20 de novembro de 2017

Mauricio (Lista do Zé #15)



Olá, olá!

Num texto só, hoje eu vou relatar um encontro e fazer uma indicação de livro.

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Um encontro que não estava no gibi

​Eram 16h de uma terça-feira, dia 7 de novembro deste ano, quando a Margarida Melo, uma das curadoras da Feira do Livro de Sobral, me ligou:

– Corre aqui no hotel que o Mauricio quer te ver!

Larguei tudo que estava fazendo na empresa e fui encontrar o quadrinista e empresário Mauricio de Sousa em seu hotel em Sobral. Mais tarde naquele dia ele faria a palestra magna na abertura da Feira, que aconteceu entre 7 e 9 de novembro, na cidade em que nasci.

Deixa eu voltar alguns dias no tempo. Eu já estava bem feliz de ter um evento relacionado ao livro acontecendo pela primeira vez na minha cidade, bem nesse momento especial da minha vida, com dois álbuns em quadrinhos lançados e sendo vendidos no Brasil inteiro. Para completar, por uma sugestão do meu amigo e um dos idealizadores da Feira, Yves Gurgel, surgiu o nome do Mauricio como palestrante na abertura. Baita sorte: o maior nome dos quadrinhos no Brasil numa feira na minha cidade. Mas a adrenalina subiu quando o Yves mandou uma mensagem no meu WhatsApp perguntando se eu poderia moderar a palestra, já que no contrato o Mauricio solicitava alguém no palco com ele. "É pegadinha?", eu perguntei.

No saguão do hotel, o Mauricio me perguntou como estava o clima. Apesar de esta ser uma pergunta famosa de quem passa por aqui pela primeira vez (Sobral tem comumente temperaturas próximas aos 40°), ele na verdade se referia à política local (e mais na frente você vai entender o interesse dele nesse tema). Dias antes do evento, um blog sensacionalista da cidade noticiou a vinda do Mauricio fazendo alarde sobre seu cachê e chamando a atenção para necessidades de infraestrutura na cidade. Ele estava no Japão quando recebeu a notícia, provavelmente alertado por sua assessoria de comunicação. Eu disse a ele que a principal preocupação dos sobralenses naquele dia era conseguir um lugar no auditório para 500 pessoas, já que os ingressos gratuitos tinham se esgotado alguns momentos após a abertura das inscrições. Ele se tranquilizou e abriu um sorriso. Aproveitei o momento para presenteá-lo com uma edição de Quem Matou João Ninguém?, chamando sua atenção para uma referência a seus personagens na página 39 (você tinha notado?). Ele disse que achou a edição bonita e me perguntou sobre o prêmio que ganhei, que todo mundo comentava desde que ele tinha chegado. Eu disse que o tinha recebido na mesma cerimônia onde sua esposa, Alice Takeda, foi homenageada no ano passado, que entre muitas pessoas que eu admirava ele também estava lá. Ele me indagou sobre o quê conversaríamos no palco do evento. Abri meu celular onde estavam algumas perguntas e comentei que havia me baseado na sua autobiografia. “Ah, então você estudou bem”. De fato, ler o livro dele me ensinou bastante.

Mauricio: A história que não está no gibi é um livro de memórias baseado em depoimentos do quadrinista ao jornalista Luís Colombini. É escrito em primeira pessoa, o que já nos adianta que teremos fatos da vida do Mauricio narrados sobre o seu ponto de vista. Eu sempre fico muito desconfiado com esse tipo de biografia autorizada, por que é comum vermos apenas um lado da história ou, ainda pior, uma grande propaganda do biografado. Mas, mais do que me preparar para a moderação de um papo com o autor, a história do Mauricio sempre me despertou curiosidade por conta do seu lado empreendedor. E nesse aspecto o livro é bem interessante para quem quer entender como funciona a cabeça de um empresário nato num dos segmentos mais complicados para se empreender no Brasil: a cultura.

No livro vemos que o criador da Turma da Mônica sempre teve um comportamento superprotetor com seus “filhos desenhados”, negociando contratos com muito cuidado e desistindo de negociações muito rentáveis se sentisse que poderia perder o controle sobre suas criações. Marca também a coragem do quadrinista para embarcar em grandes empreendimentos, como um estúdio de cinema ou um parque temático. Às vezes com alguma teimosia, mas normalmente de forma estritamente planejada, Mauricio sempre surpreendeu o mercado nesses quase 60 anos de carreira. Mesmo assim, um dos capítulos mais interessantes do livro é o que mostra os projetos do quadrinista que NÃO deram certo (no melhor estilo Fuckup Night), com planos infalíveis envolvendo desde os Beatles e Maradona até uma máquina patenteada que permitia sentir cheiros enquanto se assistia a um filme.

Mas se você gosta de quadrinhos e acha meio chato esse papo de empreendedorismo, pode curtir no livro os vários relatos de Mauricio sobre os bastidores dos quadrinhos e encontros com grandes mestres, como Will Eisner, Hugo Pratt, Osamu Tezuka e muitos outros. O livro também detalha o processo de produção individual do autor no início da carreira até a forma como isso evoluiu para um grande estúdio, quando ele definiu uma série de padrões para que cada uma das mais de mil páginas por mês de quadrinhos continuassem saindo como se tudo ainda fosse feito por um único autor.

