21 de junho de 2009

Sebastião: sangue preto – parte 7

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Senti meu sangue ferver. Eu precisava fazer alguma coisa. Procuraria avisar ao meu senhor? Juntava-me aos negros lutando por minha liberdade? Prostrava-me no quarto e esperava os eventos desencadearem-se? Na certa não seria esta última opção, afinal eu nunca fora de deixar o destino transcorrer a revelia sem antes tentar forçar um desvio.

Apesar de todos os maus tratos a que minha raça era submetida na senzala, meu pai sempre me ensinou sobre benevolência, sobre como evitar o derramamento de sangue. A violência podia ser o modo branco de resolver os problemas, mas certamente não era o nosso. Pensei então numa solução razoável. Prepararia a fuga da família Coelho e alertaria os capatazes antes do início da pendenga, afinal os índios já haviam libertado os negros. O ataque ao casarão era um ato de vingança, uma atitude compreensível, mas desnecessária, da qual eu não me envergonharia de não participar.

Com uma sombrinha encontrada no quarto de Rita, forcei uma brecha na porta até arrombá-la. Eu tinha de ser rápido. Francisco devia estar posicionando seus asseclas para executar um ataque antes do nascer do sol, no momento em que o sono dos capatazes e do meu senhor fosse mais intenso.

Eu precisava avisar a Jorge sobre o ataque e incentivá-lo a fugir. A porta do quarto de Lúcio estava entreaberta. Ao invadir aquele quarto, nunca antes adentrado por mim, tive uma série de sensações. O quarto era escuro e tinha um fedor de carne podre misturado com algum perfume floral, que provavelmente foi utilizado para amenizar o cheiro insuportável que ali despontava. Nas paredes algumas fotos da família, quase soterradas com poeira. Numa estante, pilhas de livros velhos. A única janela do quarto estava lacrada com talas de madeira. No meio, à luz de um candelabro sujo e enferrujado, estavam Jorge e Rita. Só depois pude ver, mais a frente deles, Lúcio. Era apenas um garoto, mas tinha um aspecto animalesco. Estava acorrentado pelo pescoço numa cruz enorme de madeira, completamente inquieto, como um animal raivoso querendo se libertar de sua coleira. Usava uma enorme bata branca suja de sangue e aos seus pés jazia uma escrava com ferimentos nos pulsos e no coração. Sua face era demoníaca e seus olhos ardiam mais forte que a chama de uma vela. Seus dentes eram afiados como os de um lobo selvagem.

Naquele momento, algumas coisas ficavam mais claras para mim. Eram justamente nas luas cheias que Jorge raptava escravas na senzala. Embriagadas por Jorge com vinho tinto, elas não se recordavam do que havia acontecido quando retornavam a senzala. Algumas negras nem mesmo retornavam, mas o que se dizia na casa era que tinham sido alforriadas ou mesmo fugido durante a noite. Ao que parecia, não era bem assim.

– Negro maldito! Quem deu permissão para adentrar o sagrado quarto de nosso irmão? – gritou Jorge.

– Eu... Eu... Precisava avisar ao senhorzinho... Um ataque... – ainda estava pasmo com aquela cena e mal podia escolher minhas palavras.

– Eu vou é te dar um jeito, negro, para aprender a não te intrometer em assuntos da família Coelho! – disse Jorge, puxando uma espátula de um canto escuro do quarto.

Antes que Jorge se aproximasse de mim, a porta do quarto de Lúcio foi arregaçada, mostrando Francisco com um facão na mão e o pescoço de Antônio Maria na outra.

CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA
Texto por Zé Wellington.

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