4 de julho de 2009

Sebastião: sangue preto – parte 9

sebastiao_incendio
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– Huuum... Acho que teremos carne mal passada para o café da manhã de hoje, papai. – a eloqüência de Lúcio ao pronunciar cada palavra me espantava. O garoto falava como um adulto. Que espécie de demônio havia se apoderado daquele corpo? Naquele momento ouvimos pancadas na porta, seguidos por gritos.

– Vâmo, Francisco! A casa “tá” quase toda queimada...

– Ainda “taí”, Francisco?

Eram outros invasores da casa, que na certa deram por falta do escravo líder. Dois negros e um índio forçaram a porta para entrar. Não demorou a que a maçaneta fosse quebrada. Na primeira brecha da porta, Lúcio pulou com a boca no pescoço do índio e com a mão no pescoço de um dos negros. Sua força, tanto com a boca quanto a mão, era descomunal, quase destroçando os pescoços dos dois. O outro negro espantou-se com a cena e partiu em disparada, gritando coisas como “Satanás” e “coisa ruim”.

Lúcio saiu de cima dos corpos e olhou novamente para dentro do quarto. Em meio à confusão na porta, Jorge tentava, com a espátula, arrombar a janela no fundo do quarto, que antes estava vedada com madeira e pregos. Mal consegui enxergar, quando o garoto correu numa velocidade incrível para cima do irmão, agarrando seus ombros com as duas mãos. O primogênito de Antonio Maria não teve tempo nem de perceber o golpe do irmão mais novo arrancando a carne de seus ombros violentamente. O senhor do engenho e sua filha pularam sobre Lúcio, que se soltou de Jorge e com suas garras marcou o rosto de Antonio Maria e rasgou um dos seios de Rita. Os dois caíram no chão, juntando-se ao corpo agonizante de Jorge.

– Ao sangue do pai retorna o sangue dos filhos... – riu-se Lúcio.

Do outro lado do quarto, recuperando-me psicologicamente de toda aquela chacina, percebi que não podia fazer nada mais pelo meu senhor. Olhei para a saída do quarto, e corri com todo o vigor que ainda tinha, com a esperança de encontrar vivo algum jagunço na casa-grande. Quando trespassei a porta, senti um alívio profundo, como se tivesse saído do próprio inferno na Terra. Os corredores da casa estavam em chamas, tive dificuldade para descer as escadas e chegar à sala, quando notei que a porta principal estava vedada por móveis queimados. Vislumbrei uma janela. Porém, antes que a alcançasse, uma mão pequena puxou meu braço com uma incrível força.

– Deixando a festa antes do final, negro? – Lúcio me segurava com força.

Tentei, em vão, me livrar do braço do garoto, e mesmo com toda a minha força física, alguma força sobrenatural tornava aquele garoto superior a mim.

Lúcio me jogou numa parede da sala, onde se encontrava um enorme retrato pintado de Antônio Maria. A moldura do quadro feriu minhas costas. Caí quase de joelhos no chão. O garoto se aproximou.

– Alguém tem que contar sobre o legado da família Coelho... – voltou-se seriamente para mim – Negro, acredite, tu tiraste a grande sorte e sobreviverás – antes que Lúcio terminasse de falar, caí desmaiado com o rosto sobre o chão, por efeito de uma dor lancinante.

Sentia uma pontada nas minhas costas. Antes de apagar por completo, verifiquei com uma das mãos que um pedaço da moldura havia se fincado acima da minha cintura. Eu sangrava muito. Minha visão embaçava, e antes de notar Lúcio aproximando-se, caí num sono profundo. Sonhei que Umaiame chorava sobre um corpo morto. Aproximei-me dela e disse que ficaríamos juntos. Ela não olhava para mim, não me notava. Quando vi o corpo pelo qual ela chorava, percebi que se tratava de mim mesmo. Eu continuava gritando que agora iria para perto dela, que estaríamos juntos no jardim da morte, mas ela só chorava. Quando consegui ver sua face, observei que, como no sonho com Raimundo, seus olhos derramavam sangue. Naquele momento, uma dor enorme tomou conta do meu peito. Senti-me sugado. Mais dor. Sede. Muita sede. Uma luz forte. Uma intensa escuridão. Dor. Fome. Muita fome.

CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA
Texto por Zé Wellington.

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