O livro é um relato bem suavizado, vale destacar. Ao mesmo tempo que isso o faz uma delícia de se ler, se percebe o mesmo cuidado que Mauricio tem em seus quadrinhos para não “incomodar” nenhum público específico. Fica um pouco a impressão de que ele está pisando em ovos nos momentos mais polêmicos. Há também uma visão muito pessoal do Mauricio com relação à mistura de arte e política. O quadrinista sempre evitou essa relação em seus trabalhos, gastando algumas partes do livro para explicar os seus porquês. Meio que do seu jeito, não muito diretamente, ele inclusive crítica o engajamento político na arte, o que pessoalmente me incomodou um pouco (mas que vai da ideologia de cada um). Fica claro para mim que essa posição política é um dos principais segredos comerciais do autor. E ainda que em determinado momento ele diga que sua turminha hoje defende o empoderamento feminino, por outro lado ele confessa que ainda não surgiu um personagem homossexual na Turma da Mônica Jovem por que isso seria “cutucar um vespeiro”.

Pela noite eu e Mauricio subimos no palco para a abertura da Feira do Livro. Como em todos os momentos em que pude estar com ele, Mauricio foi gentil e atencioso, sempre se mostrando interessado nos papos. Mesmo com 82 anos, foi paciente com cada fã que encontrou, até aqueles que furaram os bloqueios de segurança. No palco, quando eu disse que ele que mandava no evento, Mauricio falou que se ele mandava sua ordem era que eu o dirigisse. Para completar, após o evento, a organização do evento ainda me relatou um fato curioso.

– O nome dele é Zé Wellington mesmo? Ele não acha ruim ser chamado de ? É que vou colocar aqui no meu Instagram – perguntou o Mauricio à Margarida numa mensagem.

– Não acha, Mauricio! É assim que todo mundo conhece ele – ela respondeu.

– Mesmo assim vou colocar José Wellington, por que é mais respeitoso.

Que prazer te conhecer, Mauricio.

Até cortei o cabelo pra receber o Mauricio.

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Anunciei nesses dias meu próximo quadrinho, previsto para o início de 2018. Ele se chamará Cangaço Overdrive e é resultado de uma parceria com o desenhista cearense Walter Geovani, conhecido pelo longo período em que foi desenhista regular da personagem Red Sonja e que recentemente ilustrou um trabalho da roteirista Gail Simone para a Vertigo, selo adulto da DC Comics.

Em 2030 o Ceará enfrenta sua maior seca em séculos. Neste cenário, um lendário cangaceiro e um impiedoso coronel duelam mais uma vez no sertão. Misturando cyberpunk e cordel, o álbum dá início a saga do cangaceiro Cotiara num nordeste distópico.

Eu escrevi o roteiro, o Geovani fez os layouts das páginas e ainda contamos com a participação do Luiz Carlos B. Freitas no lápis, Rob Lean na artefinal, Dika Araújo nas cores e Deyvison Manes nas letras. Tem um preview abaixo, mas legal mesmo é curtir a página do projeto no Facebook para ficar por dentro de tudo (é só clicar aqui!).


A covardia é muito grande
Mas ninguém tá desistindo
Pois dizia Patativa
Num cordel deveras lindo:
“Morre cem de quando em quando
Mil vai substituindo”


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É sempre bom lembrar: você pode também deixar um comentário sobre esse texto no meu Facebook, no post sobre ele.

Ah, estou colocando tudo que leio nos meus perfis no Skoob (me sigam também no meu perfil de autor) e Goodreads e o que assisto está indo pro Filmow. Cliquem nos links e me adicionem por lá.

Já leu Quem Matou João Ninguém? ou Steampunk Ladies? Que tal ir lá na Amazon e avaliá-los? Você ajuda a mais pessoas saberem se os livros são para elas. Não tem ainda? Aproveita a Black Friday do site, por que eles estão com desconto:
Até mais, "galela"!

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1 comentários:

Mackenzie Melo disse...

Oi Zé. Cara, que coisa linda seu encontro. Que emocionante a sua narrativa!

Imagino o quanto foi intenso o dia, o durante a entrevista, mas também os dias que antecederam o ápice dessa programação.

É difícil colocar apenas em palavras - daí os quadrinhos serem tão mágicos - essas emoções que você deve ter sentido. Então, quando no final do seu texto eu me percebi com os olhos marejados por estar feliz por você, notei mais uma vez que sua arte é descrever mentalmente, como se fosse um quadrinho invisível, aquilo que você vê, percebe, ouve e sente do mundo.

Assim, quero agradecer pelo trabalho que você tem feito pelos quadrinhos, dedicando muitas horas de sua vida para entregar ao mundo um pouco de sua alma a todos nós. Bem como - claro que guardadas as devidas proporções - Maurício fez e ainda faz. E agradeço também por me ajudar a ver nele - que me levou a descobrir emoções e sentimentos desde minhas primeira leituras - um ser tão imensamente humano que pensa no outro com respeito, carinho e sabendo que existe tempo certo para tudo.

Muito obrigado por compartilhar parte da sua história com ele, José.

P.s.1: não lembro de ter percebido sua referência aos personagens dele, mas quando pegar seu livro de novo, vou procurar.
P.s.2: continuo lhe respeitando, e cada vez mais, mas vou continuar lhe chamando de Zé mesmo! :)
P.s.3: tem um quebrado lá em casa.