seu dispor? – discursava o mais novo em voz alta, como se quisesse atingir a todos os escravos na senzala – E quando iremos devolver essa opressão?

– Quando Ogum achar que é tempo – retrucou o velho sábio num tom de voz tranqüilizante.

– Em Palmares o tempo chegou! E é pra lá que nossa gente deve ir! – respondeu o jovem, que foi seguido de uma gritaria de dentro da senzala.

Logo eu confirmaria que já há muito tempo a semente da revolta estava plantada naquele lugar.

CONTINUA PRÓXIMA SEMANA.

Leia a parte 2.

Leia a parte 3.

Texto por Zé Wellington.


Post-Scriptum: No ar meu segundo conto para o blog (o primeiro foi Mestre dos brinquedos, lembra?)! Espero comentários daqueles que leem esse blog solitário. Próxima semana tem mais!

1 comentários:

Everton disse...

Grande Zé!!Muito legal o conto, gostei mesmo, quero ler a continuação!!Grande abraço rapaz!!